O Sábado na Epístola aos Hebreus



O eco deste significado redentivo do sábado encontra-se em Hebreus, como mencionamos anteriormente, onde ao povo de Deus é reassegurada a permanência das bênçãos do repouso sabático (4:9), e onde este povo é exortado a aceitá-las (4:11). O autor de Hebreus está trabalhando com uma comunidade de cristãos judeus que aparentemente crê que as bênçãos da guarda do sábado estão associadas ao concerto dos judeus como nação. De fato, a observância do sábado estava ligada à prosperidade material que apenas os membros da comunidade do concerto podiam desfrutar em um estado de paz política. Para separar estes cristãos judeus desse aspecto exclusivista e material do sábado, e para estabelecer sua natureza universal, redentiva e espiritual, o autor associa dois textos do Velho Testamento - Gên. 2:2 e Sal. 95:11. Pelo primeiro, ele traça a origem do repouso sabático desde o tempo da Criação quando “descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera” (Heb. 4:4; cf. Gên. 2:2-3; Êxo. 20:11; 31:17). O fato de ter o sábado sua origem com Deus dá-lhe validade universal e eterna. “Este sábado de Deus”, como bem declarou Adolph Saphir, “é o substrato e base de toda paz e repouso - o penhor de um supremo e satisfatório propósito na Criação”. Pelo último (Sal. 95:11) ele explica o escopo deste “repouso sabático” que inclui as bênçãos da salvação, que podem ser encontradas pelos que se entregam pessoalmente ao “descanso de Deus” (4:5, 10, 3, 5).

Para demonstrar este escopo universal redentivo das “boas-novas” (4:2) do repouso sabático que “a nós foram anunciadas... como se deu com eles (os israelitas)” (4:2) e que pode ser conseguido pessoalmente pela “fé” (4:2), o autor de Hebreus apresenta várias notáveis conclusões do Salmo 95. Primeiro, ele argumenta que o juramento de Deus (v. 11) de que os israelitas não entrariam no Seu descanso indica que Deus tem prometido um repouso sabático, apesar de que a geração do deserto não entrou (na prometida terra de descanso) por causa da “desobediência” (4:6; cf. 3:16-19). “Portanto”, diz ele, “resta entrarem alguns nele” (4:6). Em segundo lugar, ele procura mostrar que o repouso sabático de Deus não estava esgotado, mesmo na geração seguinte, quando os israelitas, comandados por Josué, entraram na terra de descanso, “falando por Davi, muito tempo depois...: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Heb. 4:7; cf. Sal. 95:7). O fato de Deus “outra vez” renovar Sua promessa, muito tempo depois da proclamação original das boas novas do repouso sabático, já no tempo de Davi, dizendo “hoje”, indica que a promessa de entrar no repouso sabático de Deus ainda “resta... para o povo de Deus” (4:9).

Por último, o escritor mostra que, segundo muito bem dito por G. von Rad, “o ‘hoje’ no qual o Salmo renova o divino oferecimento de descanso refere-se à volta de Cristo” (4:7). Por essa linha de raciocínio ele é capaz de demonstrar que o sábado possui um significado tridimensional. Primeiro, comemora, a conclusão da Criação. Posteriormente vem a simbolizar a promessa de entrar numa terra de repouso e seu cumprimento temporal. Por fim, “estes dois significados”, que como observou J. Daniélou, “foram a prefiguração e a profecia de outros ‘sabatismos’, de um sétimo dia, que ainda não tinham acontecido”, estão sendo cumpridos e tornam-se uma realidade para o povo de Deus através de Jesus Cristo. Pela justaposição dos dois textos (Gên. 2:2 e Sal. 95:11) o escritor de Hebreus demonstra a inabalável certeza de o que o povo de Deus através de Cristo compartilha inteiramente do propósito da Criação e Redenção simbolizado pelo descanso sabático.

