Três Textos do Novo Testamento e a Origem do Domingo (parte 2)



Atos 20:7-12

O segundo texto crucial para nossa investigação é um relato de primeira mão feito por Lucas (emprego de nós-Atos 20:4-15) de uma reunião em Troas que ocorreu no primeiro dia da semana. O escritor, que juntou-se novamente a Paulo e sua equipe em Filipos (Atos 20:6), relata agora na primeira pessoa do plural e com pormenores consideráveis a reunião que aconteceu em Troas na véspera da partida de Paulo. Ele escreve: Verso 7: “No primeiro dia da semana quando nos reunimos para partir o pão, Paulo falou com eles, pretendendo partir de manhã; e prolongou seu discurso até à meia-noite”. Verso 8: “Havia muitas luzes no aposento superior em que estávamos reunidos”. Verso 9: “E um moço chamado Êutico que estava sentado na janela caiu do terceiro andar, tomado de um sono profundo que lhe sobreveio durante o extenso discurso de Paulo e foi levantado morto”. Verso 10: “Paulo, porém, descendo, inclinou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: “Não vos alarmeis, pois sua vida está nele”. Verso 11: “E quando Paulo subiu partiu o pão e comeu, ainda lhes falou longamente, até a alvorada, e então partiu”. Verso 12: “E levaram vivo o moço e ficaram grandemente confortados”.



Atribui-se importância fundamental a esta passagem, visto que contém a única referência explícita do Novo Testamento a uma reunião cristã conduzida “no primeiro dia da semana... para partir o pão” (Atos 20:7). F. F. Bruce, por exemplo, afirma que esta declaração “é a primeira evidência não ambígua que temos para a prática cristã de reunir-se para adoração neste dia”. P. Jewett semelhantemente declara que “aqui está o primeiro e mais claro testemunho de assembléia cristã com o propósito de adoração no primeiro dia da semana”. “Declarações como esta que vêem Atos 20:7 como a primeira evidência inequívoca da observância do domingo” poderiam ser multiplicadas.



Estas conclusões categóricas repousam, principalmente na suposição de que o verso 7, 1ª p., representa “uma fórmula fixa” que descreve o tempo habitual (“no primeiro dia da semana”) e a natureza (“para partir o pão”) do primitivo culto cristão. Todavia, como a reunião ocorreu noitinha e “o partir do pão” se deu após a meia-noite (versos 7 e 11) e Paulo deixou os crentes de madrugada, várias questões precisam ser consideradas antes de se fazer qualquer declaração conclusiva.




1 - A época e a finalidade da reunião de Troas eram ordinárias ou extraordinárias, ocasionadas, talvez, pela partida do apostolo?



2 - Como era uma reunião ao anoitecer, a expressão “primeiro dia da semana” indica sábado à noite ou domingo à noite?



3 - Em outras palavras, Lucas faz o cômputo de dias de anoitecer a anoitecer, segundo o costume judaico, ou de meia-noite a meia-noite, segundo o costume romano? (De acordo com o primeiro, o anoitecer antes do domingo era considerado como a noite do primeiro dia, e segundo o último, a noite que se seguia ao domingo era a noite do primeiro dia).



4 - A locução “partir o pão” já era utilizada como uma fórmula fixa para designar exclusivamente a celebração eucarística? O “partir do pão” ocorria somente no primeiro dia da semana?



5 - À luz do contexto, era o “partir do pão” realizado por Paulo em Troas, parte da habitual da celebração dominical da Ceia do Senhor?



6 - Ou era, talvez, uma ceia de companheirismo organizada como despedida de Paulo? Ou era uma combinação de ambas? Como tentativa de se responder a estas questões fundamentais, várias considerações merecem atenção.



