Roma e a Origem do Domingo


Ao examinarmos a possível origem da observância do domingo entre os primeiros cristãos-judeus, concluímos que é fútil buscar traços da sua origem entre estes, dada a sua primordial lealdade aos costumes religiosos judaicos tais como a guarda do sábado. Dirigiremos então, nossa procura para a origem do domingo aos círculos cristãos gentílicos. Presumiremos que estes, não tendo prévios laços religiosos com o judaísmo, e estando agora em conflito com os judeus, mais provavelmente substituiriam festividades judaicas tais como o sábado, a páscoa hebraica nas suas datas e significado.

A adoção de novos dias de festas religiosas e sua imposição ao resto da cristandade poderia, presumivelmente ser efetuada numa igreja onde o rompimento com o judaísmo ocorresse cedo, e por intermédio de um poder eclesiástico que desfrutasse amplo reconhecimento. A igreja da capital do império, cuja autoridade já era sentida amplamente no segundo século, parece ser o lugar mais provável do nascimento da observância do domingo. Para testar a validade desta hipótese, procederemos agora brevemente a uma investigação das condições religiosas, sociais, e políticas relevantes que prevaleciam tanto na cidade como na igreja de Roma.


PREDOMINÂNCIA DE CONVERSOS GENTIOS

A mensagem de Paulo na Epístola aos Romanos, particularmente nos últimos capítulos, pressupõe que a comunidade cristã de Roma era composta primariamente de uma maioria cristã gentia (capítulos 11 e 13) e de uma minoria cristã judia (14 ss) “Convosco falo, gentios” (11:13), o Apóstolo explicitamente afirma, e no capítulo 16 ele cumprimenta a maioria dos crentes que tem nome grego ou latim. O predomínio de membros gentios e seu conflito com os judeus, dentro e fora da igreja, pode ter requerido uma diferenciação entre as duas comunidades em Roma em época anterior àquela do Oriente. Leonard Goppelt, em seu estudo sobre a origem da igreja, apóia esta posição quando escreve:

“A Epístola pressupõe haver em Roma, como se esperaria, uma igreja com uma maioria cristã gentia (11 e 13) e uma minoria cristã judia (14 up.). Esta coexistência das duas partes provocou algumas dificuldades comparáveis àquelas existentes em Corinto à mesma época. . .” .

A situação da igreja de Roma, em relação ao judaísmo, tanto quanto a Epístola aos Romanos permite-nos suspeitar ser semelhante àquela que nos é apresentada pelos textos pós-paulinos da cristandade ocidental; um abismo entre a igreja e a sinagoga acha-se em toda a parte; o que é desconhecido nas igrejas orientais como descrevemos acima. O judaísmo não desempenha outro papel senão o de ancestral do cristianismo.

Os cristãos judeus, embora minoria na igreja de Roma, parecem ter provocado “disputas” (Rom. 14:1) a respeito de questões como a validade da lei (2:17), a necessidade da circuncisão (2:25-27), salvação pela obediência à lei (capítulos 3, 4 e 5), a necessidade de se respeitar dias especiais e de se abster de alimentos imundos (capítulos 14 e 15). Todavia, o predomínio de membros gentios, originariamente descendentes do paganismo, e seu conflito com os cristãos judeus dentro da igreja e com os judeus fora dela, pode, deveras, ter contribuído para uma ruptura com o judaísmo em Roma anterior àquele no Oriente. O abandono do sábado e a adoção do domingo poderia então representar um aspecto significativo desse processo de diferenciação.


