Raízes do Grande Conflito


“Dispersas através das páginas do Antigo Testamento e do Novo Testamento encontram-se muitas referências e alusões a uma incessante guerra entre Deus e Satanás, entre o bem e o mal, tanto em nível pessoal quanto cósmico. [...] O conflito moral, que tem perturbado o Universo da criação de Deus, acha-se estreitamente vinculado ao plano de salvação. Este último prevê, não só a libertação da humanidade da escravidão do pecado, mas também uma teodiceia para a Divindade contra as acusações de Satanás.”1

“De acordo com as Escrituras Sagradas, antes que este mundo fosse criado, o pecado se originou misteriosamente no coração de Lúcifer, o mais exaltado dos anjos no Céu. A culpa não foi de Deus, já que Lúcifer foi criado perfeito, sem inclinação para o mal.” (Em Plena Certeza, 52)

O apóstolo Paulo nos dá a compreensão da existência do Cosmo. Algo muito complexo que vai além da dimensão da Terra: “dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz. Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” (Colossenses 1: 12-17)


Mas, quem era Lúcifer? Por que ele ousou desafiar Deus?

“Na parábola do Juízo (Mateus 25), Jesus chamou aquele que desafiou a ordem estabelecida por Deus de “o diabo”, um dos diversos nomes e títulos atribuídos a essa personalidade maligna. Ele também é referido como “Satanás” e o “tentador” (Mateus 4:1,3, 10). O livro do Apocalipse o identifica como “o grande dragão”, a “antiga serpente” – uma alusão ao modo utilizado por ele para seduzir Eva – e como o “sedutor de todo o mundo” (Apocalipse 12:9; 20:2). Ele também é descrito como o “Maligno” ou o “Iníquo” (Mateus 13:19), bem como o “acusador de nossos irmãos” (Apocalipse 12:10).

Na condição de líder dos anjos que a ele se aliaram (Mateus 25:41), Satanás recebe o título de Belzebu, “o príncipe dos demônios” (Marcos 3:22). Às vezes os demônios são chamados de espíritos (Lucas 9: 39, 42), espíritos imundos (Marcos 7:25-26) ou “espíritos malignos” (Lucas 8:2). A Escritura também reconhece Satanás como “o príncipe da potestade do ar” (Efésios 2:2, o “príncipe deste mundo” (João 12:31); 14:30; 16:11) e o “deus deste século” (2 Coríntios 4:4)”1

“Satanás, o adversário de Deus, não saiu das mãos do Criador como um demônio maligno. Pelo contrário, Deus o trouxe a existência como um anjo sábio e cheio de glória. Duas passagens do Antigo Testamento descrevem indiretamente a origem, posição e queda moral desse poderoso ser:

. Isaías 14:4-21

“então, proferirás este motejo contra o rei da Babilônia e dirás: Como cessou o opressor! Como acabou a tirania! Quebrou o SENHOR a vara dos perversos e o cetro dos dominadores, que feriam os povos com furor, com golpes incessantes, e com ira dominavam as nações, com perseguição irreprimível. Já agora descansa e está sossegada toda a terra. Todos exultam de júbilo. Até os ciprestes se alegram sobre ti, e os cedros do Líbano exclamam: Desde que tu caíste, ninguém já sobe contra nós para nos cortar. O além, desde o profundo, se turba por ti, para te sair ao encontro na tua chegada; ele, por tua causa, desperta as sombras e todos os príncipes da terra e faz levantar dos seus tronos a todos os reis das nações. Todos estes respondem e te dizem: Tu também, como nós, estás fraco? E és semelhante a nós? Derribada está na cova a tua soberba, e, também, o som da tua harpa; por baixo de ti, uma cama de gusanos, e os vermes são a tua coberta.

Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo.

Os que te virem te contemplarão, hão de fitar-te e dizer-te: É este o homem que fazia estremecer a terra e tremer os reinos? Que punha o mundo como um deserto e assolava as suas cidades? Que a seus cativos não deixava ir para casa? Todos os reis das nações, sim, todos eles, jazem com honra, cada um, no seu túmulo. Mas tu és lançado fora da tua sepultura, como um renovo bastardo, coberto de mortos traspassados à espada, cujo cadáver desce à cova e é pisado de pedras. Com eles não te reunirás na sepultura, porque destruíste a tua terra e mataste o teu povo; a descendência dos malignos jamais será nomeada. Preparai a matança para os filhos, por causa da maldade de seus pais, para que não se levantem, e possuam a terra, e encham o mundo de cidades.”

