Por que tanta diversidade no Cristianismo?

Quem quer conhecer a verdade não se furtará de buscá-la, ainda que lhe pareça fatigante e doloroso.





Dentro do Cristianismo existem mais de 3.000 subdivisões, todas com a Bíblia aberta, mas em sua maioria fazendo o que querem e não o que Deus diz em Sua Palavra que devemos fazer. Por que tanta divisão dentro do cristianismo? Ora, o inimigo de Deus não quer cristãos equilibrados. Ou nos leva ao radicalismo ou ao liberalismo.



Por que Tanta Diversidade no Cristianismo?

Texto de Claude Bouchot 

 (publicado na Revue Adventiste, Décembre 1991 – nº 12
Tradução: Ruth Maria Cavalcante Alencar)

“Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” (Efésios 4:5-6)

"Então, se existe, segundo a Bíblia, um só Deus não poderia ter várias teologias! E, portanto, no seio do cristianismo, somos obrigados a reconhecer a existência de uma variedade de Igrejas. Por que tanta diversidade?

Tentaremos responder a esta questão frequentemente feita, tanto por cristãos como por não cristãos. Mais adiante relembraremos brevemente o que é o cristianismo e qual a sua fonte.


Definição do cristianismo em poucas palavras

Segundo o dicionário¹, o cristianismo é a “religião fundada sobre o ensinamento, a pessoa e a vida de Jesus Cristo”. Esta definição, embora sucinta tem entretanto a vantagem de nos conduzir diretamente a pessoa de Cristo, centro da doutrina cristã, pois graças a Ele, Deus realizou um plano para salvar os homens.


A fonte do cristianismo

Esta “história da redenção” é justamente o que relata a Bíblia que “é genuinamente o documento desta história; ela tem nela mesma a única razão de ser, ela encontra nela mesma a sua unidade. Isto significa que a essência do cristianismo, segundo suas fontes primitivas, é de ser uma redenção².”

Todos os cristãos (católicos, protestantes, ortodoxos) têm ao menos um ponto em comum: sempre admitiram a inspiração da Bíblia e a reconheceram como a Palavra de Deus escrita. Também, a origem divina das Escrituras lhe confere automaticamente uma indiscutível autoridade. Segundo a lógica, a revelação bíblica deveria então ser para o cristão a única autoridade soberana, o único fundamento do cristianismo, e isto ainda mais porque são os únicos escritos certificados por Cristo, como o explica claramente o escritor inglês J.Stoot³: “Cristo atestou a autoridade do Antigo Testamento e igualmente assegurou a do Novo Testamento ao dar poder aos apóstolos de ensinar em seu nome. Se quisermos nos submeter à autoridade de Cristo precisamos nos submeter à autoridade das Escrituras.”

“Outra razão ainda temos nós para, incessantemente, dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes.” (I Tessalonicenses 2:13) A exemplo da fidelidade desses primeiros cristãos de Tessalônica do qual fala Paulo, se todos os cristãos do mundo hoje quisessem se submeter a autoridade da Palavra de Deus como ela nos é revelada, então, poderíamos esperar a unidade no cristianismo. Infelizmente, a realidade nos obriga a fazer raciocínio inverso: a Escritura não sendo mais soberana para todos os cristãos resulta inevitavelmente na diversidade. Tocaremos na causa fundamental da multiplicidade atual das Igrejas cristãs, causa essencial que vamos tentar decompor.


Por que tantas Igrejas Cristãs?

Primeiramente, podemos ler a Bíblia de uma maneira bem literal ou, ao contrário, de uma maneira extremamente “liberal”, e entre estes dois limites a gama é bem extensa. Em todas as épocas, encontramos na cristandade a tentação de uma leitura “fora do texto”. Mas, este afastamento não ocorrerá sem provocar danos para um texto escrito de inspiração divina. O sentido original da Escritura se esvanecendo então, surgem rapidamente as interpretações erradas e contraditórias. Assim, desde os primeiros séculos, a Igreja, negligenciando a Palavra de Deus influenciada por numerosas filosofias e superstições pagãs, não pode evitar o nascimento em seu seio de um sincretismo cada vez mais absorvente.

Por outro lado, constatamos que em todo tempo e em todos meios cristãos, sentimos a necessidade de comentar os escritos bíblicos. Essas interpretações e opiniões, contendo a tradição da igreja, se transmitem também de geração a geração e são reconhecidas como úteis enquanto nos ajudam a compreender as passagens bíblicas difíceis, mas, como o escreveu J.Blocher, (4) “Não confundamos a explicação de um texto com o texto propriamente dito. A explicação não deve alcançar a anulação de um texto.(...) A tradição só pode ser explicativa, ela deve ser submissa ao documento.”

