A Hora das Reuniões Cristãs



Precisamos agora considerar a hora dos serviços de culto da igreja de Jerusalém. Os primeiros cristãos respeitaram e usaram o calendário litúrgico judaico, ou propositadamente o rejeitaram, escolhendo em seu lugar novos dias e datas para suas festividades semanais e anuais? Oscar Cullman sustenta que as reuniões dos primeiros cristãos “aconteciam diariamente (Atos 2:46; 5:42; ver também Luc. 24:53). O sábado também pode ainda ter sido observado aqui e ali. Contudo... já nos primórdios do cristianismo, o culto cristão primitivo criou por si mesmo um cenário especificamente cristão, no qual um dia foi especificamente designado como o dia para os cultos da igreja–o dia do Senhor. Este não é o sábado judaico, mas em deliberada distinção do judaísmo, os primeiros cristãos selecionaram o primeiro dia da semana, uma vez que neste dia Cristo ressuscitou dos mortos, e neste dia apareceu aos discípulos reunidos para uma ceia”.


Segundo nosso autor - uma posição amplamente apoiada por muitos eruditos - as reuniões da comunidade primitiva ocorriam numa base diária, esporadicamente aos sábados e, regularmente aos domingos para comemorar a ressurreição e aparições de Cristo. Não precisamos considerar novamente a reivindicação de uma observância do domingo regular nos mais primitivos dias da igreja, uma vez que em nossos capítulos anteriores estabelecemos que tal tese repousa basicamente em três passagens do Novo Testamento mal interpretadas, e em motivos teológicos ausentes na literatura apostólica.


Com relação às reuniões diárias, Lucas, em pelo menos três exemplos, refere-se aos apóstolos e/ou crentes que “diariamente” (Atos 2:46; 5:42; conforme Luc. 23:53) vinham para a instrução e companheirismo. É possível que, no entusiasmo do Pentecoste, por algum tempo os crentes realmente tenham se reunido com os apóstolos, mas obviamente somente estes poderiam sustentar um contínuo programa de ensino diário no Templo e nos lares (Atos 5:62). Como H. Riesenfeld apropriadamente observa, “para aqueles que não eram apóstolos isto devia ser uma hipérbole”. Essas reuniões diárias eram indubitavelmente de natureza evangelística, destinadas a proclamar o evangelho aos judeus e gentios. Possivelmente, novos conversos participavam das reuniões, mas não há evidência de que se esperasse que toda a comunidade participasse dos serviços diários.


O sábado, segundo O. Cullmann, representante de uma opinião popular, era observado “aqui e ali, porém, desde as mais remotas eras, a igreja escolheu o primeiro dia da semana como o novo dia de adoração, numa deliberada distinção do judaísmo”. Em um dos últimos capítulos teremos oportunidade de mostrar que a exigência de diferenciar-se dos judeus deveras contribuiu substancialmente para a adoção da observância do domingo no lugar do sábado. Todavia, isto foi um passo posterior, que não ocorreu nos primeiros dias da igreja de Jerusalém.


C. S. Mosna argumenta que os cristãos em Jerusalém se desligaram muito cedo do Templo e da sinagoga por causa da perseguição dos líderes religiosos: “Após o apedrejamento de Estevão, eles foram procurados nas casas (Atos 8:3) e a perseguição contribuiu para isolá-los dos judeus e de suas práticas (Atos 9:2)”. Não há dúvida de que as perseguições judaicas contribuíram, com o tempo, para isolar os cristãos dos serviços e costumes religiosos judaicos, mas, como mostraremos abaixo, tal ruptura não ocorreu tão drasticamente ou tão imediatamente. Paulo, por exemplo, após o martírio de Estevão, foi procurar cristãos nas sinagogas de Damasco (Atos 9:2; conforme 22:19), presumivelmente porque ainda se reuniam lá. Ao final de seu ministério, o próprio apóstolo, “como era seu costume” (Atos 17:2), se congregava no sábado na sinagoga ou ao ar livre, não somente com os judeus (Atos 13:14; 17:2; 18:4) mas também com os gentios (Atos 13:44; 16:13; 18:6). Isto era possível porque nenhuma separação radical dos lugares e tempos de reunião judaicos havia ainda ocorrido.