. Ezequiel 28: 12-19

“Filho do homem, levanta uma lamentação contra o rei de Tiro e dize-lhe: Assim diz o SENHOR Deus: Tu és o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de ouro se te fizeram os engastes e os ornamentos; no dia em que foste criado, foram eles preparados.Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci; permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüidade em ti.  Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te contemplem.

Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio, profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu, e te reduzi a cinzas sobre a terra, aos olhos de todos os que te contemplam.Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; vens a ser objeto de espanto e jamais subsistirás.”

“Em seu contexto primário, essas profecias tratam dos reis pagãos de Tiro e Babilônia, os quais viveram no tempo de Ezequiel e Isaías, respectivamente. Embora estudiosos liberais rejeitem essa milenar interpretação cristã, parece evidente, até mesmo por uma leitura casual, que alguns dos pormenores declarados só poderiam ser verdade em relação a um personagem maior do que aqueles governantes do oriente Próximo.

[...] Embora Israel, em certo sentido, tenha rejeitado a Deus como seu rei quando o povo pediu ao profeta Samuel para instituir a monarquia (1 Samuel 8:7; 12:12), Deus continuou a ser reconhecido como governante teocrático da nação, governando através de representantes humanos colocados no trono nacional (Isaías 41:21; Sofonias 3:15). Assim como Deus estava por trás do trono davídico de Israel, assim estava Satanás por trás do trono desses reis pagãos. Assim como se esperava que os reis davídicos revelassem os traços de caráter e atributos do Deus verdadeiro, assim esses reis pagãos espelhavam as características de seu comandante demoníaco.”1

“O apóstolo Paulo confirma essa descrição profética” da soberba de Lúcifer “quando adverte contra ordenar recém-convertidos, para que “não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo.” (1 Timóteo 3:6)

O Conflito começou então “com um anjo nobre – um querubim cobridor – que assistia na presença de Deus. A crise teve origem, por assim dizer, na sala do trono do próprio Deus.”1

“Lúcifer permitiu que pensamentos invejosos o dominassem. Ele poderia haver reconhecido que, como um ser criado, não tinha direito ao respeito e à adoração devida à Divindade. Ele cobiçou a posição de Cristo. [...]. Essas insinuações prosseguiram até que um terço dos anjos se uniu a Lúcifer. Eles criam que poderiam estabelecer um governo superior ao de Deus. [...] Lúcifer e seus seguidores recusaram-se atender aos rogos de Deus.” (Em Plena Certeza, 52)

“O pecado não pode ser explicado, mas suas raízes podem ser vistas no orgulho que encheu o coração de Lúcifer. Ele quis ser igual a Deus, desejava apenas o poder de Deus, mas não o Seu caráter.” (Em Plena Certeza, 52)

Deus criou todos os seres inteligentes como agentes morais livres, dotados da capacidade de prestar amorosa lealdade ao Criador ou rejeitar-Lhe a autoridade. [...] É evidente, portanto, que a rebelião, que acabou eclodindo entre algumas das inteligências criadas no Universo, não pegou Deus de surpresa. A Divindade já havia elaborado uma “operação resgate” voltada para seres humanos rebeldes enganados – um plano que também forneceria uma arma eficaz em sufocar a rebelião permanente.”1

“Foi assim que, quando na eternidade passada, a Divindade estabeleceu um plano de emergência para salvar a família humana do pecado, foi planejado que Deus Filho seria o Salvador da raça humana, o qual concordou em Se encarnar e morrer uma morte expiatória e vicária para redimir os arrependidos. O próprio Criador Se tornaria o Salvador da humanidade.