Deus, no Antigo Testamento, é muito firme sobre este ponto: “Toda palavra de Deus é pura; ele é escudo para os que nele confiam. Nada acrescentes às suas palavras, para que ele não te repreenda e sejas achado mentiroso.” (Provérbios 30:5-6).

Entretanto, os doutores da lei contemporâneos do Cristo caíram nesta armadilha e Jesus não os poupou de críticas: “E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus, para guardardes a vossa própria tradição. (...) invalidando a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós mesmos transmitistes; e fazeis muitas outras coisas.” (Marcos 7: 9,13)

Em sua epístola aos Colossenses, Paulo também adverte os primeiros cristãos deste risco permanente: “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com suas filosofias e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo;” (Colossenses 2:8)

A igreja pós-apostólica levou em consideração essas reiteradas advertências? Infelizmente, não! À medida que a importância da tradição e das confissões de fé aumentou a jovem igreja desvinculou-se lentamente de suas origens. O cristianismo tornou-se uma religião de Estado. “Com o tempo observamos a tradição como mais preciosa, mais prática do que a Bíblia. (...) achamos mais simples confiar nas interpretações (5).

Muito rapidamente a palavra tradição foi escrita com letra maiúscula. As proposições de fé se transformaram progressivamente em diretivas, depois em dogmas, desprovidos em sua maioria de fundamentos bíblicos contraditos pela própria Escritura. Finalmente, em 1965, o Concílio do Vaticano II elevou a Tradição ao mesmo nível da Bíblia. Mas, depois de um longo tempo, esta última deixou de ser a única referência na cristandade. Muitos cristãos têm dado à Tradição (fonte em permanente atualização) uma autoridade superior à da Bíblia (fonte distante!)

Aliás, em todas as épocas, homens e mulheres levantaram-se, indignados pelas infidelidades para com a Palavra de Deus e os erros doutrinários, e têm de maneira inegável, feito um retorno a autoridade da Escritura. Isto explica também a diversidade das Igrejas cristãs. Mencionamos, certamente, por memória, o grande movimento da Reforma do século XVI, que originou as Igrejas Protestantes ( luteranas, reformadas, anglicanas).

Tendo um fundo doutrinário comum (reconhecimento de uma única e soberana autoridade, a Palavra de Deus, e particularmente a pregação da justificação somente pela fé, princípio essencial do protestantismo), estas principais Igrejas nascidas da Reforma se diferenciam, entretanto, sobre numerosos pontos. Pouco tempo após, nos séculos XVIII e XIX, consecutivamente a uma renovação espiritual do protestantismo chamado Despertar na Europa e na América, nasceram outras Igrejas ditas “evangélicas”, herdeiras da Reforma, que passam a ensinar verdades bíblicas redescobertas e negligenciadas nas Igrejas protestantes. Assim, por exemplo, os batistas reclamam o valor do batismo adulto por imersão enquanto os adventistas reclamam a vigência dos dez mandamentos e se apegam com mais importância ao retorno de Cristo.

Se tentarmos representar esquematicamente sobre uma escala gráfica a posição atual dessas diferentes correntes em relação à sua origem bíblica, observamos à uma extremidade a igreja apostólica (referência) e em outra as Igrejas atreladas à uma forte Tradição (Igrejas católicas e ortodoxas...). Próximas dessas últimas e sempre mais ou menos sobre o terreno da Tradição – pois seu retorno histórico em relação à fonte é somente parcial – figuram, em degraus diversos, as Igrejas da reforma. Porém, as Igrejas “evangélicas” têm de qualquer forma perseguido esta Reforma, se distanciando significativamente da Tradição e sobre nossa escala, elas têm quase se unido ao ensinamento primitivo, pelo menos para os mais evangélicos. Bem que este esquema seja muito imperfeito, ele tem ao menos o mérito de nos elucidar sobre o distanciamento das “grandes famílias cristãs” em relação à sua fonte comum e dá uma imagem das distâncias destas famílias entre si.

Enfim, é preciso observar um último elemento que contribuiu para o crescimento da diversidade do cristianismo, especialmente depois da separação da Igreja e do estado, é a liberdade religiosa. Esta última, desconhecida durante muitos séculos de intolerância e de perseguições, constitui, portanto, uma das grandezas do cristianismo. Deus dá a todos os homens a liberdade de escolher, mesmo se este princípio produz a diversidade. Entretanto, entre Sua Palavra e a palavra dos homens (as tradições), Ele nos ensina sobre a boa escolha pelo intermédio de um dos Seus apóstolos (e não é qualquer um!): “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens”. (Atos 2:29) Se a escritura não é soberana para todos os cristãos – e retornamos à nossa causa – fundamental do início – é bem porque todos têm a liberdade de escolher, e a diversidade é então a conseqüência natural desta liberdade.