AS PRIMEIRAS DIFERENÇAS ENTRE JUDEUS E CRISTÃOS

No ano 49 A.D. o Imperador Cláudio, segundo o historiador romano Suetônio (cerca de 70-122 A.D.) “expulsou os judeus de Roma, pois constantemente se amotinavam sob a instigação de Chrestus (uma provável transcrição errônea do nome de Cristo). O fato de que nessa ocasião, judeus conversos, como Áquila e Priscila, foram expulsos da cidade juntamente com os judeus (Atos 18:2) prova, como observa Pierre Batiffol, que a polícia romana ainda não distinguia cristãos de judeus”. Quatorze anos mais tarde, entretanto, Nero identificou os cristãos como uma entidade separada, bem distinta dos judeus. O imperador, de fato, segundo Tácito (55-120 A.D.), “amarrou a culpa (isto é, incêndio culposo sobre eles) e infligiu as mais requintadas torturas sobre uma classe odiada por sua abominação chamada cristãos pelo populacho”.

Esse reconhecimento, da parte dos romanos, do cristianismo como uma seita religiosa distinta de judaísmo, parece ser o resultado natural de tentativas feitas em ambos os lados para se diferenciarem aos olhos das autoridades romanas. Se, inicialmente os cristãos se identificassem com os judeus para se beneficiarem da proteção que a lei romana conferia à fé e costumes judaicos, nos anos sessenta, como F. F. Bruce observa, “não mais era possível considerar o cristianismo (fora da Palestina) como simplesmente uma ramificação de judaísmo”. Os próprios judeus podem ter tomado a iniciativa de se dissociarem dos cristãos, cuja maioria agora no Império era composta de não circuncidados.
As circunstâncias parecem ter sido favoráveis em forçar tal distinção em especial em Roma. Após o ano 62, de fato, a influência judia estava presente na corte imperial, na pessoa da imperatriz Poppea Sabina, uma prosélita judia e amiga dos judeus, a quem Nero desposou naquele ano. A. Harnack acha que Nero, para livrar-se da acusação de parte do povo de ter provocado o fogo, instigado pelos judeus, colocou a culpa nos cristãos. O fato de que embora o bairro residencial judeu de Trastevere não fosse tocado pelo fogo, como P. Batiffol observa, “nem por um instante suspeitaram que os judeus o haviam iniciado; mas a acusação recaiu sobre os cristãos: eles eram, então, notória e pessoalmente distintos dos judeus”. Os cristãos não esqueceram o papel desempenhado pelos judeus na primeira perseguição imperial sangrenta que sofreram, e os Pais da Igreja não hesitaram em atribuir-lhes responsabilidade de incitarem Nero a perseguir os cristãos.

O fato de que os cristãos “por volta de 64 A.D”., como F. F. Bruce comenta, “eram claramente diferenciados em Roma” enquanto “levou um pouco mais de tempo na Palestina (onde praticamente todos os cristãos eram de nascimento judeu)” é um dado significativo para nossa pesquisa sobre a origem do domingo. Isto sugere a possibilidade de que o abandono do sábado e a adoção do domingo como novo dia de adoração pode ter ocorrido primeiro em Roma, como parte deste processo de diferenciação do judaísmo. Fatores significativos adicionais presentes na igreja de Roma nos habilitará a verificar a validade desta hipótese.


SENTIMENTOS E MEDIDAS ANTI-JUDAICAS

Seguindo-se à morte de Nero, os judeus que haviam experimentado uma posição favorável por algum tempo, logo em seguida tornaram-se impopulares, principalmente por causa de seus sentimentos nacionalistas renascidos que explodiam em levantes violentes quase em toda a parte. O período entre a primeira principal guerra judia (66-70 A.D, e a segunda (132-135 A.D.) é caracterizado por numerosos tumultos anti-judaicos (como na Alexandria, Cesaréia e Antioquia), bem como por revoltas judaicas programadas que irromperam em lugares tais como a Mesopotâmia, Cirenaica, Palestina, Egito em Chipre. Fizeram seu último lance para readquirir a independência nacional, porém resultou na desolação de sua cidade santa, na perda de seu país e, consequentemente, em se tornarem não mais estritamente uma nação, mas simplesmente um povo, sem lar, e com uma religião.