Também deve ser observado que a primeira perseguição judaica registrada em Atos 6-8 foi, aparentemente, dirigida não contra a igreja toda, mas principalmente contra os “helenistas”. Estes, segundo pesquisas recentes, eram um grupo não conformista de cristãos judeus aparentemente muito diferente do principal corpo da igreja. Isto é sugerido em Atos 8:1 onde está registrado que quando “uma grande perseguição surgiu contra a igreja em Jerusalém..., eles foram espalhados... exceto os apóstolos”. O fato de ter sido permitido aos apóstolos que permanecessem na cidade, prova, como faz notar O. Cullmann, “que a comunidade inteira não partilhava das idéias bastante peculiares e ousadas desse grupo (isto é, os helenistas)”. Contudo, deve ser creditado aos helenistas que sua atividade missionária ousada e vocal resultou na evangelização de Samaria (Atos 8:1-40).


Alguns sugerem que este grupo de cristãos helenistas (judeus de fala grega) “publicamente reivindicavam para si a própria liberdade de Jesus com respeito ao sábado” e adotaram a observância do domingo. Mesmo condescendendo com tal suposição, que repousa sobre conjecturas gratuitas, deve ser observado que estes helenistas representavam somente um grupo radical que cedo se desligou da igreja-mãe da qual os apóstolos eram parte. Considerando que não eram os porta-vozes da igreja, dificilmente poderiam ter imposto à igreja em geral que aceitasse um novo dia de adoração. Mesmo porque, se deveras a observância do domingo fosse um dos marcos distintivos de suas práticas religiosas, isto teria fomentado uma acirrada controvérsia dentro da igreja, especialmente em vista de sua atividade missionária “vocal”. Porém, não se detecta em Atos nenhum eco de tal polêmica. No concílio de Jerusalém, por exemplo, a observância do sábado não estava na pauta do dia. Na verdade, consideraremos agora as indicações esmagadoras de sua observância regular, particularmente na comunidade ultra-conservadora dos judeus cristãos de Jerusalém.




A Orientação Teológica da igreja de Jerusalém


Um estudo da composição étnica e orientação teológica da igreja de Jerusalém providencia talvez os dados mais significativos pelos quais podemos testar a validade da tese que reivindica Jerusalém como o lugar de nascimento da observância do domingo. A igreja originou-se na cidade ao redor do núcleo dos doze apóstolos. Uma vez que estes, bem como seus primeiros conversos eram, como bem declarou T. W. Manson, “judeus por nascimento e crescimento... é provável, a priori, que trouxessem à nova comunidade pelo menos algumas das práticas religiosas às quais há muito estavam acostumados”.


Lucas relata que entre os muitos conversos judeus, havia um grande número de sacerdotes que “eram obedientes à fé” (Atos 6:7). F. A. Regan bem observa que “Lucas não dá indicação alguma de que sua conversão conflitasse, em qualquer sentido, com seu apego à velha Lei”. De fato, possivelmente, como sugere B. Bagatti, “eles naturalmente continuaram exercendo seu ministério”. Isto bem pode ter sido necessário, em vista de que, como relata Lucas, havia “muitos milhares... entre os judeus que creram” (Atos 21:20). Parece plausível identificar estes sacerdotes convertidos com os anciãos que assistiam a Tiago e aos apóstolos na administração da igreja (Atos 15:6, 22, 23; 16:4; 20:17, 18). F. F. Bruce adianta a hipótese de que “pode ter havido setenta deles, constituindo uma espécie de sinédrio nazareno, com Tiago sendo seu presidente”. Esta informação dada por Lucas revela que a igreja de Jerusalém não somente era composta principalmente de conversos judeus, mas possivelmente era até administrada por ex-sacerdotes, segundo o familiar modelo judaico do sinédrio. Sua atitude básica em relação às observâncias religiosas judaicas é melhor expressa pela concisa declaração de Lucas de que “eram todos zelosos da lei”. (Atos 21:20).