Um Deus sábio pôs o cosmo criado, animado e inanimado, sob a lei física ou lei natural. Tudo está sujeito às leis destinadas a cumprir seu lugar no cosmo. Se o Universo não funcionasse de maneira ordenada, não poderia haver nenhuma ciência verdadeira no mundo natural. As plantas e animais crescem e se desenvolvem em seus ciclos em harmonia com as leis que regem sua existência, assim como sóis e galáxias se movem em suas órbitas determinadas. Se a lei física deixasse de existir, o mundo natural entraria no caos.

Os seres inteligentes também estão sujeitos às leis físicas que ordenam suas vidas. Mas o Criador também os colocou sob o governo da lei moral. Deus determinou que todos os seres criados inteligentes deveriam ser agentes morais livres – dotados com direito de escolha. 

“Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência,” (Deuteronômio 30:19)

“Buscai o bem e não o mal, para que vivais; e, assim, o SENHOR, o Deus dos Exércitos, estará convosco, como dizeis. Aborrecei o mal, e amai o bem, e estabelecei na porta o juízo;” (Amós 5: 14-15)

“Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.” (Tiago 4:7)

[...] Deus exige que a fidelidade e o serviço prestados a Ele por todos os Seus súditos inteligentes se originem somente de uma genuína e amorosa apreciação do caráter divino.

A lei moral expressa a vontade do Criador, e não oprime. O amor divino esboça apenas mandamentos justos e bons. [...] Segue-se, portanto, que seres morais trazidos à existência por um Criador, cuja natureza é o amor, possuiriam eles mesmos corações amorosos e teriam prazer em obedecer a quaisquer mandamentos ou solicitações de Deus.

Os dez mandamentos são uma adaptação em 10 preceitos para a orientação da humanidade acerca da lei moral existente no Céu. Jesus declara o duplo princípio da lei moral ao sintetizar as duas tábuas dos dez mandamentos.

“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mateus 22: 37-39)

[...] Podemos concluir que o duplo princípio do amor não só expressa a vontade de Deus para todas as ordens de criaturas inteligentes, mas também jaz no cerne da religião bíblica: Todo dever da criatura consiste em prestar supremo amor ao seu Criador e imparcial amor aos semelhantes. Também podemos concluir que esse duplo princípio se acha adaptado em preceitos adequados a outras ordens de seres inteligentes, assim como o decálogo está adaptado às condições dos seres humanos. Neste sentido, visto que os anjos não se casam (Mateus 22:30), o quinto e o sétimo mandamentos não têm o mesmo significado que têm entre os seres humanos. Apesar disso, Satanás é acusado tanto de homicídio quanto de mentira, violações dos sexto e do nono mandamentos.

“Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.” (João 8:44)

Embora o decálogo não tenha sido dado na forma escrita senão quando Deus o proclamou no monte Sinai e o escreveu em tábuas de pedra (Êxodo 20:2-17; Deuteronômio 10:4), os registros de Gênesis revelam que a família humana conhecia esses preceitos oralmente desde os tempos mais antigos (1ª tábua: Gênesis 2:1-3; 35:1-4. 2ª tábua: Gênesis 4:8-11; 12:11-19; 18:19; 19:1-10; 39:7-9; 44:8). 

O apóstolo Paulo afirma em uma declaração inclusiva que os mandamentos eram conhecidos oralmente no período que vai “desde Adão até Moisés”:

“Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir.” (Romanos 5:13-14)

A extrema impiedade atribuída aos antidiluvianos se baseia em seu conhecimento da vontade de Deus; pois escolheram violar e ignorar as diretrizes divinas para a conduta e felicidade humanas.

“Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração;” (Gênesis 6:5)

A lei moral, embora dada a diferentes ordens de seres criados em preceitos específicos, é fundamental para o conflito que surgiu no universo. A autoridade e o governo de Deus e a imposição de Sua vontade (a lei moral) sobre a criação inteligente se tornou assunto de disputa, uma polêmica que provocou desavenças entre Deus e grande parte dos anjos, bem como entre Ele e a humanidade recém-criada.


