Revelação e Explicação do Sonho de Nabucodonosor - Capítulo 2

“Poucos livros do Antigo Testamento têm exercido através dos séculos uma influência tão considerável como esse de Daniel. [...] Sob a forma de profecia, ele apresenta um quadro abrangente da história do mundo depois de Nabucodonosor até o estabelecimento definitivo do Reino de Deus, e ele mostra, mais que qualquer outro livro canônico, que esta história se processa a partir de um plano divino que antecipa os períodos e os acontecimentos. [...] O livro de Daniel tem exercido uma influência não somente por seu conteúdo, mas também por sua forma. [...] Ele é igualmente o modelo do Apocalipse de João.” (L. Dennefeld, professor na Faculdade de Teologia Católica de Strasbourg, Bible Pirot-Clamer, t. VII, p.638-639)

Antes de prosseguirmos sobre o sonho do rei precisamos refletir um pouco mais sobre a atitude de Daniel.

“Então o rei Nabucodonosor caiu com o rosto em terra, e adorou a Daniel, e ordenou que lhe oferecessem uma oblação e perfumes suaves. [...] Então o rei engrandeceu a Daniel, e lhe deu muitas e grandes dádivas, e o pôs por governador sobre toda a província de Babilônia, como também o fez chefe principal de todos os sábios de Babilônia. A pedido de Daniel, o rei constituiu superintendentes sobre os negócios da província de Babilônia a Sadraque, Mesaque e Abednego; mas Daniel permaneceu na corte do rei."”  (2:46-49)

Siegfried J. Schwantes comentando a atitude de Daniel e do rei Nabucodonosor disse: “Na maneira extravagante de Nabucodonosor mostrar sua admiração por Daniel e seu Deus pode ser desculpada por sua educação pagã. O que é de surpreender é que Daniel não tenha recusado, tanto quanto se possa perceber do texto, esta homenagem quase divina. Talvez a intenção do rei fosse de honrar a Deus na pessoa de Seu fiel servidor.” (O Livro de Daniel, comentários de Siegfried J. Schwantes)

A Bíblia, nestes versículos, não faz referência a nenhuma explicação ou reação de Daniel quanto ao gesto de adoração do rei Nabucodonosor. Porém, em versos anteriores conhecemos os sentimentos de Daniel.  (2:20-23)

E quando na presença do rei testemunhou Daniel seus sentimentos:

“Respondeu Daniel na presença do rei e disse: O mistério que o rei exigiu, nem sábios, nem encantadores, nem magos, nem adivinhadores lhe podem revelar; mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios; ele, pois, fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de suceder nos últimos dias.” (2:27-28)

Daniel permanece humilde embora tenha recebido o dom de penetrar nos segredos de Deus. Longe de se vangloriar de ter sido o único a adivinhar o segredo do rei Daniel afirma que toda a glória deve ser dada a Deus.

Ele não ridiculariza os magos caldeus. Nem se considera mais inteligente do que o comum dos mortais.

Nabucodonosor reconhece a superioridade do Deus de Daniel, contudo, não O adora como o único verdadeiro Deus. O fato é que quando Daniel compareceu na presença do rei para revelar seu sonho, deixou claro que não viera dar interpretação do sonho mediante seu próprio poder, mas atribuiu essa glória a Deus.

“Não é necessário imaginar que o engrandecimento de Daniel tenha envolvido necessariamente o profeta nas superstições da Babilônia. Podemos estar certos que um homem de devoção total a Deus, tal como ele foi, o conservaria livre de tal conspiração.” (Edward J. Young, P.H.D., Professor do Antigo Testamento do Westminster Theological Seminary, Filadelfia, USA., Daniel.)

Como outra prova de sua gratidão o rei promoveu Daniel ao posto de governador da província de Babilônia e o fez chefe supremo de todos os sábios de Babilônia. Daniel não se esqueceu de seus companheiros que estiveram ao seu lado na crise e que com ele pleitearam o favor divino. Também eles foram confiados com responsabilidades oficiais na mesma província.