A escolha e exaltação de Tiago proporciona confirmação adicional da orientação teológica “judaica” da igreja de Jerusalém. Por que foi Tiago “o irmão do Senhor” (Gal. 1:19) e não outro apóstolo o escolhido para ser líder da Igreja? Aparentemente, na escolha de um líder para a igreja, o fator parentesco foi considerado mais importante que qualquer relacionamento anterior com Cristo. Esta razão, já implícita nas referências de Lucas e Paulo a Tiago, é explicitamente fornecida em várias obras posteriores de origem judaica-cristã.


Hegesippus, um converso judeu do segundo século, nativo da Palestina; e vários autores anônimos que produziram obras tais como: o Proto-Evangelho de Tiago, o Evangelho dos Hebreus, a História de José, o Carpinteiro, o Evangelho de Tomé, os diversos Apocalipses de Tiago, o Reconhecimento Clementino e as Homilias exaltam a figura de Tiago. Nestas obras, Tiago é glorificado como o representante legítimo de Cristo, como o irmão real de Cristo a quem primeiro apareceu, como o cabeça da Igreja, como aquele por cuja causa o céu e a terra vieram à existência, como o sacerdote único “a quem foi permitido entrar no santuário... para implorar o perdão divino para o povo”, como o filho de um sacerdote, como “santo desde o ventre da mãe”. Parece, portanto, que aos olhos dos judeus cristãos, como bem resumiu B. Bagatti, “Tiago era superior a Pedro e a Paulo, porque era descendente de Davi, do mesmo sangue de Jesus, e portanto, o legítimo representante da raça sacerdotal; e, finalmente, ele observou a lei ao ponto do heroísmo. Nenhum outro apóstolo poderia reivindicar tais prerrogativas”.


Enquanto esta exaltação de Tiago representa um progresso posterior, motivado aparentemente pela necessidade de realçar a posição da igreja de Jerusalém numa época em que entrava na obscuridade, permanece o fato de que Tiago foi aparentemente escolhido porque podia reivindicar parentesco sanguíneo com Cristo e assim cumprir o papel de um legítimo “sumo sacerdote” cristão. Isto revela o quanto o novo “sacerdócio” cristão e a liderança na cidade eram de orientação judia. Ainda mais esclarecedora para nossa investigação da possível origem da observância do domingo em Jerusalém, é a atitude básica de Tiago e seu grupo em relação às obrigações legais judaicas.


No ano de 49-50 A.D. os líderes da Igreja Cristã se reuniram em Jerusalém para deliberar sobre os requisitos básicos a serem cumpridos pelos gentios que aceitavam a fé cristã. O Concílio foi convocado por causa da dissensão que surgiu em Antioquia quando certos agitadores vieram da Judéia para aquela igreja, ensinando: “Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos”. (Atos 15:1) Esses judaizantes aparentemente alegavam falar em nome de Tiago, embora ele claramente negasse tê-los autorizado a fazer isto (Atos 15:24). Para definir a discussão, achou-se necessário que Paulo e Barnabé fossem a Jerusalém para discutir o problema com os apóstolos e anciãos (Atos 15:3). Houve grande contenda (Atos 15:7) na reunião, e foram feitos discursos por Pedro, Paulo e Barnabé (versos 7 e 12). Ao final, Tiago, que parece ter sido o presidente, propôs que os gentios que se haviam tornado cristãos estavam isentos da circuncisão, sendo porém notificados que deviam se abster “das contaminações dos ídolos, da prostituição, da carne de animais sufocados e do sangue. Porque Moisés tem, em cada cidade desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados” (versos 20 e 21).


A proposta foi aprovada pelos “apóstolos e anciãos” (verso 22) e medidas imediatas para assegurar sua implantação foram tomadas. A decisão do concílio, mencionada três vezes (Atos 15:20, 29; 21:25) com pequenas variantes, lança alguma luz na atitude da igreja de Jerusalém para com a lei judaica. Vários pontos são dignos de nota.