A descrição que o historiador romano Dio Cassius (cerca de 150-220 A.D.) faz destes levantes, revela o ressentimento e ódio que estes provocaram na mente dos romanos contra os judeus. Por exemplo, da revolta de Cirenaica, ele escreve:
Nesse ínterim, os judeus na região de Cirene puseram um certo Andreas como seu chefe, e estavam destruindo tanto os romanos como os gregos. Comeriam a carne de suas vítimas, fariam cintos de suas entranhas, ungir-se-iam com o sangue delas e usariam sua pele como vestimenta; a muitos eles serraram em dois, da cabeça aos pés; outros eles deram às feras selvagens, e outros ainda forçaram a lutar como gladiadores. Ao todo, duzentos e trinta mil pessoas pereceram. No Egito também, cometeram muitas atrocidades semelhantes, igualmente em Chipre. . . .

Os cristãos frequentemente sofriam como vítimas dessas investidas de violência judaica, aparentemente porque eram considerados traidores da fé e aspirações políticas judaicas e por causa de ultrapassarem os judeus na conversão de pagãos. Justino, por exemplo, relata: “Na recente guerra judia, Barkokeba... ordenou que os cristãos somente fossem sujeitos a tormentos terríveis, a menos que renunciassem a Jesus Cristo e blasfemassem dele”.

Medidas e Atitudes Romanas

Os romanos que haviam anteriormente reconhecido o judaísmo como uma religio lecita (religião lícita), mas que também haviam, em grande parte, mostrado respeito (alguns, até mesmo admiração) pelos princípios religiosos dos judeus, a estas alturas reagiram contra eles militar, fiscal e literariamente. Militarmente, a estatística de derramamento de sangue, fornecida por historiadores contemporâneos, mesmo reconhecendo-se prováveis exageros, é evidência muitíssimo impressionante da vingança irada dos romanos contra os judeus. Tácito (33-120 A.D.), por exemplo, faz uma estimativa de 600.000 baixas judias na guerra de 70 A.D. Na guerra de Barkokeba, segundo Dio Cassius (150 A.D.), foram mortos em ação 580.000 judeus, além de um sem-número de mortos pela fome e doença. “Toda a Judéia”, escreve o mesmo historiador, “tornou-se quase um deserto”.

Além das medidas militares, nesta época Roma adotou nova atitude política e fiscal contra os judeus. No governo de Vespasiano (69-79 A.D.) tanto o sinédrio como o oficio do Sumo Sacerdote foram abatidos, e o culto no local do Templo, proibido. Adriano (117-138 A.D.) como mencionamos anteriormente, chegou ao ponto de proibir qualquer judeu, sob ameaça de morte, de entrar na área da nova cidade. E mais ainda, ele tornou proscrita a prática da religião judaica e, particularmente, a observância do sábado.

Significativo também, foi a introdução por Vespasiano (69-79 A.D.) do fiscus judaicos, primeiramente intensificado por Domiciano (81-96 A.D.) e finalmente por Adriano (171-138 A.D.). Este “imposto fiscal” judeu de meio shequel, anteriormente parte da manutenção do Templo de Jerusalém, era agora cobrado para o templo de Júpiter Capitolinus, mesmo daqueles que, segundo Suetônio (cerca de 70-122 A.D.) “sem publicamente reconhecer aquela fé, viviam como romanos”. Os membros cristãos poderiam facilmente ser incluídos entre eles. E. L. Abel apropriadamente assinala que embora a quantia fosse insignificante, o princípio era importante, uma vez que nenhum outro grupo religioso na sociedade romana pagava tal imposto. Era claramente discriminatório, marcando o início da deterioração social dos judeus na sociedade”.

As fontes não nos informam de qualquer ação específica, tomada pelos cristãos, nesta altura, para evitar o pagamento de tal imposto discriminatório. Contudo, podemos suspeitar, como S. V. Baron argutamente assinala, que em conexão com esta redefinição de obrigações fiscais recaindo somente sobre professos judeus, a crescente comunidade cristã conseguiu de Nerva a isenção do imposto e, indiretamente, o reconhecimento oficial da separação de seus laços da denominação dos judeus.