Diversos eruditos sustentam que a reunião ocorreu na noite de domingo porque Lucas, que se havia misturado com os gentios e a eles escrevia, usava o cômputo romano que considerava o dia de meia-noite a meia-noite. Em tal cômputo, como observamos acima, uma reunião na noite do primeiro dia da semana só poderia ser no domingo à noite. As passagens que supostamente apóiam o sistema romano são encontradas em Atos 4:1; 20:7; 23:31-32. Em cada caso, o termo “manhã” é mencionado no contexto de uma ocorrência noturna. A argumentação é que como Lucas fala de “manhã” como sendo um novo dia no anoitecer, quando, segundo o cômputo judaico, o novo dia já havia começado, isto significa que ele emprega, não o sistema judaico de computar o tempo, mas o romano, (Segundo este, o novo dia começa depois da meia-noite.) A debilidade do argumento repousa no fato de que a expressão th epaurion ou th aurion não significa exclusivamente “no dia seguinte” mas pode igualmente ser traduzida “na manhã seguinte”. Ambas as alternativas são legítimas traduções do grego. De fato, a palavra aurion é derivada de ewv, que significa “alvorada”. Portanto, a palavra por si, como destacou Pirot-Clamer, “designa a manhã seguinte sem julgar antecipadamente se esta manhã pertence ou não ao novo dia”. De fato, a palavra “dia-hmevra” deve estar acrescentada ou estar implícita em “manhã-th epaurion”, para traduzi-la “no dia seguinte”. Tudo isto é para demonstrar que as evidências do emprego do cômputo romano são deveras débeis.



Entretanto, mesmo aceitando que Lucas empregou o cômputo romano, isto significaria que os crentes se reuniram na noite de domingo e conseqüentemente, o “partir do pão” (supostamente a parte essencial do culto dominical), que acorreu após a meia-noite, teria ocorrido durante o limite de tempo da segunda-feira. Em tal caso, a hora da celebração da Ceia do Senhor não forneceria apoio direto algum para a guarda do domingo. R. C. E. Lenski reconhece este dilema quando diz: “É verdade que este é o primeiro culto cristão realizado no domingo, registrado em Atos; contudo, pouco se pode provar a partir dele, uma vez que foi uma reunião especial em cada pormenor; e Paulo e sua equipe partiram cedo na manhã de segunda-feira... Se este houvesse sido um culto em uma manhã de domingo, ser-nos-ia de maior validade para estabelecer o domingo como dia regular de adoração na congregação apostólica”.



Este autor busca solucionar o problema alegando gratuitamente que “deveras um culto matutino foi feito em Troas neste domingo, ainda que Lucas não faça menção alguma dele. Também achamos que Paulo propositadamente iniciou sua jornada na segunda-feira”. Este esforço para se acomodar a história a fim de se compor um quadro para o culto do domingo é deveras engenhoso, porém, infelizmente baseia-se no que a passagem não diz. Por que haveria Lucas negligenciado mencionar a reunião mais madrugadora, quando ele, como testemunha ocular fornece tantos detalhes do evento? Por que deveria o “partir do pão” ter sido postergado até depois da meia-noite se os crentes haviam se reunido antes, de manhã, para o culto dominical? Além do mais, é difícil acreditar que Paulo, por respeito ao domingo, adiasse sua partida até a manhã de segunda-feira, quando em Filipos ele velejou após os dias dos pães asmos (Atos 20:6) e chegou em Troas presumivelmente no domingo, pois permaneceu aí “por sete dias” (Atos 20:6) antes de sua partida na manha seguinte.



Argumentar pelo emprego de Lucas do cômputo romano de dias e assim colocar a reunião de Troas na noite de domingo, solapa os mesmos argumentos procurados para apoiar uma regular observância do domingo a partir da passagem, bíblica. C. S. Mosna bem declara esta razão quando assevera: “Ou se mantém que a Eucaristia foi celebrada dentro dos limites das horas de domingo, e portanto, na noite entre o sábado e o domingo, ou a especificação do dia por Lucas não tem valor e o texto nada tem a dizer no que concerne ao culto dominical”.