Pode-se argumentar que, sendo que o autor da Epístola não está discutindo a observância do sábado em si, mas a permanência e cumprimento de suas bênçãos, nenhuma inferência pode ser deduzida quanto à sua literal observância. Tal observação é justificável, pois a Epístola é endereçada a uma comunidade judaica cristã que mantinha estritamente as observâncias judaicas, como a guarda do sábado. O fato de o autor não estar engajado numa polêmica defesa da validade da observância do sábado, e sim em uma exortação para experimentar suas bênçãos que “restam para o povo de Deus” (4:9), torna seu testemunho mais valioso que os demais, pois já considera como certa a sua observância. O que os destinatários da Epístola precisavam saber não era a obrigação do mandamento do sábado, mas sim o seu verdadeiro significado à luz da vinda de Cristo.

A maioria dos comentaristas ao interpretarem o “repouso sabático (ou a guarda de um sábado), que resta para o povo de Deus” (4:9) como uma exclusiva realização futura, têm falhado ao reduzir a implicação desta exortação à sua presente observância. Samuel T. Lowrie sugere uma plausível explicação do predominante mal entendido do ensino desta epístola a respeito da guarda do sábado. A epístola somente obteve reconhecimento canônico (no Ocidente aproximadamente no quarto século) após a existência de “igrejas compostas de hebreus convertidos”. O resultado foi que os intérpretes gentios desconhecendo as circunstâncias dos leitores originais da epístola omitiram os pontos que deviam ser apreendidos pelos primitivos conversos judeus.

Deve-se notar que embora a reafirmação de um descanso que resta para o povo de Deus (9:4) e a exortação para entrar neste descanso (4:11) possa sugerir um futuro cumprimento dessas bênçãos, a passagem inteira também contém várias importantes indicações de uma presente experiência em guardar o sábado. No verso 3, por exemplo, o escritor declara enfaticamente: “Nós, porém, que cremos, entramos no descanso”. Aqui o tempo presente, como notou R. C. H. Lenski, não expressa uma abstrata universalidade, pois então deveria ser “eles entram”. A forma pessoal “nós entramos” refere-se ao escritor e aos leitores “que creram (4:3) e que, no presente, entram no descanso, descrito no verso seguinte como sendo o divino descanso sabático disponível desde a criação do mundo (4:3-4). Da mesma forma, o verbo “resta” (4:6,9) que literalmente significa “deixar atrás” é um presente passivo e, portanto, não implica necessariamente um panorama futuro. O verso 9 pode ser traduzido literalmente: “Portanto um repouso sabático é deixado atrás para o povo de Deus” já que a geração de Josué não esgotou suas promessas (v. 8). O tempo presente enfatiza sua presente permanência em vez de sua futura possibilidade.

A força de dois “hoje” no verso 7 também é significativa. O “hoje” do Salmo em que Deus renova as “boas novas” (4:6) de Seu descanso, indica ao escritor que, desde que o evangelho do descanso sabático era novamente oferecido nos dias de Davi, ele estende-se à época do cristianismo. A condição para aceitar é a mesma: não endurecer o coração quando ouvir a Sua voz (4:7). Não se trata de uma futura resposta às boas novas, mas de uma aceitação presente - hoje. Tal resposta bem representa o significado da observância do sábado. No verso 10 este conceito é mais bem esclarecido por meio da analogia entre o descanso de Deus e o do homem: “aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas”. Os dois verbos “entrou” e “descansou” não estão no futuro, mas no tempo aoristo, indicando assim, não uma experiência futura, mas uma que embora tenha ocorrido no passado continua no presente. Na versão em inglês RSV, os dois verbos estão no presente (“entra” e “descansa”) porque o contexto aparentemente destaca a qualidade presente e infinita do descanso de Deus (4:1, 3, 6, 9, 11). Deixar de entender este ponto tem levado alguns expositores a interpretar este repouso como o repouso da morte ou a futura herança dos crentes no céu. Dificilmente seria esta a única intenção do autor, já que ele está lutando para demonstrar que um descanso sabático ainda resta no presente para o povo de Deus (4:9).