A introdução do culto do domingo no lugar da guarda do sábado “judaico”—esta particularmente ridicularizada por diversos escritores romanos da época—bem poderia representar uma medida tomada pelos líderes da igreja de Roma para evidenciar seu rompimento com o judaísmo e inclusive evitar, também, o pagamento de um imposto discriminatório.

A inteligência romana também recomeçou nessa época, seu ataque literário contra os judeus. Cícero, o renomado orador, em sua defesa de Flaccus—um prefeito da Ásia que havia despojado o tesouro judaico—já um século antes (59 A.C.) havia imortalizado seu ataque contra o judaísmo, rotulando-o de uma “superstição bárbara”. Nos anos subsequentes, o anti-semitismo literário foi mantido vivo apenas pelos poucos escárnios e zombarias de Horácio (65-8 A.C.), Tibullus (19 A.C.), Pompeu Trogus (início do primeiro século A.D.) e Ovídio (43 A.C.-65 A.D.) Com Sêneca (4 A.C.-65 A.D.) contudo, uma nova onda de anti-semitismo literário surgiu nos anos sessenta, indubitavelmente refletindo o novo humor da época contra os judeus. Este eloquente estóico atirou-se contra os costumes dessa raça maldita-sceleratissime gentis”, e especialmente sua guarda do sábado: “Ao introduzir um dia de repouso em cada sete, eles perdem na ociosidade quase um sétimo de sua vida, e, ao deixarem de agir em tempos de urgência, frequentemente sofrem perdas”.

Pérsio (34-62 A.D.) em sua quinta sátira apresenta os costumes judaicos como o primeiro exemplo de crenças supersticiosas. O sábado judaico, particularmente, é citado como sua primeira prova de que a superstição escraviza o homem. Num fragmento atribuído a Petrônio (166 A.D.) o judeu é caracterizado adorando “seu deus-porco” e cortando “sua pele com uma faca” para evitar “expulsão pelo seu povo-exemptus populo” e de ser capaz de observar o sábado. Os historiadores anônimos que escreveram sobre a história da grande guerra (66-70 A.D.) dos judeus com os romanos, segundo Josefo “representaram mal os fatos, em virtude de, ou lisonjearem os romanos, ou de odiarem os judeus”.

Quintiliano (35-100 A.D.) faz alusão a Moisés como o fundador “da superstição judaica” a qual é perniciosa a outras pessoas. Semelhantemente para Marcial (40-104 A.D.) os judeus circuncidados e o sábado são sinônimos de degradação. Plutarco rotulou os judeus de nação supersticiosa e destacou a guarda do sábado (que ele considerava como época de embriaguez) como um dos muitos costumes bárbaros adotados pelos gregos. Juvenal, numa sátira escrita cerca de 125 A.D., condoeu-se da influência corruptível de um pai judaizante que ensinava seu filho a evitar os não circuncidados e a passar “cada sétimo dia em ociosidade, não participando dos labores da vida” Tácito (55-120 A.D.), a quem Júlio Isaac rotula de “a mais bela jóia na coroa do anti-semitismo,” ultrapassou todos os seus predecessores na mordacidade. Os judeus, segundo esse historiador, descendem de leprosos expulsos do Egito e se abstêm de carne suína em memória de sua lepra (uma moléstia que, segundo as crenças prevalecentes, era comum entre os porcos). Sua indolência no sábado comemora o dia em que deixaram o Egito. “Todos os seus costumes”, escreve Tácito, “são perversos e desgostosos e como um povo, são singularmente propensos à luxúria”.