Temos razões para crer que Lucas emprega coerentemente o cômputo judaico de tempo em sua narrativa. Segundo tal sistema, como mencionamos anteriormente, o primeiro dia começava na noite de sábado, ao pôr-do-sol, estando a parte noturna do domingo precedendo a parte do dia. A noite do primeiro dia no qual a reunião ocorreu, corresponderia então ao nosso sábado à noite. Esta posição é apoiada pelo fato de que Lucas, embora gentio, emprega o sistema judaico em seu evangelho quando relata o sepultamento de Cristo: “Era o dia da preparação (isto é, a sexta-feira), e começava o sábado” (Luc. 23:54). Em Atos também, ele repetidamente menciona, por exemplo, que Herodes prendeu Pedro “durante os dias dos pães asmos” e que pretendia “após a Páscoa, apresentá-lo ao povo” (12:3, 4). Relata que saiu de Filipos, ele mesmo, com Paulo, na manhã do dia de completo repouso que marcava o último dia dos pães asmos (20:6; cf. Lucas 22:1, 7). Não hesita, em repetidas ocasiões, em demonstrar como Paulo respeitava os costumes judaicos (Atos 16:1-3; 18:18; 20:16; 21:24). Diz, por exemplo, que Paulo “se apressava para estar em Jerusalém, se possível, no dia de Pentecostes” (20:16). Posteriormente, relata como, na cidade, o apóstolo sob pressão purificou-se e “entrou no templo, para deixar claro que se cumpriam os dias da purificação” (Atos 21:26). A isto poderiam ser acrescentadas as freqüentes referências de Lucas às reuniões de sábado que Paulo freqüentava tanto com judeus quanto com gregos (Atos 18:4; cf. 17:2; 16:13; 15:21; 13:14, 42, 44). À luz dessas indicações pareceria que Lucas respeitava o calendário litúrgico judaico e usava-o bastante coerentemente quando calculava o tempo.



Segundo tal sistema, conforme notamos antes, a reunião do primeiro dia em Troas ocorreu no sábado à noite. Alguns sugerem que esta era ocasião conveniente para um encontro cristão após o término do sábado. Os limites do sábado não mais se aplicavam, e tanto os cristãos judeus (como Paulo e Timóteo) e os cristãos gentios poderiam livremente participar de atividades sociais e espirituais. A debilidade desta observação é que deixa implícito que os cristãos observavam o sábado segundo restritivas concepções rabínicas. Tal posição dificilmente se harmoniza com a compreensão positiva e espiritual do sábado, tal como a encontramos nos Evangelhos.



Se a reunião em Troas ocorreu durante a noite de sábado para domingo é muito improvável que fosse um culto dominical formal e regular. Paulo teria observado com os crentes apenas a noite de domingo e viajado durante o período diurno. Isto, como sabemos, não era permitido no sábado e não teria sido o melhor exemplo de guarda do domingo, tampouco. A passagem parece sugerir, como observou F. J. Foakes-Jackson, que “Paulo e seus amigos não poderiam, como bons judeus, começar uma jornada no sábado; fizeram-no após o mesmo, tão logo quanto possível (verso 12), na manhã do “primeiro dia”—havendo terminado o sábado ao pôr-do-sol”. Tendo também em mente que Paulo “como era seu costume” por três semanas em Tessalônica (Atos 17:2-3), por dezoito meses em Corinto (Atos 18:4, 11), e por períodos menores em outros lugares, expôs as Escrituras no sábado para judeus e gregos, tanto na sinagoga como em campo aberto (Atos 16:13; 13:44, 42, 14), parece razoável supor que em Troas ele também tenha se reunido com os crentes. É difícil acreditar que Paulo passasse sete dias em Troas sem encontrar-se com os crentes até a véspera de sua partida. A reunião noturna do primeiro dia deve então ser considerada como a despedida final organizada para “partir o pão” com Paulo.



Poderia ser argumentado que se Lucas utilizou o sistema de cômputo judaico ou romano é de pouca importância para a questão da observância do domingo, pois ele claramente diz que a reunião se deu “no primeiro dia da semana... para partir o pão”. Que tenha sido a noite antes do domingo (método judaico) ou a noite seguinte ao domingo (método romano), era ainda o primeiro dia em, que a reunião ocorreu. A questão é indiscutível. Contudo, deve ser observado que o “partir de pão” ocorreu após a meia-noite (Atos 20:7, 11). Tal hora incomum sugere mais uma ocasião extraordinária que um costume habitual. Se o propósito da reunião fosse celebrar a Ceia do Senhor, como vários eruditos sustentam, por que então Paulo adiou o ritual até depois da meia-noite, quando muitos, como Êutico, estavam sonolentos, e então continuou a falar até a madrugada? Pensamos que a hora propícia, se de fato era esse o propósito do encontro, teria sido, ou durante a sessão de abertura, ou justamente pouco antes da partida de Paulo como expressão de despedida, de unidade em Cristo. O fato de que “o partir do pão” ocorreu, ao contrário, dentro de um prolongado discurso de várias horas, quando os crentes quase não estavam despertos, sugere fortemente que sua função era mais social que a de um culto. De fato, demasiadas poucas palavras são empregadas para descrever o que supostamente devia ter sido a essência da reunião. Além do mais, nenhuma indicação direta é dada de qualquer participação de comunhão: “E quando Paulo subiu e partiu o pão e comeu, ainda lhes falou largamente... e então partiu” (verso 11). Os verbos usados estão todos no singular. Parece que é principalmente Paulo, o convidado de honra, que fala, parte o pão, come e fala novamente até a partida, enquanto os crentes, muitos talvez, para que pudessem participar, presenciaram, satisfeitos em estar nutridos espiritualmente. É difícil escapar à conclusão, como expressou o historiador Augusto Neander, que: “A iminente partida do apóstolo, pode ter unido a pequena igreja em uma refeição fraternal de despedida, ocasião em que o apóstolo dirigiu sua última mensagem, embora não houvesse celebração particular alguma de um domingo, no caso”.