A isenção da circuncisão foi concedida somente “aos irmãos dentre os gentios” (verso 23). Nenhuma inovação houve para os cristãos judeus, que ainda circuncidavam seus filhos. Isto está indicado, não somente pela existência, após o concílio, de um grupo que era a favor da circuncisão, aparentemente apoiado por Tiago (Gál. 2:12), que constantemente embaraçava as comunidades gentias evangelizadas por Paulo (Gál. 3:1; 5:12; 6:12; Fil. 3:2), mas também pela explícita acusação que “Tiago e os anciãos” fizeram a Paulo (aproximadamente dez anos mais tarde), a saber: “ensinas todos os judeus que estão entre os gentios a apartarem-se de Moisés, dizendo que não devem circuncidar seus filhos nem andar segundo o costume da lei” (Atos 21:21). A preocupação dos líderes da igreja de Jerusalém por tal boato (mesmo após tanto tempo, cerca de 58 A.D.) e sua proposta a Paulo de que silenciasse a acusação fazendo um voto de purificação no Templo (Atos 21:25), revelam quão profundamente ligados eles ainda estavam às instituições judaicas, como a circuncisão.


Além disso, as mesmas propostas feitas por Tiago e adotadas pelo Concílio, indicam que não se concedia liberdade indiscriminada aos gentios no tocante aos reclamos da lei. Dos quatro preceitos do decreto, de fato, um é moral (abstenção da prostituição) e três são cerimoniais (abstenção da contaminação dos ídolos, do que é sufocado e do sangue) (verso 20). Esta preocupação desnecessária pela contaminação ritual e leis alimentares reflete o grande respeito que ainda prevalecia para com a lei cerimonial. Para evitar ofender os preconceitos dos cristãos judeus, os conversos gentios deviam se abster de comer o que quer que fosse oferecido a ídolos, e até mesmo de aceitar ou participar de uma festa doméstica gentia, onde pudesse ser servido alimento associado a ídolos. Deviam também seguir as leis alimentares judaicas, não comendo da carne de animais mortos por estrangulamento. Esta preocupação excessiva de Tiago e dos apóstolos (Atos 15:22) em respeitar os escrúpulos judaicos quanto ao alimento e a associação com os gentios, dificilmente permite-nos imaginar que um assunto de maior importância como a observância do sábado fosse unanimemente ab-rogado.


Mas, como podem alguns interpretar o silêncio do Concílio na questão do sábado como “a mais eloqüente prova de que a observância do domingo havia sido reconhecida por toda a igreja apostólica e tinha sido adotada pelas igrejas paulinas”? Que tão drástica mudança no dia de adoração houvesse sido unanimemente realizada e aceita, sem provocar dissensão, é difícil de acreditar, em vista de diversos fatores. A atitude prevalecente da igreja de Jerusalém, como já destacamos, era caracterizada por intransigente respeito e observância dos costumes e instituições judaicas. Em tal clima, era praticamente impossível mudar a data de uma instituição milenar como o sábado, ainda altamente respeitada.


A declaração que Tiago fez para apoiar sua proposta é também significativa neste particular: “porque Moisés tem, em cada cidade desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados”. (Atos 15:21) A conexão entre a proposta de Tiago (verso 20) e esta declaração explicativa (verso 21) tem sido diversamente interpretada. Alguns acreditam que significa que os cristãos judeus não precisavam temer que a liberdade gentílica solapasse a observância das leis mosaicas, “ainda lidas, cada sábado, nas sinagogas ou congregações”. Outros entendem o verso como significando que assim como os preceitos da lei de Moisés eram diligentemente ensinados cada sábado, os cristãos gentílicos deviam cuidar para não ofender os preconceitos de seus irmãos judeus. Outros ainda interpretam-na como significando que os gentios certamente não achariam a proibição arbitrária ou dura, pois estavam bem inteirados das regulamentações levíticas em virtude de sua habitual freqüência à sinagoga no sábado. F. F. Bruce acha que as observações de Tiago talvez pretendessem acalmar a apreensão do partido farisaico na igreja de Jerusalém, a cujos olhos era especialmente importante que todo o Torah fosse ensinado entre os gentios.