Depois de Tácito, como F. L. Abel assinala “declinou a literatura anti-judaica”. O historiador Dio Cassius (130-220 A.D.) é talvez uma exceção. Ao descrever a insurreição judia Cirenaica (115 A.D.), Dio expressa, como lemos antes, seu ressentimento e ódio contra os judeus, retratando-os como selvagens que comiam a carne de suas vítimas e se untavam com o sangue delas. O fato de que todos os escritores acima mencionados viveram na cidade capital, a maioria de suas vidas profissionais e escreveram daí, sugere que suas observações de desprezo sobre os judeus—particularmente contra a guarda do sábado—refletem a atitude romana geral prevalecente contra eles, especialmente na cidade. (Não devemos nos esquecer que os judeus eram uma comunidade considerável, estimada pela maioria dos estudiosos em cerca de 50.000 já na época de Augusto. O sentimento contra os judeus era forte o suficiente, por exemplo, como escreve F. F. Bruce, “para fazer com que Tito, quando coroado príncipe, renunciasse a seu plano de desposar Berenice, a irmã de Herodes Agripa, o Moço”. O príncipe de fato, por causa da crescente hostilidade do populacho contra os judeus, foi forçado, ainda que “involuntariamente” “invitus”, a pedir-lhe que deixasse Roma.

Que a hostilidade para com os judeus era particularmente sentida àquela época em Roma, é também indicada pelas obras do historiador judeu Josefo. Ele estava na cidade desde cerca de 70 A.D., até sua morte (93 A.D.), como pensionista da família imperial, e sentiu o impulso de apanhar a pena e defender sua raça das camadas populares. Em suas duas obras, Contra Apion e Antiguidades Judaicas, mostra como os judeus favoravelmente se comparariam a qualquer nação, em relação a antiguidade, cultura e proeza.

Medidas e Atitudes Cristãs

À luz desta política repressiva e atitudes hostis para com os judeus (particularmente sentidas na cidade principal), que medidas a igreja de Roma tomou a esta altura, para esclarecer às autoridades romanas seu rompimento com o judaísmo? Qualquer mudança na atitude dos cristãos, sua política e costumes, devem ser explicadas não somente na base do conflito romano-judaico, mas também à luz do relacionamento que os cristãos tinham tanto para com os romanos quanto para com os judeus. A isto dedicaremos nossa atenção por pouco tempo, antes de considerarmos mudanças específicas nas observâncias religiosas que ocorreram na igreja de Roma.

Uma pesquisa da literatura cristã do segundo século mostra que na época de Adriano a maioria dos cristãos assumiam uma atitude de reconciliação com o Império, mas, em relação aos judeus, adotaram uma política de radical diferenciação. Quadrato e Aristides, por exemplo, pela primeira vez endereçou tratados (geralmente chamados “apologias”) a Adriano (117-138 A.D.) para explicar e defender a fé cristã. Os primeiros apologistas, como faz notar J. Lebreton, “acreditavam na reconciliação da Igreja com o Império e trabalhava por ela”. Embora fossem incapazes de providenciar uma fórmula definida de reconciliação com o Império, como A. Puech estabelece, estavam confiantes de que o conflito não era incurável. Indubitavelmente, sua atitude positiva deve ter sido encorajada pela política romana para com o cristianismo, que, particularmente sob o domínio de Adriano (117-138 A.D.) e Antonino Pio (138-161 A.D.) pode ser definida como sendo de “proteção imperial relativa”. Adriano, de fato, como observa Marcel Simon, conquanto “reservasse sua severidade para os judeus... sentia-se atraído com simpatia para o cristianismo”. Em seu Rescriptus, o imperador tomou providências para que cristão algum fosse acusado na base de calúnias públicas.

Por outro lado, quão diferente naquela época era a atitude de muitos escritores cristãos para com os judeus. Um conjunto completo de literatura anti-judaica foi produzido no segundo século condenando os judeus social e teologicamente. Está além do escopo do presente estudo examinar essa literatura. A seguinte lista de significativos autores e/ou escritos que difamavam os judeus em maior ou menor grau pode servir para deixar o leitor informado da existência e intensidade do problema: A Pregação de Pedro, A Epístola de Barnabé, A Apologia Perdida de Quadrato, A Disputa entre Jason e Papiscus com respeito a Cristo, O Diálogo com Trifo, de Justino; Contra os judeus, de Miltiades, (infelizmente perdido); Contra os Judeus, de Apolinário (que também pereceu); Acerca da Páscoa Judaica, de Melito; A Epístola a Diogneto, O Evangelho de Pedro, Contra os Judeus, de Tertuliano, e Contra Celso, de Orígenes.

