As Primeiras Curas no Sábado (parte 1)





Os evangelhos de Marcos e Lucas sugerem que Cristo primeiramente limitou Suas atividades de cura no sábado a casos especiais, sem dúvida porque estava ciente da explosiva reação que resultaria de Sua proclamação do significado e uso do sábado. Em Lucas, o anúncio inicial de sua função de Messias como um cumprimento do ano sabático (Luc. 4:16-21) é seguido por dois episódios de cura. O primeiro ocorreu na sinagoga de Cafarnaum, uma cidade da Galiléia, durante os serviços de sábado e resultou na cura espiritual de um homem possesso (Luc. 4:31-37). O segundo foi realizado imediatamente após a reunião na casa de Simão e resultou na restauração física da sogra de Simão (Luc. 4:38-39). Em ambos os casos, Cristo agiu por necessidade e amor. No primeiro caso, foi a necessidade de libertar uma pessoa do poder de Satanás e assim restaurar a ordem nos serviços que levou Cristo a agir. A função salvadora do sábado, que já está incluída neste ato de Cristo, será mais explicitamente proclamada em curas posteriores. No segundo caso Cristo atuou em consideração a um de Seus amados discípulos e sua sogra. Neste caso a cura física tornou o sábado um dia de regozijo para toda a família. Também é digno de nota que a cura resultou em serviço imediato - “e logo se levantou, passando a servi-los” (v. 39). O significado do sábado como redenção, regozijo e serviço já presente em uma fase embrionária nestas primeiras curas de Cristo, é revelado mais explicitamente no subseqüente ministério de Cristo aos sábados. Neste primeiro estágio, entretanto, a maior parte das atividades de cura de Cristo é deixada para depois do sábado, aparentemente para evitar uma prematura confrontação e rejeição: “Ao pôr-do-sol, todas os que tinham enfermos de diferentes moléstias lhos traziam; e ele os curava, impondo as mãos sobre cada um” (Luc. 4:40; cf. Mar. 1:32).



O Homem com a Mão Ressequida


O próximo episódio de cura, o do homem com a mão ressequida narrado por todos os três sinóticos (Mat. 12:9-21; Mar. 6:6-11), é o ponto de prova pelo qual Cristo começa Suas reformas sabáticas. Jesus encontra-Se na sinagoga diante de um homem com uma mão paralisada, levado ali, muito provavelmente, por uma delegação de Escribas e Fariseus. Estes tinham vindo à sinagoga não para adorar, mas para inspecionar Cristo e “ver se o curaria em dia de sábado, a fim de o acusarem” (Mar. 3:2). De acordo com Mateus, eles dirigiram a Cristo a probante pergunta: “É lícito curar no sábado?” (Mat. 12:10). Sua dúvida não era motivada por uma genuína preocupação pelo homem enfermo, nem por um desejo de explorar como o sábado está relacionado com o ministério da cura. Em vez disso, estavam ali como a autoridade que sabe todas as isenções previstas pela casuística rabínica, e que quer julgar a Cristo com base nas minúcias de seus regulamentos. Lendo seus pensamentos, Cristo Se entristece com a dureza de seus corações (Mar. 3:5). No entanto, aceita o desafio. Primeiro, convida o homem para se aproximar, dizendo: “Vem para o meio” (Mar. 3:3) Este passo possivelmente destinou-se a despertar simpatia para com o homem enfermo e ao mesmo tempo para cientificar a todos do que Ele estava para fazer. Então perguntou aos especialistas da lei: “É lícito nos sábados fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou tirá-la?” (Mar. 3:4) Para tornar a pergunta mais direta, de acordo com Mateus, Cristo acrescentou uma segunda, na forma de uma parábola (que aparece duas vezes mais, um pouco modificada em Luc. 14:5; 13:15), “Qual dentre vós será o homem que, tendo uma ovelha, e, num sábado esta cair numa cova, não fará todo o esforço, tirando-a dali? Ora, quanto mais vale um homem que uma ovelha?” (Mat. 12:11, 12)


