Afeto Desordenado : O Décimo Mandamento


“Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo.” (Êxodo 20:17)


  

por Loron Wade  (pág.89-95)




Eu devia ter uns 14 anos quando aconteceu. Um dia eu estava cuidando dos meus interesses, como sempre, quando uma linda garota passou por mim. O que mais me impressionou nesse incidente não foi seu sorriso encantador nem o andar gracioso, mas o fato de que ela carregava na mão um rádio portátil, do qual saía a melodia rodopiante de uma valsa de Strauss. 

Diga o que é amor à primeira vista! A partir daquele momento, eu me convenci definitivamente de que a felicidade e a realização na vida consistiam em possuir um rádio portátil. 

Bom, naquele tempo, esses aparelhos não eram importados da China e vendidos por 1,99 na lojinha do bairro. Além do mais, a frágil condição das minhas economias deixava claro que a aquisição de um deles não iria ocorrer de um dia para outro; mas, com toda certeza, aconteceria. Daquele momento em diante, todos os meus trabalhos avulsos e presentes de Natal e aniversário eram canalizados para o fundo pró-rádio. Por fim, num dia supremamente feliz, contei 43 dólares e fui ao centro para comprar o rádio. 

Ninguém estava em casa quando voltei, e fui para meu quarto a fim de fazer a lição de casa. Não só para fazer a lição de casa, lógico. Enquanto me envolvia com a álgebra, o fundo musical de “Don´t Let the Stars Get in Your Eyes” criou um ambiente dos sonhos. Ah, que felicidade! O que seria melhor do que isso? 

Não demorou para que eu precisasse de um copo d´água e fui à cozinha. E o rádio? Era portátil! Você não achou que ele ia ficar para trás, no quarto, achou? 

A música do vagalume tocava no rádio junto à minha orelha. Meus olhos estavam semicerrados e meus pés se moviam de acordo com o ritmo; isto é, se moveram até o instante em que meu pé esquerdo tropeçou na perna da mesa. Em um instante eu estava pulando e saltitando, no momento seguinte estava dando um mergulho de nariz rumo ao chão. Minhas mãos se estenderam instintivamente para diante. Conseguiram evitar que meu rosto batesse no tampo do balcão, mas o rádio... Ai, o rádio! Ele descreveu um arco parabólico enquanto voava e se desintegrava no chão. Fim da música. 

Meu pai foi gentil quando voltou para casa mais tarde e soube do que havia acontecido, mas assim mesmo não resistiu e disse: “Acabou sendo um rádio bem caro, não foi mesmo, filho?” Foi. 

Bem que eu gostaria de dizer que aprendi uma lição profunda naquele momento e que nunca mais me esqueci dela. Infelizmente, não foi o caso. Mas a mensagem foi clara (e teria sido mesmo que o rádio não houvesse se rebentado naquele dia): a felicidade que se origina em coisas costuma ser passageira. Jesus disse isso de maneira bem melhor: “Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lucas 12:15). 


Quando a Novidade Passa  

Mamãe costumava dizer: “Espere até que o ‘novo’ se gaste.” Se o rádio não houvesse se quebrado naquele dia, o “novo” (a novidade e a emoção de ser proprietário) teria passado de qualquer jeito. Talvez não no primeiro dia, nem no segundo, mas ainda assim teria acontecido. Essa é uma lei da vida. As pessoas que extraem de coisas a felicidade precisam sempre passar de uma coisa para outra, enquanto perseguem a última moda ou novidade. E a seguinte tem de ser maior, mais brilhante, mais rápida, mais atual, porque o “novo” realmente nunca perdura. 

– você não está mais com a Diana? – perguntei ao Gerson quando o vi alguns meses atrás. Ele me havia contado a respeito dessa garota maravilhosa que entrara na sua vida e no seu apartamento. 

– Que nada! – disse ele. – Ela era carinhosa, uma pessoa realmente legal, mas não mexia mais comigo, então eu disse que estava tudo acabado. 

– E como foi que a Diana reagiu? 

– Ah, para ela foi difícil. Ela chorou um bocado e disse que havia me dado o melhor de si mesma, e não sabia o que fazer agora. Mas eu lhe disse: “Escute aqui. Eu não consigo fingir algo que não estou sentindo. Simplesmente não é mais como era. Então supere isso.” 