Questões envolvidas no conflito

É improvável que a rebelião de Lúcifer tenha aparecido em sua plena força imediatamente. Levou tempo para se desenvolver. Tampouco o conflito teria surgido sem uma razão aparente que o justificasse. Contudo, num Universo perfeito, sem falta de nada, continua um mistério como um ser criado e dependente aspirou ao trono do criador autoexistente – uma impossibilidade na própria natureza das coisas. Não há um só texto bíblico que afirme diretamente as questões específicas que Lúcifer, cego pelo orgulho, levantou para usurpar as prerrogativas divinas. No entanto, podemos seguramente concluir das diversas passagens bíblicas a natureza das questões envolvidas.


1- A Lei de Deus ou código moral é a vontade do Criador

“Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei.” (1 João 3:4)

A própria epístola deixa claro que o apóstolo está falando da lei moral, sob a qual o Criador colocou a criação inteligente. Mas o pecado é mais grave que a simples ilegalidade é a atitude deliberada ou rebelião contra a “vontade” de Deus.”1

Quando os pecadores transgridem conscientemente a lei moral desafiam e desprezam o próprio Criador. 

“agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei.” (Salmo 40:8)

O pecado é, portanto encarado como uma transgressão deliberada ou rebelião contra a “vontade”, ou Pessoa, do Criador. Quando os pecadores transgridem conscientemente a lei moral, desafiam e desprezam o próprio Criador.

Quando as Escrituras dizem, portanto, que o “diabo” [Satanás] vive pecando desde o “princípio” (1 João 3:8), podemos concluir corretamente que Lúcifer questionou a necessidade de seres santos como os anjos, estarem sujeitos aos mandamentos de Deus. Ele teria considerado a lei de Deus uma restrição à liberdade angélica. A declaração do apóstolo mostra que Lúcifer rejeitou por fim a autoridade divina, lançando fora o jugo da submissão ao governo de seu Criador e escolhendo abertamente violar os mandamentos de Sua expressa vontade.

2- O Caráter de Deus

Por trás da vontade expressa do Legislador está Seu caráter. Ao questionar a lei de Deus, Lúcifer questionou o caráter do Criador. [...] então o Criador teria tido motivos ocultos para submeter criaturas inteligentes a essas orientações legais. Assim, ele pode ter argumentado logicamente entre os anjos que as motivações do Criador eram más.”1

Se lermos João 8:44 e o compararmos a Mateus 5:22 veremos claramente que Lúcifer antes de agir em rebeldia nutriu sentimentos de ódio contra a Divindade. Foram esses sentimentos que ele transmitiu aos outros anjos, deturpando o caráter de Deus.

“Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.”

“Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo.”

“Cristo acusa Lúcifer abertamente de homicídio e mentira, violações da lei moral. Mas quem ele matou ou para quem ele mentiu, antes de ser expulso do Céu? [...] o Mestre está evidentemente fazendo alusão ao estranho sentimento que Lúcifer começou a nutrir e que motivou suas ações. À luz da declaração de Jesus, podemos concluir que Lúcifer, nutrindo esse ódio interior para com a Divindade, foi de um lado para outro do Céu transmitindo aos outros anjos uma impressão deturpada de Deus. Somente por meio de sutis mentiras sobre o caráter e o governo divinos pôde ele obter êxito em persuadir grande parte dos anjos a participar de sua sorte.

3- Autonomia da criatura

As duas primeiras questões ocultaram o verdadeiro desejo de Lúcifer, que era ser independente de seu Criador. Visto que Deus é a fonte e o mantenedor da vida, segue-se que todos os seres criados dependem de Deus para existir. O desejo e a tentativa de ser independente de Deus são os pecados fundamentais da criatura e constituem a causa da rebelião que desafia o governo divino e deita fora o jugo da submissão e da obediência.1

Rejeitando a soberania de Deus sobre si, Lúcifer pretendeu se libertar da autoridade de Deus. Leia Isaías 14:13-14. 

“O eu torna-se o centro de seus pensamentos, expulsando a atitude natural do amor abnegado que o criador nele implantara na criação Lúcifer desejava ser seu próprio deus.