O que é incrível é que esta lenda da corte, como os críticos a chamam tenha sido incorporada no livro de Daniel sem expurgo, se o livro foi editado no segundo século. A ideia de um ser humano receber homenagem divina de um rei pagão seria extremamente ofensiva aos judeus. Igualmente ofensiva na época dos Macabeus seria a história de os judeus colaborarem com um monarca pagão, especialmente quando este monarca se inclinava a deificação própria como a história do cap.3 o mostra. Nada milita contra uma data do capítulo durante o exílio, particularmente quando se considera que 'profecias dinásticas' estavam sendo compostas no mundo babilônico de então. A necessidade de uma delineação autêntica no futuro forneceu a Daniel a ocasião de compô-la sob inspiração divina.” (O Livro de Daniel, comentários de Siegfried J. Schwantes)

Daniel, na verdade, tomou uma dupla iniciativa, as quais deveriam servir de linha de conduta para todos os cristãos desejosos de interpretar corretamente a Bíblia:

Daniel pediu um tempo (v.16). Os que estudam as profecias correm o perigo de querer compreender tudo imediatamente. Quando na realidade, somente o tempo pode permitir ao homem alcançar a sabedoria e o discernimento necessário;

Daniel pediu aos seus companheiros para orarem com ele a fim de que o Senhor viesse lhes ajudar. Quer seja uma profecia, quer seja outro tema nas Sagradas Escrituras, o cristão em sua leitura deve preocupar-se de ser inspirado por Deus. Afinal, a profecia sendo inspirada por Deus não pode ser compreendida sem a Sua ajuda.

Se a Bíblia coloca em evidência a grandeza da alma de Daniel é para que os leitores de seu livro se inspirem. Se o profeta comportou-se com modéstia, os intérpretes de suas profecias devem cultivar esta mesma virtude. Todos os que desejam compreender e explicar as profecias devem adotar essa linha de conduta: humildade e cortesia.



O Conteúdo do Sonho

O sonho do rei foi de natureza escatológica. 

“O que Nabucodonosor tinha visto no sonho era uma grande imagem ou estátua (aramaico selem), cuja aparência era aterradora. [...] O que avulta no sonho e recebe atenção mais pormenorizada é uma pedra "cortada sem auxílio de mãos", que feriu a estátua e a reduziu a pó tão leve como a palha que é levada pelo vento. Mais surpreendente foi a percepção de que a pedra "se tornou montanha que encheu toda a terra"



A Interpretação do Sonho

A Cabeça de Ouro = Babilônia com Nabucodonosor
(605-538 A.C)

"cabeça de ouro" é interpretada como sendo o próprio Nabucodo­nosor (v.38). [...] O fato de que as partes seguintes da estátua são interpretadas como "reinos" sugere que "a cabeça de ouro" simboliza o primeiro reino, do qual Nabucodonosor foi o representante mais notável. O intercâmbio entre "rei" e "reino" é também praticado no cap. 7 (comparar v.17 com os vv.23 e 24).


Por que a cabeça? Não esqueçamos que com seus numerosos palácios e prestigiosos edifícios: templos, palácios e torres, a antiga cidade de Babilônia tinha alcançado um nível alto de esplendor.


O Peito e os Braços de Prata = os Medo-Persa com Ciro
(539- 331 A.C)

O Império de Babilônia, embora esplêndido como o ouro, teria de ceder lugar oportunamente a outro império caracterizado como inferior ao de Babilônia como a prata é inferior ao ouro. Qualquer um com um conhecimento elementar de história sabe que a Babilônia foi sucedida pela Medo-Pérsia como a maior potência da época. O domínio semítico no Próximo-Oriente terminou quando Ciro da Pérsia conquistou a Babilônia em 539 A.C. Entrementes Ciro já havia conquistado a media, a Armênia e Lídia na Ásia Menor. Seu Filho Cambises II anexaria o Egito em 525, e Dario estenderia seu domínio até a Trácia na Europa.




