Cristo e o Dia do Senhor



A expressão “Dia do Senhor- κυριακή ήμέα - que primeiro aparece como uma incontestável designação cristã para o domingo próximo à parte final do segundo século, denota um dia que pertence exclusivamente ao “Senhor - κυριού”. Já que o domingo tem sido tradicionalmente considerado por muitos cristãos como o dia do qual Cristo é Senhor e que é consagrado a Ele, podemos muito bem começar nossa pesquisa histórica da origem da observância do domingo verificando se Cristo antecipou a instituição de um novo dia de culto dedicado exclusivamente a Ele.

As declarações de Cristo encontradas nos evangelhos não contêm a expressão “dia do senhor”. Os Sinóticos (Mat. 12:8; Mar. 2:28; Luc. 6:5), entretanto, contêm uma locução semelhante, a saber, “Senhor do sábado - κυριού τού σαββάτου”, uma frase usada por Cristo no fim de uma discussão com os fariseus sobre a questão de legítimas atividades sabáticas. Vários autores têm procurado estabelecer uma relação causal entre Cristo proclamar a Si mesmo “Senhor do sábado” e a instituição do domingo como o “dia do Senhor”. C. S. Mosna, por exemplo, declara enfaticamente que “Cristo proclamou-Se senhor do sábado especificamente para liberar o homem das cargas cerimoniais referentes ao sábado, e que se tornaram desnecessárias”. Ele vê neste pronunciamento a intenção de Cristo de instituir Seu novo dia de culto. Semelhantemente, Wilfrid Stott interpreta o dito de Cristo como uma implícita referência ao domingo: “Ele é o Senhor do sábado e nesta expressão, citada por três dos Sinóticos, há uma referência oculta ao dia do Senhor. Ele, como Senhor, escolhe Seu próprio dia”. Para verificar a validade destas conjeturas, devemos determinar a atitude básica de Cristo quanto ao sábado. Indo direto ao assunto, Cristo observou verdadeiramente o sábado ou quebrou-o propositadamente? Se a última hipótese é a verdadeira então precisamos descobrir se Cristo, por Suas próprias palavras e atos, planejou estabelecer os fundamentos para um novo dia de culto que eventualmente substituísse o sábado.

Apelar para os críticos tornaria fútil esta investigação, pois eles consideram o relato evangélico dos ensinos e atividades de Cristo quanto ao sábado, não como autênticos fatos históricos, mas como reflexões posteriores da igreja primitiva. Afirmam que é impossível saber o que o próprio Jesus pensava a respeito. Não vemos nenhuma justificativa para este ceticismo histórico, especialmente porque uma nova busca do Cristo histórico tem começado que lança sombras sobre a metodologia anterior e promete encontrar nos Evangelhos um número muito maior de autênticos feitos e palavras de Jesus. Entretanto, mesmo se os materiais dos Evangelhos representassem reflexões posteriores da comunidade cristã (o que para nós é inadmissível), este fato não diminui o seu valor histórico. Ainda assim se constituem numa fonte valiosa para o estudo da atitude da Igreja primitiva quanto ao sábado. Na verdade, o espaço considerável e a atenção dada pelos escritores dos Evangelhos a curas realizadas por Cristo no sábado (não menos que sete episódios estão registrados) e controvérsias, são indicativos de quão importante era a questão do sábado na época em que foram escritos.



A Atitude de Cristo para com o Sábado

O fato de ter Cristo afirmado ser Ele o cumprimento das esperanças messiânicas inerentes ao sábado, levanta uma importante questão: como considera Cristo a atual observância do sábado? Confirmou Ele para Seus seguidores a validade de tal instituição como a inquestionável vontade de Deus? Ou considerou Cristo a obrigação de guardar o sábado como já estando cumprida, e anulou, pela Sua vinda, o verdadeiro sábado?

