Daniel e Seus Companheiros postos a Prova - Cap. 1


Comentário de Siegfried J. Schwantes, Ph.D.



Este capítulo constitui uma introdução apropriada ao Livro como um todo, pois explica a presença de Daniel e seus companheiros em babilônia, e sua promoção a posições de responsabilidade no reino. Além disto, a informação nele contida é essencial para uma compreensão do capítulo 2, quando Daniel teve ocasião de interpretar o sonho de Nabucodonosor. Também explica a proveniência dos vasos de ouro e prata do templo de Jerusalém, a profanação dos quais por Belsazar soou o dobre de finados para o império babilônico.

Indiretamente sugere o tema do livro inteiro: o conflito entre Babilônia e Jerusalém, entre o culto pagão e o do verdadeiro Deus. Embora humilhados pela deportação e cativeiro, o povo de Deus não precisava aderir às normas morais que prevaleciam no mundo pagão. Pela fidelidade de um remanescente dedicado o caráter de Deus seria exaltado entre as nações.

O livro de Daniel é acima de tudo um livro religioso. Tudo o mais é de interesse secundário. Focaliza a atenção sobre alguns momentos decisivos no conflito milenar entre a luz e as trevas, verdade e erro, e assegura ao leitor que a despeito de perseguição e derrota o povo de Deus sairá vitorioso no final. Os reinos deste mundo podem ter seu breve período de glória, mas no fim "o domínio e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo" (Daniel 7:27).

1:1 “No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a sitiou.”

A datação precisa dos acontecimentos mostra que o conteúdo do livro deve ser tomado seriamente. Longe de serem "lendas" colecionadas por causa de seu valor edificante, os vários episódios merecem ser tomados como acontecimentos históri­cos.

O terceiro ano do reinado de Jeoaquim corresponde a 605 A.C.1 Não há discordância entre esta data e a de Jeremias 25:1, uma vez que se compreenda que o terceiro ano de Jeoaquim correspondia ao ano de ascensão de Nabucodonosor, e o seu quarto ano corresponde ao primeiro ano do reinado deste monarca. O intervalo que decorria entre a morte de um rei e a primavera seguinte, quando o novo rei recebia o cetro das mãos de Marduk numa cerimônia especial, era designado "ano da ascensão".

“Palavra que veio a Jeremias acerca de todo o povo de Judá, no ano quarto de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá, ano que era o primeiro de Nabucodonosor, rei da Babilônia,”

A afirmação de que Jerusalém foi sitiada então, isto é em 605 a.C., não é corroborada por outros textos bíblicos ou extra-bíblicos, e os críticos apontavam-na como uma das inexatidões históricas do livro. O fato é que depois da derrota de Neco II em Carquemis, Nabucodonosor levou seu exército vitorioso através da Síria e da Palestina até à fronteira do Egito. No meio tempo Jerusalém bem podia ter sido sitiada, mas o sítio teria sido abreviado pela notícia da morte de Nabopolassar, pai de Nabucodonosor. Na pressa de voltar à Babilônia antes que surgisse um usurpador, Nabucodonosor teria aceito uma rendição nominal de Jerusalém garantida pela entrega de reféns e de um tributo na forma de vasos do Templo. A brevidade da operação toda explicaria o silêncio de outras fontes a respeito. Josefo cita Berosso como autoridade para a afirmação de que Nabucodonosor deixou o exérci­to por conta de seus generais e voltou apressadamente à Babilônia antes que um rival contestasse seu direito ao trono.2

1:2 “O Senhor lhe entregou nas mãos a Jeoaquim, rei de Judá, e alguns dos utensílios da Casa de Deus; a estes, levou-os para a terra de Sinar, para a casa do seu deus, e os pôs na casa do tesouro do seu deus.”

Que Jeová controla os acontecimentos é sugerido pela declaração: "O Senhor lhe (Nabucodonosor) entregou nas mãos a Jeoaquim, rei de Judá". O cativeiro de Judá não foi o resultado da fraqueza de Jeová em face dos deuses de Babilônia, mas uma expressão do propósito divino.

O fato de Babilônia ser chamada "a Terra de Sinear" é um arcaísmo que remonta a Gênesis 10:10, 11:2 e 14:1. É possível que haja uma relação entre os nomes de Sinear e Sumer, a designação antiga da Baixa Mesopotâ­mia. A troca entre as consoantes lmn e r é atestada em muitas palavras semíticas. A grafia Nabucodonosor usada em Daniel é uma variante de Nabucodorosor (no hebraico), que é como a palavra é soletrada em Jeremias e Ezequiel, e que corresponde ao original Nabu-kudur-usur, "Que Nabu Proteja a Fronteira".

"Casa do Tesouro" pode ter sido uma espécie de museu, tal como se encontrou no palácio real em Babilônia, onde objetos de arte de várias partes do império eram postos em exibição.