A expressão técnica “partir pão” merece mais dedicada atenção. O que realmente significa no contexto da passagem? Como Henry J. Cadbury e Kirsopp Lake perguntam, “tem o significado de tomar a ceia ou de celebrar a Eucaristia?Sustentam que “o primeiro parece mais provável”. J. Behm em seu artigo especializado explica que “o partir do pão é simplesmente parte costumeira e necessária da preparação para se comer em companhia. Inicia o partilhar do prato principal na própria refeição... É a descrição de uma refeição comum em termos da ação inicial, o partir do pão. Por isso a locução é empregada para a mesa comum quando da participação dos membros da primitiva comunidade cada dia em suas casas (Atos 2:42, 46) e também para as refeições comuns das comunidades cristãs gentias. (Atos 20:7; cf. I Cor. 10:16)”.



O autor nota, contudo, que a expressão posterior “partir do pão” tornou-se a designação técnica para a Ceia do Senhor. Conquanto deva ser admitido que tal emprego ocorra na literatura pós-apostólica, este quase não parece ser seu significado exclusivo ou emprego no Novo Testamento. De fato, o verbo “partir”, seguido pelo substantivo “pão”, ocorre quinze vezes no Novo Testamento. Nove vezes se refere ao ato de Cristo de partir o pão quando alimentando a multidão, quando participando da Última Ceia, e quando comendo com seus discípulos após a Ressurreição; duas vezes descreve Paulo começando uma refeição ou dela participando; duas vezes descreve realmente o partir do pão na Ceia do Senhor e duas vezes é empregada como referência geral do “partir do pão” dos discípulos ou dos crentes em conjunto. Deve ser notado que em nenhum destes exemplos é a Ceia do Senhor explícita ou tecnicamente designada como “o partir do pão”. Pode-se fazer uma tentativa de se ver uma menção à Ceia do Senhor nas duas referências gerais de Atos 2:46 e 20:7. Todavia, no que concerne a Atos 2:46, a locução, “partir pão em seus lares” obviamente refere-se às diárias refeições comuns dos primitivos cristãos, quando, como diz o texto, “dia a dia... partilhavam o alimento com alegria e corações generosos, louvando a Deus e tendo favor com todos” (versos 46 e 47). Tal partilha diária de refeições em comum, embora possa ter incluído as celebrações da Ceia do Senhor, dificilmente pode ser considerada uma celebração litúrgica exclusiva da Ceia do Senhor. A declaração inequívoca encontrada em Atos 20:7, “nos reunimos para partir o pão”, igualmente não precisa significar mais que “nos reunimos para comermos juntos”. De fato, como C. W. Dugmore observa com precisão, “não há menção de taça, nem mesmo de quaisquer orações ou cânticos; o discurso de Paulo não se segue à leitura da Escritura”. Podemos também acrescentar, como foi acima observado, que somente Paulo partiu o pão e comeu. Não é dada indicação alguma de que alguma vez tenha abençoado o pão ou o vinho ou que o distribuiu aos crentes.