Diversidade mas unidade de espírito

Como forma de conclusão, sublinhamos esta restrição que será também o toque otimista de nosso ensaio. “Diversidade não quer dizer necessariamente divisão, nem oposição, nem hostilidade. (...) Existe na verdade uma unidade real de espírito entre os cristãos que o amor de Deus anima (isto é o que sublinhamos) qualquer que seja a Igreja a qual se unem durante sua vida. São irmãos apesar de certas divergências de opiniões, contanto que elas não advenham de divergências do coração. O Cristo os uniu sem lhes obrigar a entrar em uma mesma comunidade religiosa se suas consciências não o consentem.” (6)

Subscrevemos inteiramente a esta declaração e pensamos que existem cristãos autênticos em todos os meios citados anteriormente, os cristãos que, se arrependem dos seus pecados, aceitam Jesus Cristo como Senhor e Salvador, cristãos que submetem todas as tradições humanas à autoridade da Bíblia, compreendendo melhor, cristãos cujo único ideal é se aproximar mais e mais (alguns com coragem) da verdadeira fonte de sua religião, a fim de seguir mais fielmente as marcas de Cristo e dos apóstolos. Mesmo que eles façam parte de diferentes denominações e não compartilhem necessariamente todas suas idéias, existe sem nenhuma dúvida uma certa unidade de espírito entre os crentes que, em verdade, formam a Igreja de Deus da qual fala o Novo Testamento."


Referências Bibliográficas:

1.      Micro Robert,Dictionnaire du français primordial, 1985.
2.    G.Frommel, Études morales et religieuses,Saint-Blaise, 1908, p. 13, 14.
3.    J.Sctott, Comprendre la Bible, éd. Grâce et Vérité, Mulhouse, p.170.
4.    J.Blocher, Le catholicisme à la lumiére de l’Écriture Sainte, éd. Institut Bíblique de Nogent, Nogent-sur-Marne, 1979, p.23.
5. R.Pache, Línspiration et l’Autorité de la Bible, éd. Emmaüs, Saint-Lègier-sur-Vevey, 1967, p. 290.
6.    E.Itty, Illusions et trahisons de notre temps,1967, p.17,19.




Ruth Alencar

Comentários

  1. Ruth, muito bom o texto. É esclarecedor.
    As igrejas cristãs acreditam que há um só Deus e Pai de todos, mas cada uma acha que está com a verdade e a outra não. Ora Jesus é a Verdade, Ele disse"sou o Caminho, a Verdade e a Vida..." então ninguém pode tomar posse dessa Verdade.
    A igreja tem que ver se está na Verdade.
    Jesus é contigo. Parabéns por desenvolver o talento que Ele te deu!

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  2. Então, Marta, muitos dizem que todos os caminhos levam a Deus. Eu já acho que Deus passeia em todos os caminhos buscando os que são DEle, pois, só há um caminho: Jesus Cristo.

    Ele é a verdade absoluta. É Ele, então, a referência para nós nesta busca em conhecer a Verdade

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  3. .
    .

    Por que tantas Igrejas Cristãs?

    “Primeiramente, podemos ler a Bíblia de uma maneira bem literal ou, ao contrário, de uma maneira extremamente “liberal”, e entre estes dois limites a gama é bem extensa.”

    Nem tanto, nem tão pouco! Nem literalidade radical, nem liberalidade irresponsável.
    Sensatez, equilíbrio, bom senso!

    Particularmente, acredito que se erra mais pela radicalização literal do que pelas interpretações racionais dos textos.

    Pode ser exagero, mas, provavelmente, 50% dos textos bíblicos não comportam interpretação literal. Segundo entendo!

    Mas, para dirimir dúvidas, poderíamos escolher um livro qualquer e fazer uma avaliação do que é e do que não é literal.

    Fraternalmente

    Pedro
    .
    .

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  4. Olá, Pedro que bom vê-lo por aqui.

    Interessante... esta tarde estava refletindo estudarmos os livros da Bíblia.

    Gostei muito da sua sugestão. Diga por onde vc gostaria que començassemos.

    Não trataremos neste post. Criaremos um específico para cada livro. Sugira um.

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