Parece que Gerson foi incapaz de ver quão egoísta havia sido seu comportamento. 

O décimo mandamento trata do culto às coisas e, para Gerson e para todos os que pensam como ele, as pessoas também são “coisas”. Eles as usam para seu prazer e conveniência; porém, assim que a novidade passa ou a outra pessoa não mais serve aos seus propósitos, estão prontos para ir adiante. 

O apóstolo Paulo diz que a avareza é idolatria (Colossenses 3:5). Tanto a avareza quanto a idolatria têm que ver com o culto a coisas. Mas há uma diferença: o segundo mandamento (aquele que fala da idolatria) nos adverte a não tornar as coisas mais importantes do que Deus, enquanto o décimo diz que não devemos torná-las também mais importantes do que as pessoas. Esse mandamento proíbe colocar nossos desejos egoístas acima dos direitos alheios ou valorizar pessoas e coisas em termos do benefício que podemos extrair delas.


O Super-homem 

O Super-homem tem sido uma figura popular desde que apareceu pela primeira vez, na década de 1930. E por que não? Mais rápido que um tiro de revólver, ele salta por sobre arranha-céus num único movimento. Além disso, nunca se engana, nunca erra o alvo e nunca falha. Ele é o maior, o mais inteligente, o astro, sempre o melhor! 

Você gostaria de ser o Super-homem? É fácil! É só mandar cinquenta dólares para a loja de fantasias Costume Craze, de Lindon, em Utah, e lhe será despachado pelo correio um traje completo, incluindo a capa voadora e um peito modelado em plástico, mostrando enormes músculos e abdome perfeitamente esculpido. 

Não são muitos os que pensariam em vestir-se desse jeito para ir ao escritório,1 mas em certo sentido milhões de pessoas tentam, sim, viver o sonho do Super-homem. 

Pense em Christopher Reeve, o atraente ator que explodiu no cenário de Hollywood ao atuar como o homem de Krypton no filme do Super-homem que estreou em 1978. O sucesso do primeiro filme, Super-Homem, foi repetido em Super-Homem II, III e IV, e abriu as portas para Reeve atuar como protagonista em muitos outros filmes importantes. 

Ao longo do caminho, Reeve adquiriu uma luxuosa mansão, um iate particular, vários aviões, bem como uma paixão por navegar mais longe, voar mais alto e empenhar-se mais do que qualquer outro. Fez dois vôos solo atravessando o Atlântico. Navegador experiente, ele competia com frequência em eventos aquáticos. Também gostava de planadores, e certa vez subiu 32.000 pés pelas poderosas correntes de ar acima do pico Pikes, no Colorado. Além disso, esquiava, jogava tênis e praticava mergulho com desenvoltura. 

Durante dez anos, após o primeiro filme do Super-homem, Reeve viveu com a modelo britânica Gae Exton, que lhe deu dois filhos. Em 1987, ele a deixou e se uniu à bela Dana Morosini, que era dez anos mais jovem. 

Christopher Reeve nunca usou seu traje de Super-homem na rua, mas estava convencido de que o estilo de vida do Super-homem era o melhor para ele. 

Enquanto representava um capitão da cavalaria no filme Anna Karenina, descobriu mais um mundo a conquistar: o hipismo. Não demorou muito para adquirir um estábulo cheio de cavalos de raça e começou a competir regularmente nessa modalidade esportiva. 

Em maio de 1995, estava programada uma corrida com obstáculos em Culpeper, Virgínia, e no último minuto Reeve decidiu competir. Dana não se sentiu nada entusiasmada ao saber disso. 

– Chris, quando é que vamos passar algum tempo juntos como família? – perguntou. 

– Talvez no ano que vem. Mas, de qualquer maneira, você pode vir junto para me ver competindo.2  

Assim, quando a prova começou, Dana sentou-se na linha lateral para observar seu famoso e arrojado esposo que, como sempre, era a estrela do show, cavalgando diante do entusiástico aplauso da multidão de admiradores. 