1:3 “Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos nobres,”

O nome Aspenaz é de origem incerta. Talvez seja uma forma abreviada ou corrupta de um nome babilônico.3 A. Lacocque o deriva de aspinja, "estalagem" em antigo persa.4 O título chefe dos eunucos traduz o termo Rabsaris, que algumas traduções retêm como o nome próprio em II Reis 18:17 e Jeremias 30: 3, 13. Sendo o guarda do harém real ele desfrutava a plena confiança do monarca, e freqüentemente era promovido a general do exército. Em nosso texto ele é encarregado de selecionar alguns judeus da linhagem real e da nobreza para serem preparados para a administração do império. Nisto Nabucodonosor estava apenas seguindo uma tradição antiga observada nas cortes do Egito e da Assíria. Tutmosis III (1479 - 1425), por exemplo, costumava educar príncipes estrangei­ros em sua corte, tendo em vista enviá-los de volta oportunamente para governar seus países de origem como vassalos fiéis do Egito.5

1:4 “jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento e que fossem competentes para assistirem no palácio do rei e lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus.”

Estes jovens deviam satisfazer normas elevadas de excelência física e competência intelectual para serem admitidos à escola palatina, a fim de ocupar postos administrativos no futuro. Entre as matérias a serem aprendidas estava a língua dos caldeus, língua que tinha muita afinidade com o aramaico e que era falada por uma tribo, os Kashdu, ou Kaldu, que ocuparam a Baixa Mesopotâmia no começo do primeiro milênio antes de nossa era. O Império Neo-Babilônico foi a criação de uma dinastia caldéia. O termo "caldeu" veio também a designar uma classe particular de sacerdotes com privilégios especiais na corte.

1:5 “Determinou-lhes o rei a ração diária, das finas iguarias da mesa real e do vinho que ele bebia, e que assim fossem mantidos por três anos, ao cabo dos quais assistiriam diante do rei.”

A educação de Daniel e de seus companheiros devia durar 3 anos e durante este período tinham direito às finas iguarias da mesa real. A expressão finas iguarias traduz o original pat-bag,  um termo derivado do velho persa e que significava "dádivas honoríficas da mesa real". A presença no livro de termos emprestados ao persa pode ser explicada pela hipótese de que o livro foi escrito no final da carreira de Daniel, quando o persa tornou-se a língua da corte, depois de Ciro ter conquistado Babilônia. Outra possibilidade é que a linguagem do livro foi modernizada durante o período persa, isto é, entre 500 e 330 a.C.

1:6-7 “Entre eles, se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias. O chefe dos eunucos lhes pôs outros nomes, a saber: a Daniel, o de Beltessazar; a Hananias, o de Sadraque; a Misael, o de Mesaque; e a Azarias, o de Abede-Nego.”

Estes versos mencionam os nomes de Daniel e seus três companheiros: Hananias, Misael e Azarias. Estes nomes que são bastante comuns em hebraico significam respectivamente: "DEUS é meu juiz", "Jeová mostrou favor", "aquele que pertence a DEUS", e "Jeová ajuda". Os novos nomes que lhes foram dados podem indicar uma mudança de vassalagem, ou simplesmente a adoção de um nome oficial. Parece que ambos os fatores operaram na mudança dos nomes dos últimos quatro reis de Judá. Assim, Salum assumiu o nome de Jeocaz ao subir ao trono (comparar Jeremias 22:11 com II Reis 23:31). Eliaquim, filho de Josias, teve seu nome mudado para Heoaquim (II Reis 23:34); Conias assumiu o nome oficial de Joaquim (comparar Jeremias 22:24 com II Reis 24:6); e Matanias teve seu nome mudado para Zedequias (II Reis 24:17).

A derivação mais provável para o nome dado a Daniel, Beltessazar, é do babilônio Belet-sar-usur, "que a Madona (Ishtar) proteja o rei". Belet é o feminino de Bel, "Senhor", título dado ao deus Marduk, chefe do panteão babilônico. Essa derivação concorda com a explicação dada para o nome babilônico de Daniel em Daniel 4:8.

A derivação do nome Shadrach é incerta. Uma sugestão é que o nome deriva de 'Saduraku', 'sou respeitoso (de deus)'. Para Mesaque tem sido a proposta a derivação de 'Mesaku', "Sou de pouca estima", e em Abdnego alguns estudiosos vêem uma corrupção do original 'Abed-Nebo', "servo do (deus) Nabu", nome atestado por um papiro aramaico encontrado no Egito.6

1:8-16 “Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se. Ora, Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos. Disse o chefe dos eunucos a Daniel: Tenho medo do meu senhor, o rei, que determinou a vossa comida e a vossa bebida; por que, pois, veria ele o vosso rosto mais abatido do que o dos outros jovens da vossa idade? Assim, poríeis em perigo a minha cabeça para com o rei. Então, disse Daniel ao cozinheiro-chefe, a quem o chefe dos eunucos havia encarregado de cuidar de Daniel, Hananias, Misael e Azarias: Experimenta, peço-te, os teus servos dez dias; e que se nos deem legumes a comer e água a beber. Então, se veja diante de ti a nossa aparência e a dos jovens que comem das finas iguarias do rei; e, segundo vires, age com os teus servos. Ele atendeu e os experimentou dez dias. No fim dos dez dias, a sua aparência era melhor; estavam eles mais robustos do que todos os jovens que comiam das finas iguarias do rei. Com isto, o cozinheiro-chefe tirou deles as finas iguarias e o vinho que deviam beber e lhes dava legumes.”