Alguns estudiosos consideram os debates e as curas que Cristo realizou no sábado como atos intencionais e provocatórios, destinados a mostrar que o mandamento do sábado não tinha mais a mesma força. J. Daniélou defende, por exemplo, que nos episódios de cura, “Cristo aparece concretamente como inaugurando o verdadeiro sábado (ou seja, o domingo”) W. Rordorf expressa a mesma convicção, e ainda mais enfaticamente, quando escreve que “o mandamento do sábado não estava meramente sendo posto de lado pela atividade curadora de Jesus: estava simplesmente sendo anulado”.



As Primeiras Interpretações Patrísticas



Infelizmente tais conclusões nem sempre são baseadas em uma análise do que Cristo realmente fez ou disse a respeito do sábado, mas em antigas interpretações patrísticas do que dizem os Evangelhos a respeito do sábado, e que se tornaram, e em grande parte ainda são, um legado tradicional e incontestável. Do segundo século em diante, de fato, escritores patrísticos produziram uma lista de “violações do sábado” mencionadas nos Evangelhos, freqüentemente acrescentando novos casos para ser estabelecida uma forte prova contra o sábado. Dos Evangelhos eles tomaram os exemplos de alegada “violação do sábado” mencionados por Cristo em Seu debate com os fariseus, que são: Davi, no sábado, juntamente com seus companheiros, comeu os pães da proposição (Mat. 12:3; cf. I Sam. 21:1-7), os sacerdotes neste mesmo dia circuncidaram (João 7:23) e ofereceram sacrifício (Mat. 12:5) e o próprio Deus não interrompe Seu trabalho no sábado (João 5:17). Este repertório foi enriquecido com outras “provas”, tais como o exemplo de Josué que quebrou o sábado quando “comandou os filhos de Israel ao redor dos muros de Jericó”, dos Macabeus que guerrearam no sábado, e dos patriarcas e fiéis que viveram antes de Moisés, supostamente sem guardar o sábado.

Se aceitamos (sem consentir) que tais argumentos baseiam-se em sólidos critérios de hermenêutica bíblica, não somos levados a crer que tais exceções apenas confirmam a natureza obrigatória do mandamento do sábado? Além disso, a pessoa que aceita o uso e interpretação que os Pais primitivos fazem do material dos evangelhos a respeito do sábado para determinar a atitude de Cristo, e também a sua, quanto ao sábado, não deve também concordar, para ser consistente, com suas negativas e conflitantes explanações do significado não apenas do sábado, mas também de toda a economia judaica?

Seria interessante descobrir se algum estudioso da Bíblia concordaria, por exemplo, com a declaração de Barnabé de que “a prática literal do sábado nunca havia sido o objeto de um mandamento de Deus”, ou que “os judeus perderam o concerto exatamente após Moisés recebê-lo” (4:7); ou com a hipótese de Justino de ter Deus imposto o sábado aos judeus como um sinal de infâmia para isolá-los para castigo aos olhos dos romanos; ou com a noção de Siríaco Didascalia de que o sábado fora imposto aos judeus como um tempo de lamentação; ou com o conceito de Afraates de que o sábado foi introduzido como um resultado da queda.

Se tais interpretações do significado e natureza do sábado devem ser rejeitadas como não comprovadas pelas evidências escriturísticas do Velho Testamento, então não existe nenhuma justificativa para usar como “prova” seus argumentos contra o sábado, já que em grande parte eles baseiam-se nesse tipo de pressupostos equivocados. Mais tarde em nosso estudo veremos que uma combinação de condições que aumentaram a tensão entre Roma e os judeus e entre a Igreja e a Sinagoga na primeira parte do segundo século, contribuiu para o desenvolvimento de um “anti-judaísmo de diferenciação”. Esta situação expressou-se em uma reinterpretação negativa tanto da história como das observâncias judaicas, como da guarda do sábado. Não podemos, portanto, avaliar as referências ao sábado nos Evangelhos, à luz de sua antiga interpretação patrística, mas devemos avaliar a atitude de Cristo quanto ao sábado examinando os documentos exclusivamente por seus próprios méritos.



Samuele Bacchiocchi, Do Sábado Para O Domingo.

Comentários

  1. Sejam bem vindos!



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