Tais declarações levantam um importante debate. Pela pergunta inicial, que Cristo ilustrou com uma segunda pergunta contendo um exemplo prático, pretendeu Ele ab-rogar radicalmente o mandamento do sábado ou quis restaurar seus divinos valores e funções originais? Muitos estudiosos aceitam a opção anterior. L. Goppelt declara enfaticamente que “a dupla pergunta de Jesus assinala o fim do mandamento de sábado: não é mais uma ordenança estatucional e não tem mais validade absoluta, se esta ampla e justaposta alternativa é válida, a saber, salvar a vida”.


Esta interpretação repousa sobre a suposição de que “salvar a vida” é contrário ao espírito e função do sábado. Pode isto ser verdade? Talvez possa refletir o mal-entendido reinante e o uso errôneo do sábado, mas não o propósito original do mandamento do sábado. Aceitar tal suposição seria culpar a Deus de falhar em salvaguardar o valor da vida ao instituir o sábado. W. Rordorf defende a mesma conclusão da suposta “maneira errônea de dedução” da pergunta de Cristo sobre princípio e exemplo. Ele explica que da pergunta se é legal salvar ou matar e do exemplo de resgatar um animal em urgente necessidade, “ninguém, pode legitimamente tirar inferências que sejam válidas também para um ser humano com problemas de saúde que absolutamente não necessita de assistência imediata num sábado”.



O Mishnah é explícito a este respeito: “Em qualquer caso que exista uma possibilidade de a vida estar em perigo, a lei do sábado deve ser posta de lado”. Entretanto, no caso do homem com a mão ressequida, como em todos os outros exemplos de cura no sábado, não se dava a necessidade de socorrer algum doente numa emergência, mas sempre eram pessoas com doenças crônicas. Portanto, Rordorf conclui que o princípio de salvar a vida não descreve o valor da observância do sábado, mas é uma referência à natureza da missão do Messias, que devia estender a salvação imediatamente a todos os que estavam em necessidade. Em face a esta “consciência messiânica”, o mandamento do sábado tornou-se então irrelevante... foi simplesmente anulado”.


Esta espécie de análise não faz justiça a vários pontos da narrativa. Primeiro, a pergunta dirigida a Cristo era especificamente relacionada com o assunto da correta observância do sábado: “É lícito curar no sábado?” (Mat. 12:10). Em segundo lugar, a resposta de Cristo, na forma de duas perguntas (uma implicando um princípio e a outra ilustrando-o) também trata explicitamente da questão do que é legal realizar no sábado. Em terceiro lugar, a aparente errônea analogia entre a pergunta de Cristo sobre a legitimidade de “salvar a vida ou tirá-la” (Mar. 3:4) no sábado e o enfermo crônico cuja vida não seria salva nem perdida pelo adiamento da cura para depois do sábado, pode ser satisfatoriamente explicada pela nova avaliação que Cristo colocava sobre o sábado. Isto é explicitamente expresso na positiva declaração relatada por Mateus: “Logo, é lícito fazer bem aos sábados” (Mat. 12:12). Se é correto fazer o bem e salvar no sábado, então qualquer recusa de fazê-lo significa fazer o mal ou matar. Mais tarde veremos que este princípio é exemplificado na história por dois tipos opostos de guardadores do sábado.



Infelizmente, quando Rordorf não pode ajustar em seu esquema a positiva interpretação de Mateus a respeito do sábado, ele tenta resolver o problema acusando-o de “começar a moralística divergência da atitude de Jesus quanto ao sábado”. Tal divergência supostamente consiste em aceitar “que a obrigação de amar o próximo substitui em certas circunstâncias a ordem de guardar um dia de repouso”. É estranho que Mateus tenha realmente entendido mal ou realmente compreendido a pretensão de Cristo e a mensagem do sábado, quando escreveu “É lícito fazer bem aos sábados” (Mat. 12:12). É verdade que no judaísmo do pós-exílio, uma elaborada cerca foi construída ao redor do sábado para assegurar sua fiel observância. O exagero de minúcias e regras casuísticas (conforme o Rabino Johanan, havia 1521 leis derivadas) referentes à guarda do sábado tornou sua observância um ritual legalístico, em vez de um serviço de amor. Todavia, não é certo considerar o sábado exclusivamente à luz desse desenvolvimento legalístico posterior.