Embora as interpretações acima aplicam as observações de Tiago a pessoas diferentes (cristãos gentios, cristãos judeus, ambos, e a ala farisaica na igreja de Jerusalém) todos reconhecem que tanto em sua proposta como na justificativa, Tiago reafirma a natureza obrigatória da lei mosaica que era costumeiramente pregada e lida cada sábado nas sinagogas. A manifestação deste excessivo respeito pelo Concílio à lei cerimonial mosaica, a explícita referência de Tiago à sua costumeira leitura e pregação aos sábados nas sinagogas, excluem categoricamente a hipótese de que o sábado já havia sido substituído pelo domingo.


A última visita de Paulo a Jerusalém (58-60 A.D.), à qual já nos referimos anteriormente, dá evidências adicionais da observância da lei pela Igreja de Jerusalém. A menção de Lucas de que Paulo “estava apressando-se para estar em Jerusalém, se possível no dia do Pentecoste” (Atos 20:16) e que eles haviam passado os dias dos “pães asmos” em Filipos (Atos 20:6), indica que os cristãos ainda conduziam suas vidas pelo calendário litúrgico judaico. Mais esclarecedor ainda é o registro do que ocorreu na própria Jerusalém. Tiago e os anciãos, depois que Paulo tinha “contado cada uma das coisas que Deus tinha feito aos gentios por intermédio de seu ministério” (Atos 21:19), disseram a Paulo: “Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus há que crêem, e todos são zelosos da lei; e foram informados a teu respeito que ensinas todos os judeus entre os gentios a apostatarem de Moisés, dizendo-lhes que não devem circuncidar os filhos nem andar segundo os costumes da lei” (Atos 21:20, 21).


A profunda lealdade da liderança da igreja de Jerusalém às tradições religiosas judaicas é claramente evidente. Não somente Tiago e os anciãos informaram a Paulo que muitos milhares de membros judeus de sua Igreja eram zelosos da lei, mas até mesmo confrontaram o apóstolo com o boato de que ele dissuadia crentes judeus de praticarem os costumes antigos, tais como a circuncisão, legados por Moisés. Procurando crer que seus receios eram infundados (e de fato não há evidência de serem verdadeiros), Tiago e os anciãos propuseram que Paulo dissolvesse a maliciosa acusação e provasse que ele mesmo “vivia observando a lei” (Atos 21:24) ao submeter-se ao rito purificador no Templo, juntamente com quatro membros da Igreja que aparentemente haviam se contaminado cerimonialmente. Com isto, sentia-se que toda a multidão de crentes de Jerusalém, bem como todo o povo na cidade podiam ver por si mesmos que o apóstolo ainda cumpria a lei de Moisés.


Esta preocupação da liderança da igreja para reassegurar aos crentes judeus na Palestina o respeito de Paulo pelos costumes dos antigos, sugere, como nota R. C. H. Lenski, por um lado, que os membros haviam sofrido possivelmente por causa de falsos rumores sobre Paulo, e, por outro, que “eles ainda mantinham o seu modo judaico de viver, circuncidavam os seus filhos, comiam alimento puro, guardavam o sábado, etc”. Isto indubitavelmente facilitou a conversão de “muitos milhares” (Atos 21:20) de judeus, porquanto a aceitação do evangelho não exigia significativas mudanças em seu estilo de vida.


Esta excessiva ligação da igreja de Jerusalém aos costumes religiosos judaicos pode, talvez, deixar perplexo o cristão que considera a igreja-mãe da cristandade como o modelo ideal de sua vida religiosa. Não se deve esquecer, todavia, que o cristianismo surgiu das raízes e estrutura do judaísmo. Os primeiros conversos judeus viam a aceitação de Cristo, não como a destruição de sua estrutura religiosa, mas como o cumprimento de suas expectativas messiânicas que realçavam sua vida religiosa com uma nova dimensão. O processo de separar a sombra da realidade, o transitório do permanente, foi gradual e com dificuldades.


