As Aparições Do Cristo Ressurreto




Outra explicação similar e, contudo, diferente para a origem da observância do domingo tem sido popularizada por W. Rordorf em sua recente monografia sobre a origem e a primitiva história do domingo, como traduzida e publicada em várias línguas. O autor, com uma brilhante, porém tortuosa argumentação, inter-relaciona a Última Ceia de Cristo, os alimentos que o Senhor ressurreto consumiu juntamente com Seus discípulos no Domingo de Páscoa, o partir de pão praticado na mais antiga comunidade, e a ceia do Senhor descrita em I Cor. 11:17-34.28 Ele conclui que tudo isto tem suas “raízes na ceia da Páscoa, quando o Senhor ressuscitado esteve presente em forma visível com Seus discípulos, e podemos determinar um ponto definido no tempo para a ceia da Páscoa: aconteceu na noite de domingo!” Além do mais, o fato de que Cristo apareceu e comeu juntamente com os discípulos “não somente na noite do Domingo de Páscoa, mas também no domingo seguinte (João 20:26) e talvez mesmo em outros domingos depois daquele (Atos 10:41), é interpretado como o estabelecimento de um modelo regular para uma celebração eucarística regular todo domingo à noite. Portanto, o domingo supostamente receberia seu nome “dia do Senhor” bem como seu culto eucarístico, da “ceia do Senhor” que na noite da Páscoa passou por “uma segunda instituição” quando o Senhor ressurreto celebrou o ritual novamente com Seus discípulos.


É possível que as refeições consumidas pelo Cristo ressuscitado, juntamente com Seus discípulos, nas ocasiões de Suas várias aparições, como Otto Betz expõe, tornaram-se “as bases de um novo culto revolucionário entre os mais antigos cristãos”? Os relatos evangélicos do evento desabonam tal hipótese. Os discípulos, por exemplo, se haviam reunido na noite do domingo de páscoa “com portas fechadas” (João 20:19) ainda confusos, e não crendo na ressurreição (Luc. 24:11), não para celebrar a ceia do Senhor, mas “por medo dos judeus” (João 20:19). João, embora escrevesse no final do primeiro século, quando, supostamente os cristãos estavam celebrando a Ceia do Senhor no domingo, não faz referência a quaisquer refeições que Cristo tenha tomado com Seus discípulos na noite da Páscoa. A omissão deste detalhe dificilmente pode ser justificada se a ceia da Páscoa fosse considerada o ponto de partida crucial da guarda do domingo. E ainda mais, o fato de que João realmente menciona uma refeição que Cristo tomou com Seus discípulos em uma manhã de um dia da semana na praia do lago da Galiléia (João 21:13), fortemente sugere que nenhum significado particular era atribuído à refeição de Cristo na noite de domingo de Páscoa.


É difícil acreditar que os discípulos vissem a ceia da noite da Páscoa como “uma segunda instituição da Ceia do Senhor”, quando Lucas, o único que relata a ceia, “não faz menção”, como C. S. Mosna observa, “de uma fractio panis”, isto é, de um partir do pão. Os discípulos, de fato, “deram-Lhe (isto é, a Cristo) um pedaço de peixe assado, e ele o tomou e comeu perante eles” (Luc. 24:42-43). Não há menção de pão ou de vinho, nem de um ritual de bênçãos. Os discípulos não receberam os elementos eucarísticos de Cristo, mas “deram-Lhe um pedaço de peixe assado” (v. 42). Somente Cristo comeu. Por quê? A resposta está explicitamente fornecida no contexto (versos 36-41) onde Cristo pede não pelo pão e vinho, mas por “alguma coisa para comer” (v. 41) a fim de certificar aos discípulos da realidade física de seu corpo ressuscitado.


A menção da aparição de Cristo “oito dias depois” (João 20:26), supostamente no domingo seguinte ao da Sua ressurreição, dificilmente pode sugerir um costume regular de observância do domingo, pois o próprio João explica a razão: a ausência de Tomé na ocasião da aparição anterior (v. 24). Semelhantemente, nesta ocasião, João não menciona ceia com algum culto, mas simplesmente a demonstração tangível de Cristo a Tomé, da realidade de Sua ressurreição corpórea (versos 26-29). O fato de que “oito dias depois” os discípulos estivessem reunidos novamente não é surpreendente, pois é-nos dito que antes do Pentecostes, eles estavam juntos no cenáculo e aí reuniam-se diariamente para edificação mútua (Atos 1:13, 14; 2:1).