“A obrigação de amar o próximo” era a essência da primitiva história do sábado e suas instituições afins. Nas várias versões do mandamento do sábado, por exemplo, há uma constante lista de pessoas a quem a liberdade de repousar no sábado deve ser garantida. Os citados particularmente são em geral os criados, os filhos dos escravos, o gado, o hóspede e/ou estrangeiro. Isto indica que o sábado fora ordenado especialmente para mostrar compaixão pelas criaturas indefesas e necessitadas. “Seis dias farás a tua obra, mas ao sétimo dia descansarás: para que descanse o teu boi e o teu jumento; e para que tome alento o filho da tua serva e o forasteiro” (Êxo. 23:12). Niels-Erik Andreasen comenta acertadamente que “o dono da terra devia preocupar-se com o valor humano de seus súditos, assim como Yahweh, quando assegurou liberdade ao Seu povo”. É sem dúvida comovente que o sábado estava destinado a mostrar interesse até mesmo pelos animais. Mas, como bem destacou Hans Walter Wolff, “é mais tocante que, de todos os trabalhadores dependentes, o filho da escrava e o estrangeiro são especialmente destacados. Pois, quando tais pessoas eram obrigadas a trabalhar, não tinham nenhum recurso ou proteção”.


A dimensão original do sábado como um dia para honrar a Deus através da preocupação e compaixão para com os seres inferiores havia sido amplamente esquecida no tempo de Jesus. O sábado tinha se tornado no dia quando a realização correta de um ritual era mais importante que uma resposta espontânea ao clamor das necessidades humanas. Nosso episódio provê um bom exemplo desta perversão, contrastando dois tipos de guardadores de sábado. De um lado ficou Cristo, “condoído com a dureza dos corações” de Seus acusadores e dando passos para salvar a vida de um homem defeituoso (Mar. 3:4-5). Do outro lado ficaram os especialistas da lei que, embora estando no lugar de adoração, gastaram seu tempo de sábado “observando a Jesus... a fim de O acusarem... conspiravam em como lhe tirariam a vida” (Mar. 3:2, 6). Este contraste de atitudes pode bem ter gerado a explanação da pergunta de Cristo sobre a legitimidade de salvar ou matar no sábado (Mar. 3:4), ou seja, que uma pessoa que não está preocupada com a salvação física e espiritual de outros no sábado, está automaticamente envolvida em atitudes e esforços destrutivos.


O programa de reformas do sábado proposto por Cristo deve ser considerado no contexto de Sua atitude geral perante a lei. No sermão do monte, Cristo explica que Sua missão é restaurar as várias prescrições da lei às suas intenções originais (Mat. 5:17, 21). Esta obra de esclarecer o propósito atrás dos mandamentos era uma triste necessidade, pois com o acúmulo de tradições, em muitos casos sua função original estava obscurecida. Como Cristo colocou, “jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição” (Mar. 7:9). O quinto mandamento, por exemplo, que ordena honrar o pai e a mãe, conforme Cristo, havia sido substituído pela tradição do Corbã (Mac. 7:12-13). Aparentemente isto consistia em transferir um serviço ou uma obrigação a ser dedicada aos pais, em uma oferta a ser dada no Templo.


O mandamento do sábado não era exceção, e a menos que fosse libertado das muitas restrições casuísticas sem sentido, teria permanecido mais como um sistema para justiça própria do que como um tempo para amar o Criador-Redentor e os semelhantes.


Samuele Bacchiocchi, Do Sábado Para O Domingo.


*Grifos Nossos.

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