A conduta de Paulo também merece considerações. Violou ele suas convicções ao aceitar a proposta de purificar-se no Templo? Assim não parece, uma vez que, por exemplo, ele não se envergonhou de mencionar o incidente quando defendeu-se perante Félix (Atos 24:17, 18). Alguns sugerem que, de fato, como o apóstolo havia anteriormente feito um voto de Nazireu, por sua própria iniciativa em Cencréia (Atos 18:18), ele já estava planejando oferecer sacrifício no Templo para completar o seu voto. Esta hipótese apóia-se no fato de que não há referência de Paulo fazer voto em Jerusalém. E ainda mais, como observa F. J. A. Hort, “o tempo a que se refere parece demasiado curto para que ele fizesse um voto e o cumprisse”. Parece plausível assumir, portanto, que Paulo tivesse propositadamente planejado trazer à sua nação “esmolas e ofertas” (Atos 24:17) para ajuntar mais intimamente as alas judia e gentia da igreja. Para conseguir esse objetivo, ele evidentemente sentiu que necessitava providenciar também uma demonstração plausível de sua lealdade pessoal à lei e aos costumes. Esta preocupação do apóstolo em confirmar aos crentes judeus o seu respeito pela lei, revela não somente a lealdade destes aos costumes religiosos judaicos, mas também a indisposição de Paulo em ofender seus irmãos judeus em tais questões (se uma questão de princípio não estivesse envolvida). Essa atitude do apóstolo é suficiente para desacreditar quaisquer tentativas de atribuir-lhe a responsabilidade pela ab-rogação do sábado e pela introdução da observância do domingo.


O conselho de Cristo relativo à fuga de Jerusalém também é significativo neste aspecto. Em Mateus, um evangelho endereçado aos cristãos judeus, a admoestação de Cristo é assim registrada: “E orai para que a vossa fuga não aconteça nem no inverno nem no sábado” (24:20). Em nossa análise deste texto concluímos que a passagem, como declara E. Lohse, “oferece um exemplo da guarda do sábado pelos cristãos judeus”. Isto bem pode refletir a preocupação da igreja de Jerusalém com a observância do sábado não simplesmente pelo relato de sua referência à cidade, mas especialmente porque segundo a tradição da primitiva igreja, o evangelho de Mateus foi escrito em aramaico para os cristãos judeus da Palestina.


A análise precedente das fontes do Novo Testamento sobre a igreja de Jerusalém estabeleceu solidamente que a primitiva igreja aí era composta primariamente de judeus conversos, sendo administrada por eles, e que mantinham uma profunda ligação aos costumes religiosos judaicos, tais como a guarda do sábado. É impossível portanto, assumir que um novo dia de adoração fosse introduzido pela igreja de Jerusalém antes da destruição da cidade em 70 A.D. Podemos acrescentar que em vista da enorme influência exercida na igreja em geral pela liderança e membros cristãos, teria sido praticamente impossível para qualquer igreja, onde quer que estivesse, introduzir a observância do domingo antes de 70 A.D. W. D. Davies, um bem reconhecido especialista em Cristianismo Primitivo, concisa e sabiamente resume a situação religiosa da época: “Por toda parte, especialmente a leste do Império Romano, haveria cristãos judeus cujo modo exterior de vida não seria marcadamente diferente daquele dos judeus. Tinham por certo que o cristianismo era uma continuação do judaísmo; para eles, o novo concerto, que Jesus estabeleceu por ocasião da Santa Ceia com os discípulos e selou com sua morte, não significava que o concerto entre Deus e Israel não estava mais em vigor. Ainda observavam as festas da Páscoa, Pentecoste e Tabernáculos. Continuavam sendo circuncidados, guardando o sábado semanal e as regulamentações mosaicas com respeito a alimentos. Segundo alguns eruditos, elas devem ter sido tão rigorosas que até a queda de Jerusalém em 70 A.D. eram o elemento dominante no movimento cristão.”




Continua...

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