O Quadril de Bronze = os Gregos com Alexandre o Grande
(331- 146 A.C)


O Império Persa foi conquistado por Alexandre o Grande numa campanha relâmpago. Embora Alexandre mesmo tivesse uma carreira muito breve (356-323), seus sucessores, todos eles generais de origem macedônica, puderam reinar sobre um mundo helenizado durante dois séculos. O terceiro reino é caracterizado como um reino de bronze (v.39). Esta descrição quadra bem com os fatos, pois soldados gregos eram conhecidos por sua armadura de bronze. Heródoto conta que "Psamético I do Egito viu os piratas gregos que invadiam o Egito o cumprimento do Oráculo que predisse "homens de bronze vindos do mar"1 O domínio greco-macedônico estendeu-se sobre toda a terra, pois o território controlado por Alexandre e seus sucessores incluía a Macedônia, a Grécia, e todos os territórios do antigo Império Persa. Este era praticamente o mundo conhecido de então para quem vivesse na Babilônia.



As Pernas de Ferro = os Romanos
(146 A.C – 476 D.C)

A parte de ferro da estátua é interpretada como um quarto reino e é o objeto de uma interpretação mais pormenorizada. Desde Hipólito e Jerônimo até a crítica moderna, estudiosos cristãos eram unânimes em interpretar o quarto império como o Império Romano.

A maioria dos comentadores admite que há um paralelo entre as visões dos cap. 2, 7 e 8. Na visão do cap. 8 o bode é claramente identificatório como o rei ou reino da Grécia (v.21). O rei da Grécia é identificado como o bode peludo, e o chifre grande entre os olhos como o primeiro rei. Os quatro reinos nos quais o reino de Alexandre se dividiu são simbolizados pelos 4 chifres que surgiram no lugar do primeiro. Segue-se que o ferro da estátua não pode representar a Grécia nem os reinos dos sucessores de Alexandre. Só pode significar o Império Romano.

Eduardo Gibbon em sua “História do Declínio e Queda do Império Romano” apropriadamente descreve Roma como "A Monarquia de Ferro". Foi o império com maior tenacidade e com a maior coerência interna. Não admira que Roma tenha exercido uma soberania indisputada sobre o mundo Mediterrâneo durante mais de meio milênio. Sua grande durabilidade explica-se tanto por suas leis como por seu poder militar.



Pés de Ferro e Barro = Império Romano Restaurado
=> Tempos atuais

As pernas da estátua simbolizam Roma na plenitude da sua força.  Embora forte como o ferro, Roma também sofreria decadência e ruína. A última fase de sua existência é representada por pés e dedos em parte de barro e em parte de ferro (v.41). Sob o impacto das invasões bárbaras o Império Romano finalmente fragmentou-se nas nações que eventualmente formariam a Europa moderna, nações estas em parte fortes e em parte frágeis (v.42). A condição dividida da Europa, a despeito dos esforços para uni-la seja pela guerra, seja por casamentos políticos, continuaria até o dia quando "o DEUS do céu suscitará um Reino que não será jamais destruído" (v.44).

Os reinos deste mundo desfrutaram por um tempo o fastio de seu poder e glória para cair no olvido de algumas décadas ou século. Mas o reino de DEUS subsistirá para sempre. A grande lição que este sonho devia comunicar é que autoridade suprema pertence a DEUS. Somente ele tem o futuro na mão. Impérios terrestres erigidos sobre sacrifícios involuntários de milhares de seres humanos levam em si o germe de sua própria decadência e morte. Somente o reino de DEUS fundado sobre o amor e o sacrifício próprio durará para sempre.

O valor decrescente dos metais da estátua não pode significar que cada império fosse inferior ao precedente em extensão territorial ou poder, pois os fatos da história desmentem essa ideia. O Império Medo-Persa abraçou um território muito mais extenso que o de Babilônia. De igual modo o Império Romano excedeu de muito todos os outros em extensão territorial e duração. É mais provável que o valor decrescente dos metais tenha que ver com a perspectiva do profeta: os reinos que lhe eram mais próximos no tempo lhe pareciam mais importantes do que aqueles mais distantes no horizonte da história. O adjetivo 'inferior' no aramaico sugere uma interpretação puramente geométrica: inferior significaria simplesmente um posição mais baixa em relação a terra.