4- Justiça e misericórdia divinas

“As Escrituras descrevem Satanás como “o acusador dos irmãos”:

“Então, ouvi grande voz do céu, proclamando: Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus.” (Apocalipse 12:10)

“Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do Anjo do SENHOR, e Satanás estava à mão direita dele, para se lhe opor. Mas o SENHOR disse a Satanás: O SENHOR te repreende, ó Satanás; sim, o SENHOR, que escolheu a Jerusalém, te repreende; não é este um tição tirado do fogo? Ora, Josué, trajado de vestes sujas, estava diante do Anjo. Tomou este a palavra e disse aos que estavam diante dele: Tirai-lhe as vestes sujas. A Josué disse: Eis que tenho feito que passe de ti a tua iniqüidade e te vestirei de finos trajes.” (Zacarias 3:1-4)

[...] Satanás nega ao Céu o direito de lhes conceder misericórdia e perdão. A questão é: Como o Criador pode tanto ser justo quanto misericordioso? Se obediência a expressa vontade de Deus é tão vital para a felicidade da criação inteligente, Lúcifer argumentaria, então, que Deus só pode exercer justiça contra os pecadores que a violam. É injusto mostrar misericórdia para com os transgressores. Justiça e misericórdia são atitudes mutuamente excludentes, diria Lúcifer.

[...] Como é real o problema que o pecado e a rebelião trouxeram para Deus. [...] Como é possível a um Deus santo estender misericórdia a pecadores rebeldes, penitentes ou não, e ainda ser justo e verdadeiro para com Sua própria natureza? O Plano da salvação elaborado no Céu forneceria a resposta.”1


Qual é a Melhor Autoridade?

“Não existe liberdade absoluta na ordem natural nem na sociedade humana. A questão, portanto, não é como escapar da autoridade, mas, sim, sob que autoridade a vida será mais significativa, hoje e eternamente?

A autoridade espiritual mais proveitosa do Universo seria a que promovesse ao máximo o desenvolvimento físico, mental e espiritual de seus súditos. Tal autoridade seria motivada por verdadeiro amor e interesse pelos governados, pois somente num clima de aceitação e apreço poderiam os governados desenvolver todo o seu potencial. Este é o tipo de autoridade que governa toda a criação de Deus.

Mas no inicio da criação, como era possível saber se a autoridade de Deus era realmente a melhor? Era a única autoridade conhecida. Os seres inteligentes do Universo só possuíam duas opções:

1- Confiar na palavra do seu Criador de que o governo DELe era o melhor para as criaturas, ou
2- Submeter-se ao controle de outra autoridade e provar, talvez, que seu Criador estava errado.

Os questionamentos de Lúcifer e, finalmente, a insurreição forçaram os anjos a tomar uma decisão. O mais elevado anjo do Céu desafiou diretamente o Criador. [...]

Não conseguindo alterar a forma de pensar de Lúcifer e seus associados, Deus os expulsou do Céu e da posição que ocupavam. Foi assim que começou o grande conflito moral entre Deus e Lúcifer (Satanás). Essas questões seriam desenvolvidas posteriormente na arena da história humana.

Nos séculos subsequentes a esse conflito na Terra, duas grandes verdades relativas à autoridade são postas à prova perante os seres inteligentes do Universo:

1.   Uma autoridade governante baseada no amor é altruísta. Ela governará sempre no melhor interesse dos governados. Leis, exigências ou restrições serão sempre em benefício das criaturas, embora a princípio não se consiga perceber isso.
2.  Qualquer outra autoridade, pela própria natureza das coisas, será uma autoridade motivada pelo egoísmo. Essa autoridade, em última análise, haverá de explorar e arruinar seus súditos.”1


A queda de Lúcifer

“Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos.” (Apocalipse 12: 7-9)

“Por isso, festejai, ó céus, e vós, os que neles habitais. Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta.” (Apocalipse 12: 12)

A alegria dos anjos no céu e dos habitantes de outros mundos era evidente, pois sabiam que Satanás estava condenado pela vitória de Cristo no Céu e futuramente no Calvário.

Mas, agora cabe uma pergunta, se a terra foi criada após a queda de Lúcifer não contestam estes dois versos acima esta afirmação? Como foram “atirados para a terra” e por que “ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera”, se estes ainda não existiam? 