As aparições de Cristo não seguem um sistema coerente. O Senhor apareceu a indivíduos e a grupos não somente no domingo, mas em ocasiões, lugares e circunstâncias diferentes. De fato, Ele apareceu a pessoas sozinhas como a Cefas e Tiago (I Cor. 15:5, 7), aos doze (versos 5, 7) e a um grupo de quinhentas pessoas (v. 6). Os encontros ocorreram, por exemplo, enquanto se reuniam a portas fechadas por medo dos judeus (João 20:19, 26) enquanto viajavam na estrada para Emaús (Luc. 24:13-35) ou enquanto pescavam no lago da Galiléia (João 21:1-14). Nenhum sistema coerente pode-se deduzir das aparições de Cristo para justificar a instituição de uma regular celebração eucarística no domingo. De fato, com somente dois discípulos em Emaús, Cristo “tomou o pão e o abençoou; e partiu-o e deu a eles” (Luc. 24:30). Este último exemplo pode parecer uma celebração da Ceia do Senhor. Porém, na realidade, era uma refeição comum para a qual Jesus foi convidado. Cristo aceitou a hospitalidade dos dois discípulos e assentou-se “à mesa com eles” (Luc. 24:30). Segundo o costume de então, o Senhor “pegou o pão e o abençoou, partiu-o e deu a eles” (v 30). Este ato, como é explicado por J. Behm, era “simplesmente uma parte costumeira e necessária da preparação para comer-se em grupo”. Vinho algum foi servido ou abençoado, pois a ceia foi abruptamente interrompida pelo reconhecimento do Senhor “no partir do pão”. (v. 35; cf. 31).


Ver em qualquer ceia que Cristo haja participado com os discípulos após a ressurreição uma “segunda instituição” da Ceia do Senhor, conflitaria também com o penhor que fez Jesus na Última Ceia: “Digo-lhes que não beberei novamente do fruto da vinha até aquele dia em que o farei de novo convosco no reino de meu Pai” (Mat. 26:29; cf. Marcos 14:25, Luc. 22:18). Como todos os evangelhos sinóticos unanimemente relatam a promessa de Cristo de não participar novamente dos elementos sagrados com os discípulos, neste mundo presente, eles não poderiam ter visto qualquer ceia posterior, tomada com Cristo, como uma reencenação da Última Ceia, sem considerar seu Mestre culpado de incoerência ou contradição.


Por último, devemos notar que, segundo Mateus (28:10) e Marcos (16:7), as aparições de Cristo ocorreram não em Jerusalém (como mencionam Lucas e João), mas na Galiléia. Isto sugere que, como S. V. McCasland corretamente observa, “a visão bem pode ter sido dez dias mais tarde, após a festa dos pães asmos, como indicado nos fragmentos finais do Evangelho de Pedro. Se a visão, porém, nessa data foi no domingo, certamente não seria possível explicar a observância desse dia com base em algo tão ocasional”.


Conquanto possa ser difícil explicar as discrepâncias das narrativas nos Evangelhos, o fato de Mateus e Marcos não fazerem nenhuma referência a qualquer ceia ou encontro de Cristo com Seus discípulos no domingo de Páscoa, implica que nenhuma importância particular foi atribuída à ceia que Cristo partilhou com Seus discípulos na noite do domingo de Sua ressurreição.


Quanto às aparições de Cristo, portanto, enquanto por um lado reanimassem grandemente os desencorajados discípulos com a certeza da ressurreição de Cristo, dificilmente poderiam ter sugerido, por outro, uma comemoração semanal repetitiva da Ressurreição. Elas ocorreram em diferentes ocasiões, lugares e circunstâncias, e nas ocasiões em que Cristo comeu, Ele participou de alimento comum (como peixe), não para instituir um culto dominical eucarístico, mas para demonstrar a realidade de Sua ressurreição corpórea.

Comentários

  1. Sejam bem vindos!



    Melhor visualização do blog no Google Chrome e Firefox!



    Em alguns navegadores poderá ocorrer a não visualização de comentários postados ou poderá ocorrer a visualização de comentários sobrepostos aos posts recomendados: "Poderá também gostar de:".


    Boa leitura a todos!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Estamos felizes com sua participação. Volte sempre. Responderemos seu comentário logo que possível.

Postagens mais visitadas deste blog

3º Dia: Por que as coisas pioram quando mais buscamos a Deus?

O Rio Jordão: As Águas de Naamã

Revelação e Explicação do Sonho de Nabucodonosor - Capítulo 2