Para um homem como Christopher Reeve, os valores de alguém como o apóstolo Paulo deviam parecer incompreensíveis, coisa de lunático. Perto do fim de uma vida intensa de sacrifício e serviço, o idoso apóstolo escreveu: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” (Filipenses 2:3 e 4).  

É disso que trata o décimo mandamento. O que Paulo expressou com palavras, ele ilustrou com a vida.


Dando e Obtendo 

Em um momento, enquanto a multidão em Culpeper aplaudia, emocionada, o famoso ator em seu belo cavalo, aconteceu algo inesperado. 

No terceiro obstáculo, em vez de saltar, o cavalo Eastern Express, por alguma razão, parou de modo abrupto e baixou a cabeça. Jogado girando para o ar, Christopher bateu a cabeça no obstáculo e depois mergulhou na grama. A violência do impacto rompeu sua medula espinhal na segunda vértebra cervical, justamente onde o pescoço se liga aos ombros. 

Em menos tempo do que o necessário para você ler isto, Christopher Reeve passou de um dos mais brilhantes e bem pagos atores do mundo a um homem dependente dos outros e das máquinas até para respirar. Da atividade contínua, ele passou para aquilo que posteriormente descreveu como “a imobilidade perpétua”. 

Seria difícil imaginar uma transformação maior. Mas Reeve disse mais tarde que a mudança mais importante ocorrida naquele dia foi um profundo realinhamento dos valores e propósitos para viver. Se você quisesse contribuir para a fundação Christopher e Dana Reeve hoje, o seu dinheiro não iria para cavalos de raça, barcos de regata ou planadores, mas para encontrar a cura para milhares de pessoas que, à semelhança de Reeve, sofrem danos na medula a cada ano. Durante o resto da vida, Reeve usou a fama, o dinheiro e sua imensa criatividade em favor dessa causa. 

Poucas pessoas têm os talentos e oportunidades que proporcionaram riqueza e celebridade a Christopher Reeve. Mas há milhões que, em seu próprio nível, estão seguindo a ética pela qual ele viveu. Suas casas estão atravancadas de coisas. Ao viver além de seus recursos, elas se vêem afundadas em dívidas, oscilando à beira da ruína financeira. Atormentadas e impulsionadas pelo estilo de vida que consiste em obter sempre mais, elas têm pouco tempo para passar com os filhos e nenhum para ajudar os outros ou para cultivar uma vida devocional. Não é surpresa que, em 2005, mais de dois milhões de pessoas se tornaram inadimplentes. Esse é, de longe, o número mais alto da história. 

A cobiça é o amor fora de proporção, fora de equilíbrio e fora de lugar. Significa colocar nossa devoção em “coisas” – dinheiro, sucesso, fama – e transformá-las no centro da nossa existência, crendo que são o fundamento sobre o qual construímos a felicidade. As coisas se tornam mais importantes do que as pessoas e suas necessidades. 

Assim como os outros nove mandamentos, o décimo fala não só de atos específicos, mas também de valores e atitudes. Ele é não apenas prescritivo, mas descritivo. Ou seja, não apenas nos diz como comportar-nos, mas descreve como as coisas devem ser e revela quem e como é Deus. Acima de tudo, Deus é Aquele que serve, dá e Se sacrifica com amor abnegado. 

Como já notamos, o apóstolo Paulo insiste para que nada façamos “por partidarismo ou vanglória”, mas que com “humildade” não tenhamos em vista o que é propriamente nosso, senão também o que é dos outros. Nos versos seguintes, ele revela a fonte e a inspiração de um ideal como esse.  

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois Ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a Si mesmo Se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-Se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a Si mesmo Se humilhou, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz” (Filipenses 2:5-8). 

Jesus Cristo é o exemplo supremo para nós. Sua vida foi de humilde serviço. Ele “Se esvaziou” e Se entregou sobre o altar do serviço e do sacrifício. Ao fazê-lo, mostrou-nos um exemplo de compaixão para com as pessoas, de amor prático em ação. É isso que move os cristãos e inspira seus valores. Quanto mais perto chegamos da verdadeira obediência aos Dez Mandamentos, mais perto estamos de imitar o caráter de Jesus e de ser como Ele. E esse, afinal de contas, é o Seu propósito.