Devemos lembrar que a Bíblia descreve assim a Terra nos primórdios da Criação: “No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas. Disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas.” (Gênesis 1:1-4)

O “ai” refere-se ao sofrimento futuro para a humanidade. Haveria perseguição e sedução satânica, afinal Deus estava disposto a seguir Seu plano de criação da Terra. Irado por sua derrota e em vez de sentir remorso e pesar pelo mal, Satanás opta por se aprofundar mais ainda em seus objetivos. Destruir a criação divina seria o mesmo que destruir a Deus. Assim pensava ele.

“Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo;” (2 Pedro 2:4)

“... e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia;” (Judas 6)

“A palavra portuguesa “inferno” citada em 2 Pedro 2:4 não consta do texto grego. Ela aparece tanto nas Bíblias comuns em português como em inglês como uma tradução interpretativa do verbo grego tartaroõ, que significa literalmente “lançar no Tártaro”. O Tártaro na concepção dos gregos pagãos, era um lugar subterrâneo onde se aplicava castigo a seus habitantes. O verbo ocorre apenas uma vez no Novo Testamento, mas é claro que o apóstolo Pedro, sendo cristão, não endossa o ensino pagão. Ao empregar esse verbo com um significado cristão, Pedro queria se referir apenas a este planeta para o qual Satanás e seus anjos foram lançados.

[...] Os “abismos de trevas”, as “algemas eternas” e o próprio Tártaro estão sendo usados simplesmente como expressões figurativas reveladoras de restrições e limites impostos por Deus a esses seres sobrenaturais.

[...] A esfera moral em que Satanás e os demônios atuam é representada como a região das trevas. Eles são “os dominadores deste mundo tenebroso” (Efésios 6:12)

[...] Visto que o Pai, o Filho e o Espírito Santo determinaram a destruição do diabo e de seus anjos (Mateus 25:41) e a morte expiatória de Cristo foi planejada para ocasionar a condenação e destruição de Satanás (Jó 12:31-32; Hebreus 2:14) fica a pergunta: Por que a execução deles foi adiada?

Com base nas informações bíblicas podemos concluir que o adiamento da punição para os anjos caídos manifesta o caráter de Deus. A fim de ser justo com a criação inteligente, o Criador deve conceder tempo para que se desenvolvam e amadureçam os princípios do egoísmo e da transgressão contra a Sua vontade, para que todos os seres morais livres possam decidir a quem servirão, com plena consciência das questões envolvidas.

“Porque a mim me parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar, como se fôssemos condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens.” (I Coríntios 4:9)  

“[...] os princípios do pecado e da justiça, com todas as graves e avassaladoras conseqüências, estão sendo interpretados no palco da Terra. 

Lúcifer não voltou atrás em sua posição seguiu adiante com sua malignidade intensificada. Por isso, Pedro nos alerta: “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar;” (1 Pedro 5:8)


Resumo:

“A Bíblia apresenta uma visão cósmica do grande conflito que levou Cristo à Sua custosa, mas bem-sucedida missão, no Planeta Terra. O problema do pecado envolve a rebelião de Satanás, mas sua acusação de que Deus fez uma lei impossível de ser guardada pelos seres criados, e a vinda de Cristo à Terra na forma humana, para demonstrar que a lei pode ser vivida. Os ensinamentos de Jesus têm uma amplitude maior do que pensam os cristãos. Da mesma forma que a Ciência rompe os limites da visão restrita do mundo, a teoria necessita avançar além de uma visão mundial centralizada na humanidade e neste Planeta.”2

Se você quiser ampliar seus estudos sobre este Conflito entre Deus e Lúcifer, sugerimos a leitura destes textos publicados no blog no Tópico Bem e o Mal  
   
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Referência:

1- Frank B. Holbrook – Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, vol.9 ,pág.1070 - 1113


* “O Tratado Teológico Adventista é parte da Série Logos, que será completada com a publicação de sete volumes do Comentário Bíblico Adventista, mais o Dicionário Bíblico. Essa coleção trata-se da primeira exposição sistemática de toda a Bíblia produzida pela Igreja Adventista, com base nas línguas originais. Ela também incorpora pesquisas arqueológicas que oferecem o contexto histórico para a interpretação do texto sagrado.” http://www.portaladventista.org/portal/asn---portugu/5050-tratado-teologico-adventista-e-lancado-em-lingua-portuguesa

2. Crescendo em Cristo

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