F. Blanchetière, em sua erudita pesquisa sobre o problema do anti-judaísmo na literatura cristã do segundo século, persuasivamente conclui: “Desta pesquisa, resulta que ‘o problema judaico’ readquiriu interesse pelos anos trinta do segundo século, isto é, a época de Adriano.” De fato, os escritos dos Pais Apostólicos dão a impressão de quase uma total falta de interesse de seus autores por tal questão. Entrementes, naquela época, o Kerugma Petrou sentiu a responsabilidade de esclarecer a relação entre judeus e cristãos. Com a Epístola de Barnabé (que ele data de cerca de 135 A.D.) apareceu todo um grupo de escritos, tratados e diálogos, toda uma literatura “Contra os Judeus-Adversus Judaeos” atacando esta ou aquela observância judaica, quando não é caso da própria fundação do judaísmo. Além do mais, devemos notar que as áreas romanas orientais não foram igualmente envolvidas.

Conquanto observações depreciativas sobre os judeus e o judaísmo já estejam presentes em documentos primitivos, não é senão até a época de Adriano que começou com a Epístola de Barnabé o desenvolvimento de uma teologia cristã de separação dos judeus e desprezo por eles. Os pais da igreja; a esta altura, como F. Blanchetière adequadamente declara: “não sentiam mais, como Paulo sentia, ‘uma grande tristeza e dor’ no coração, nem desejavam mais ser ‘anátemas’ por seus irmãos...” Sem ir ao extremo exemplo da linguagem abusiva, como utilizada pelo autor da Epístola a Diognetus, Justino, da mesma maneira que Barnabé, sabia somente que em toda a sua história, Israel havia sido de coração duro, obstinado e idólatra... Israel, assino de profetas, é culpado de não ter reconhecido o Filho de Deus... É apenas justiça, portanto, que Israel seja batido coletiva e indistintamente, condenado e amaldiçoado.

A adoção desta atitude negativa para com os judeus pode ser explicada (mas não necessariamente justificada) por diversas circunstâncias existentes particularmente à época de Adriano. Primeiramente, o relacionamento entre Roma e os judeus era extremamente tenso. Estes, como já observamos estavam sujeitos a medidas repressivas e punitivas. Segundo, existia um conflito entre a Igreja e a Sinagoga. Os cristãos eram não apenas barrados da sinagoga como frequentemente denunciados às autoridades, e, quando possível, diretamente perseguidos pelos judeus. Terceiro, um certo grau de proteção Imperial era concedido aos cristãos. Possivelmente Roma reconhecesse que os cristãos não tinham aspirações nacionalistas e, consequentemente, não representavam ameaça política. Quarto, a influência de cristãos judeus era sentida dentro da Igreja. Ao insistirem em observâncias literais de certas regras mosaicas, estes encorajaram a dissociação e o ressentimento.

Tais circunstâncias convidaram os cristãos a desenvolver uma nova identidade, não apenas caracterizada por uma atitude negativa para com os judeus, mas também em substituição de costumes judaicos característicos por outros novos. Estes serviriam para tornar as autoridades romanas cientes de que os cristãos, como enfatiza Marcel Simon, “liberados de qualquer laço com a religião de Israel e da terra da Palestina, representavam para o Império súditos irreprocháveis”. Esta necessidade interna da comunidade cristã em desenvolver o que pode ser chamado de “diferenciação anti-judaísmo” encontrou expressão particularmente no desenvolvimento de critérios de hermenêutica escriturística injustificáveis, através dos quais as observâncias e histórias judaicas pudessem tornar-se sem significado e função.