Esta seção descreve a confrontação entre as convicções judaicas em matéria de comer e beber e estilo de vida amoral dos pagãos. Tanto Daniel como seus companheiros resolveram permanecer fiéis a suas convicções. De modo respeitoso Daniel pediu ao chefe dos eunucos que lhes permitisse não contaminar-se. Participar das iguarias da mesa real podia envolver ou a transgressão de preceitos da lei mosaica relativos a animais imundos, ou a participação em alimentos que tinham sido oferecidos aos ídolos, ou simplesmente pecar contra os princípios de temperança.

Contra a sugestão que esta preocupação com questões alimentares só apareceu no judaísmo muitos anos mais tarde levantam-se os textos de Oséias 9:3, Ezequiel 4:14 e 66:17. Os dois últimos são explícitos na condenação de alimentos imundos e particularmente da carne de porco. J.C. Baldwin prefere ver na recusa de Daniel participar da comida do rei seus desejos de não aceitar "uma obrigação de lealdade ao rei. Parece que Daniel rejeitou este símbolo de dependência do rei porque estar livre para cumprir sua obrigação primária ao DEUS que servia".7 Nada impede que todas as razões acima mencionadas pesaram em sua decisão.

Porque Daniel ficou firme às suas convicções DEUS lhe concedeu favor aos olhos do Rabsaris. Para tranquilizar a preocupação do mordomo quanto a sua saúde, Daniel propôs que se fizesse uma experiência durante dez dias, e que fossem dadas aos quatro somente verduras e água. A experiência demonstrou a sabedoria da decisão de Daniel, e os quatro foram achados com melhor saúde que o resto dos jovens que estavam sendo educados com eles.

Podemos supor que oraram a DEUS para que lhes desse firmeza de propósito acima de tudo. DEUS honrou sua lealdade concedendo-lhes "conhecimento e inteligência em toda cultura e sabedoria" (v.17). Quando o tempo determinado para o exame dos candidatos venceu, Nabucodonosor os achou muito mais bem qualifi­cados em todo respeito do que mesmo as pessoas mais maduras do colégio de sábios ligado à corte.

Nos acontecimentos descritos no primeiro capítulo o tema do livro todo é prefigurado. Este é o tema do conflito entre Babilônia e o povo de DEUS, entre a luz e as trevas, a verdade e o erro, a sabedoria divina e a sabedoria deste mundo. O resultado do exame ao qual Daniel e seus companheiros foram submetidos vindicou o caráter daqueles que preferiram o caminho da lealdade a DEUS em vez da vereda do conformismo e do compromisso. À medida que o conflito entre a religião falsa e a verdadeira assume dimensões mais ameaçadoras maior será o triunfo daqueles que escolheram ficar leais ao lado de DEUS. Passaram por um tempo de prova e perseguição, mas sua vitória será tanto mais esplêndida.

1:21  “Daniel continuou até ao primeiro ano do rei Ciro.”

"Daniel continuou até ao primeiro ano do rei Ciro". Isto significa que sua conexão oficial com a corte de Babilônia estendeu-se até 539 a.C., quando Ciro da Pérsia conquistou Babilônia.






Continuaremos...

Parte 4 - Daniel Capítulo 2
. Revelação e explicação do sonho de Nabucodonosor 


Notas

1. E. R. Thiele, The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings, p.160.

2. Josefo, Contra Apionem, 1.19.

3. S. R. Driver, Cambridge Bible Commentary, Daniel, p. 4.

4. A. Lacocque,  The Book of Daniel, (1979), p.21.

5. S. J. Schwantes, A Short History of the Ancient Near East, p.84.

6. Para uma esplicação diferente ver A. Lacocque, Op. Cit, pp.29, 30.

7. Op. Cit., p.83.




- Conversando sobre o Livro de Daniel
- por Ellen White , Profetas e Reis, Capítulo 35

- por Pr. Isaque Resende
- por pr. Ezequiel Gomes

- por Ruth Alencar com texto base de Luiz Gustavo Assis e vídeos da Tv Novo Tempo

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Uma Introdução ao Livro de Daniel (parte 1) (com comentário de Siegfried J. Schwantes)

Uma Introdução ao Livro de Daniel (parte 2)  (Siegfried J. Schwantes) 

. capítulo 2
. Revelação e explicação do sonho de Nabucodonosor (com Comentário de Siegfried J. Schwantes) 

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