Além de mais, o partir do pão foi seguido de uma refeição “havendo comido” (verso 11). O mesmo verbo é usado por Lucas em três outras referências com o significado explícito de satisfazer a fome (Atos 10:10; 23:14; Luc. 14:24). Indubitavelmente Paulo estava com fome após seu prolongado discurso e necessitado de algum alimento antes que pudesse continuar sua exortação e começar sua viagem. Todavia, se Paulo participasse da Ceia do Senhor juntamente com uma refeição regular, teria agido contrariamente à sua recente instrução aos Coríntios a quem energicamente recomendou que satisfizessem a fome comendo em casa antes de se reunirem para celebrar a Ceia do Senhor (I Cor. 11:2, 22, 34) A conjectura de que em Troas Paulo inverteu a ordem usual (isto é, a refeição seguida da Ceia do Senhor) ao participar da Ceia antes da refeição em conjunto, a fim de corrigir as desordens existentes (I Cor. 11:18-22), repousa sobre um débil fundamento. Primeiro, porque o apóstolo claramente admoesta que satisfaçam a fome em casa, e não durante a celebração da Santa Ceia (1 Cor. 11:27, 34). Adiar a refeição até imediatamente após o rito dificilmente teria sanado os abusos e melhorado a celebração. Segundo, porque os dois verbos “partiu o pão e comeu” (v. 11) não estão necessariamente descrevendo dois ritos distintos, mas sim, um único. Tendo em mente que não há menção de comer antes da meia-noite, o partir do pão parece ser a preparação costumeira para se tomar refeição em conjunto. Isto sugere então, que Paulo participou de uma ceia de despedida (rica, deveras, com nuances religiosos), mas não estritamente no que ele mesmo designa de “Ceia do Senhor” (I Cor. 11:20).



O Novo Testamento não oferece qualquer indicação com respeito a um dia fixo para a celebração da Santa Ceia. Atos 2:42-46, por exemplo, descreve as reuniões em que os crentes de Jerusalém participaram juntos da mesma refeição, na qual o “partir do pão” ocorria “diariamente”. Do mesmo modo observamos que Paulo, conquanto recomendasse aos crentes coríntios um dia específico no qual deviam privadamente separar suas ofertas, com respeito à celebração da Ceia do Senhor, ele repetidamente diz, na mesma epístola, e às mesmas pessoas “quando vos reunis” (I Cor. 11:18, 20, 33, 34), implicando hora e dia indeterminados. A real menção de “primeiro dia da semana” bem poderia ter sido motivada, não pelo costume de se reunir em tal dia, mas, como observa S. Wickenhauser, “pelo acidente que aconteceu naquela ocasião”. Deve ser notado que o incidente com Êutico é o principal episódio registrado da estada de Paulo de sete dias em Troas e ocupa a maior parte da narrativa (versos 9, 10, 12). Por comparação, a descrição do “partir do pão” é bastante breve, limitada exclusivamente a um verbo “partiu o pão” (verso 11). É possível, portanto, que a ressurreição de Êutico, ocorrendo no mesmo dia em que a comunidade havia se reunido para o jantar de despedida em honra de Paulo, motivou Lucas a especificar o dia exato em que todo o caso aconteceu. Tal ocorrência incomum, indubitavelmente, deixou uma impressão duradoura nos crentes.



Uma outra razão para o relato de Lucas de que o partir do pão ocorreu no primeiro dia da semana poderia possivelmente ser seu desejo de fornecer ao leitor suficientes referências cronológicas, para mais facilmente seguir o itinerário da viagem de Paulo. Nos capítulos 20 e 21, Lucas escreve como testemunha ocular, na primeira pessoa do plural (20:4-15; 21:1-18) e fornece nada menos que treze referências para relatar os vários estágios da jornada de Paulo. É possível, portanto, que a menção da reunião no primeiro dia da semana, antes de ser uma nota de habitual de guarda do domingo, é uma série inteira de notas cronológicas com que Lucas preenche a narrativa desta viagem.

À luz destas considerações, o valor probatório de Atos 20:7-12 para uma regular guarda do domingo parece um tanto insignificante. A ocasião, a hora e o modo com que a reunião foi conduzida são todos indícios de uma reunião especial e não de um costume de culto dominical regular. O meio mais simples de se explicar a passagem é que Lucas menciona o dia da reunião, não porque era domingo, mas:



1) porque Paulo estava “pronto para partir” (20:7),

2) por causa da extraordinária experiência e milagre de Êutico, e;

3) porque proporciona uma referência cronológica adicional e significativa para descrever o desdobrar da jornada de Paulo.



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