O auge da analogia no verso 10 não são as obras em si, pois as obras de Deus são boas, enquanto que as dos homens são más (cf. Heb. 6:1—obras mortas); então a analogia é feita em termos da imitação humana do divino descanso do trabalho. Esta é uma simples declaração da natureza do sábado, pois a cessação do trabalho é seu elemento essencial, já que está escrito que “descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera” (Heb. 4:4). O autor então explica a natureza do repouso sabático que resta para o povo de Deus (4:9) referindo-se à sua característica básica, ou seja, a cessação do trabalho (4:10). Todavia, o que isto significa? Estaria o autor de Hebreus meramente dando a seus leitores encorajamento para interromperem suas atividades seculares no sábado? Sendo judeus cristãos, dificilmente eles precisariam se lembrar disto. Além do mais, isto produziria uma idéia negativa de descanso, e as bênçãos do repouso sabático dificilmente podiam ser apenas uma simples negação.

Obviamente o autor atribui um significado mais profundo ao descanso no sábado. Isto pode ser visto na antítese entre aqueles que falharam ao entrar em seu repouso por causa da descrença (4:6, 11) - isto é, falta de fé que resulta na desobediência - e aqueles que nele entraram “pela fé” (4:2, 3), isto é, fé que resulta em obediência. O ato de descansar no sábado representa então alguém parar com o que está fazendo a fim de poder experimentar ser salvo pela fé (4:2, 3, 11). Os crentes, como expressa Calvino, devem “parar o seu trabalho para permitir que Deus trabalhe neles”. Descansando no sábado, à semelhança de Deus (4:10), o crente, como expõe K. Banir, “participa conscientemente na salvação oferecida por Ele (Deus)”.

O repouso sabático que resta ao povo de Deus (4:9) é para o autor da epístola não um mero dia de inatividade, e sim uma oportunidade, renovada a cada semana, de entrar no repouso de Deus, o que equivale a dizer, de livrar-se dos cuidados do trabalho e aceitar livremente pela fé as totais bênçãos da Criação-Redenção de Deus. Deve-se notar, no entanto, que esta experiência sabática das bênçãos da Redenção não está esgotada no presente, pois a passagem prossegue dizendo que devemos nos “esforçar por entrar naquele descanso” (4:11). Esta orientação para o futuro corresponde também, ou mesmo pode ter sido causada, pela antecipação da redenção final que o sábado resume. Tanto no Velho Testamento como na literatura rabínica, o sábado também é considerado como um tipo de mundo por vir. Assim, a seu próprio modo, a epístola aos Hebreus expressa a essência da guarda do sábado (que também é o âmago da vida cristã), ou seja, a tensão entre experimentar no presente a benção da salvação, e a escatológica consumação na Canaã celeste.

Esta ampliada interpretação da guarda do sábado aparentemente destinava-se a afastar os cristãos judeus de uma concepção externa e material de sua observância. Não sabemos quanto nosso autor estava relacionado com o material a respeito do sábado dos Evangelhos, mas não nos enganamos ao perceber em sua interpretação um reflexo da visão redentiva do sábado defendida por Cristo como discutimos anteriormente. O significado da permanência do divino repouso sabático de Hebreus 4 (cf. v. 3, 4, 5, 10) está, por exemplo, bem subentendido nas palavras do Senhor mencionadas em João 5:17 - “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”. O descanso de Deus é, indubitavelmente, sua contínua atividade salvadora que tem por objetivo restaurar para Si o homem caído. Cristo, como o Enviado do Pai para redimir e restaurar o homem, representa a suprema manifestação do repouso de Deus. Por esta razão a grande promessa de Cristo de dar descanso a todos os que vão a Ele (Mat. 11:28) é a essência do repouso sabático disponível ao povo de Deus (Heb. 4:1, 3, 6, 9, 11). Estas bênçãos da salvação que desfrutamos pela fé desde agora, no sábado, serão plenamente experimentadas ao final de nossa peregrinação nesta Terra. O fato de encontrarmos em Hebreus 4 um reflexo de como Cristo considera o sábado - uma ocasião de experimentar as bênçãos da salvação, prova que os cristãos primitivos (pelo menos alguns) interpretavam os ensinos de Cristo não como uma literal ab-rogação, mas como uma valorização espiritual do mandamento.

Comentários

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