O Melhor Convite  

Benjamin Franklin teve uma boa ideia. Desejando ser melhor, sentou-se um dia e fez uma lista de virtudes. Depois, metódico como sempre, organizou um cuidadoso plano para alcançá-las. 

O que você acha de aplicar a ideia de Franklin aos Dez Mandamentos? Eles realmente são uma tremenda lista de virtudes, não são? Então, por que não tratá-los como o mais antigo manual de autoaperfeiçoamento e pôr mãos à obra até dominar cada um deles? 

O apóstolo Paulo diz que esse era exatamente o tipo de religião com o qual ele crescera. Ele e seus companheiros estudavam os mandamentos dia e noite, e se empenhavam em melhorar mediante a obediência aos seus mínimos detalhes. 

Mas Paulo chegou a ver essa abordagem como o “ministério da morte”. Por quê? Como é que uma sincera tentativa de obedecer aos Dez Mandamentos poderia ter um resultado tão negativo? 

Porque isso transformava a religião num livro de regras e a reduzia a uma questão de “letras gravadas em pedras” (2 Coríntios 3:7). Paulo contrasta isso com a “nova aliança”, expressão que ele tirou da profecia de Jeremias (31:31-33). A essência dessa abordagem é incrivelmente simples. Diz: “Eu serei o seu Deus, e eles serão o Meu povo” (verso 33). 

Isso significa que a verdadeira religião não se concentra em regras, mas num relacionamento. E encontra o seu centro não em nós mesmos e nosso comportamento, mas em Deus e Seu amor eterno. Assim, em vez de ser uma escada pela qual laboriosamente subimos, esperando um dia entrar no Céu, os Dez Mandamentos se tornam, como Deus pretendia que fossem, santos princípios designados para nos auxiliar a evitar erros insensatos e um sofrimento sem fim. Eles são verdadeiramente a “lei da liberdade” (Tiago 2:12). 

Sob essa nova aliança, a maneira de guardar a lei de Deus também é diferente, porque a aliança inclui uma promessa: “Na mente, lhes imprimirei as Minhas leis, também no coração lhas inscreverei” (Jeremias 31:33). É a isso que se refere o apóstolo Paulo quando diz que os crentes são cartas escritas “pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações” (2 Coríntios 3:3). 

Aqui está a chave. Isso faz toda a diferença, porque tudo é obra de Deus, e não nossa. Quando o centro da nossa vida é uma relação de amor com Deus através de Seu filho Jesus Cristo e da comunhão do Espírito, então os Dez Mandamentos saem das pedras e entram em nosso coração.  

Uma boa conduta (obediência) que vem só de conhecer o que é certo será superficial e parcial, na melhor das hipóteses. Mas um coração renovado pelo Espírito Santo será capaz de prestar obediência como uma genuína e desinteressada expressão de amor e gratidão para com Deus.   

E este é o convite que deixo com você ao concluir nosso estudo dos Dez Mandamentos: entrar sem demora nessa aliança de paz, nesse relacionamento de amor. Aqui está a promessa de Deus a todos os que respondem. Espero que você a considere com carinho e a torne sua: “Aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados [...] Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o Meu Espírito e farei que andeis nos Meus estatutos, guardeis os Meus juízos e os observeis (Ezequiel 36:25-27).

____

1. Nem mesmo Clark Kent [o personagem] vestia seu traje de Super-Homem para trabalhar. 

2. Christopher Reeve, Still Me (Nova York: Random House, 1988), capítulo 1.


Muitos têm tratado os Dez Mandamentos como princípios dados somente para o povo de Israel. Grande engano! Muitos têm dito que foram preceitos dados por Moisés. Outro grande erro, afinal, a Bíblia diz que o próprio dedo do Senhor os escreveu. Quantos sofrimentos poderíamos evitar se tão somente observássemos qual é a boa e santa vontade de Deus!









Comentários

  1. Concluimos aqui a postagem do livro "Os Dez Mandamentos" escrito por Loron Wade. Desejamos de coração que a leitura desse livro tenha sido uma benção para cada um de vocês.

    Que Deus nos abençoe a todos

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