Com relação à história judaica, é digno de nota que enquanto os Pais Apostólicos não façam referências explícitas ou implícitas a ela, os Apologistas reinterpretam e inter-relacionam a história judaica passada e presente (frequentemente usando uma justificação escriturística (a posteriori) para provarem a histórica infidelidade dos judeus e, consequentemente, a justiça de sua rejeição divina. Barnabé, por exemplo, tenta demolir a validade histórica do judaísmo ao anular seus eventos e instituições históricas de seu significado e realidade literais. Embora o concerto, por exemplo, fosse dado por Deus aos judeus, “eles o perderam completamente logo após Moisés tê-lo recebido” (4:7), por causa de sua idolatria e nunca mais lhe foi oferecido novamente. Para Barnabé, a antiga economia judaica perdeu seu sentido ou então não faz sentido. Justino, semelhantemente em um tour de force estabelece uma conexão de causa entre “o assassinato de Cristo e de Seus profetas” pelos judeus, e as duas revoltas judaicas de 70 A.D. e 135 A.D., concluindo que as duas instituições fundamentais do judaísmo, a saber, a circuncisão e o sábado, eram uma marca de infâmia imposta por Deus aos judeus para destacá-los para o castigo que bem mereciam em virtude de sua perversidade. Melito, a quem E. Werner chama de “o primeiro poeta do deicídio,” em Homilia Pascal, em estilo altamente retórico reinterpreta a histórica páscoa hebréia do Êxodo como comemorativa do “extraordinário assassinato” de Cristo pelos judeus. “Matastes a este na época da grande festa (v. 92), Deus foi assassinado, O Rei de Israel foi destruído pela mão direita de Israel.  Oh assassino medonho. Oh despercebida injustiça. (v. 96 e 97)”.

A história de Israel é vista portanto, como uma sequela de infidelidades, de idolatrias (particularmente enfatizadas são Baal Peor e o bezerro de ouro) e de assassinos (dos justos, dos profetas e finalmente de Cristo), consequentemente, os infortúnios dos judeus, especialmente a destruição da cidade, sua expulsão e dispersão e sua punição por Roma, representam um castigo justo e divino.

Esta reinterpretação negativa do judaísmo, motivada, como sucintamente descrevemos acima, por fatores dentro e fora da Igreja, particularmente afetou a atitude de muitos cristãos para com as observâncias religiosas judaicas. Em vista do fato de que o judaísmo foi corretamente definido como orthopraxis (feitos em lugar de credo) e que as observâncias religiosas tais como a circuncisão e o sábado foram não somente proscritas pelo edito de Adriano, mas também consistentemente atacados e ridicularizados por autores gregos e latinos, não deveria surpreender que muitos cristãos cortassem seus laços com o judaísmo e instituíssem muitas observâncias religiosas em lugar das judaicas, tais como o sábado e a páscoa hebraica. Nesse processo, como veremos agora, a igreja de Roma desempenhou um papel de liderança onde, como mencionamos acima, o rompimento com o judaísmo ocorreu antes e, onde as hostilidades e medidas anti-judaicas foram particularmente sentidas. Isto pode melhor ser exemplificado por um estudo sobre sua posição quanto à questão do sábado e da páscoa hebraica.


Continua...

Comentários

  1. Verdade Ruth,

    Aqui vemos o início de um conflito político/religioso que deu origem a observância do domingo em lugar do sábado observado pelos primeiros cristãos.

    Como vimos nos capítulos anteriores, não há embasamento Bíblico nem histórico para crer que a observância do domingo se deu durante a vida de Cristo e tampouco logo após Sua ressurreição.

    Os apóstolos seguiram fielmente os ensinamentos do Mestre.

    Nos próximos capítulos veremos mais sobre a questão histórica/política/religiosa que se deu a instituição do domingo como dia aceitável e conveniente pelos homens a ser observado.

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