Nada é dito na interpretação do sonho sobre haver dez dedos no pé da estátua, mas isso pode ser subentendido. Alguns comentadores têm visto, e nós cremos com razão, uma relação entre os (dez) dedos da estátua e os dez chifres da quarta besta em Daniel 7:7. Tanto os dedos como os chifres simbolizariam as nações da Europa em que o Império Romano se desintegrou. Deve-se admitir, porém, que o número dez pode significar simplesmente muitos nesta linguagem simbólica. De outro lado Daniel não menciona a divisão do corpo da estátua em duas pernas, e não há razão para se atribuir significado simbólico ao fato. Alguns pormenores são descritos apenas para completar o quadro.

Há comentadores que sugerem que o autor do livro emprestou a ideia das 4 épocas simbolizadas pelos quatro metais do poeta grego Hesíodo, ou de fontes iranianas. O fato, porém, é que Hesíodo escreveu de 5 épocas e não de 4: ouro, prata, bronze, a época dos heróis e ferro. Além disso, sua visão era voltada para o passado, e não para o futuro, como era o caso com Daniel. Hesíodo imaginava estar vivendo na época do ferro. De outro lado, uma vez que as cópias mais antigas do Dinkart, onde as ideias de Zoroastro quanto às 4 épocas se encontram, datam do nono século de nossa era, não há base para a hipótese de que Daniel se tenha louvado nesta fonte. Ao contrário alguns estudiosos estão começando a sugerir que os livros iranianos exibem dependência do Velho Testamento e não vice-versa.2” (O Livro de Daniel, comentários de Siegfried J. Schwantes)

A História “embora ocorra em uma linha e não em um ciclo repetitivo”, como afirma Jo Ann Davidson3, traz uma característica que lhe é bem peculiar se a observamos do ponto de vista da natureza humana. A história, do ponto de vista da natureza humana, é cíclica, se repete. Por que? Porque a natureza humana está corrompida pelo pecado e os erros humanos se repetem como eco do pecado original. Assim como o inimigo de Deus desafiou o Eterno com palavras de usurpação do Seu trono, homens, lideres humanos, têm acreditado poder desafiar a soberania de Deus.

Sabemos o que tentaram fazer os homens com seus impérios: os Assírios, Nabucodonosor, os Medo-Persas, Alexandre o Grande, os Romanos e em tempos mais recentes, Hitler, Napoleão, Estados Unidos da América e Estados Unidos Europeus. Tão frágeis, mas tão soberbos em suas arrogâncias! Alguns destes já existiram e hoje fazem apenas parte de um passado. Outros existem, mas passarão porque a profecia revelada por Daniel e que se cumpriu até então anuncia que no tempo dos “Pés de Ferro e Barro”, que são os tempos atuais, “o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; nem passará a soberania deste reino a outro povo; mas esmiuçará e consumirá todos esses reinos, e subsistirá para sempre.” (Daniel 2:44)

Diante do fracasso das nações de fazerem reinar na Terra a paz e a harmonia, Deus Se apressa em agir de maneira decisiva. Sua intervenção é ilustrada pela pedra que pulveriza a estátua. Isto é, Deus vai destruir todas as potências deste mundo para dar lugar a um reino eterno no qual Ele será o soberano. 

E sobre este reino eterno falaremos em nosso próximo texto. 





Notas

1. Heródoto ii.152, cit.no SDABC, vol 4, p. 774.

2. Ver J. C. Baldwin, Daniel, p. 98 e particularmente a nota 3.

3. Vislumbres do nosso Deus, Lição da Escola Sabatina, lição 9, Jan- mar, 2012


Ruth Alencar




- Conversando sobre o Livro de Daniel
- por Ellen White , Profetas e Reis, Capítulo 35

- por Pr. Isaque Resende
- por pr. Ezequiel Gomes

- por Ruth Alencar com texto base de Luiz Gustavo Assis e vídeos da Tv Novo Tempo

- por Ruth Alencar com comentários de Flávio Josefo e Edward J. Young

 - por Ruth Alencar
- por Ruth Alencar com comentários de Flávio Josefo
- por Ruth Alencar
- por Ruth Alencar com comentário de Siegfried J. Schwantes

Uma Introdução ao Livro de Daniel (parte 1) (com comentário de Siegfried J. Schwantes)

Uma Introdução ao Livro de Daniel (parte 2)  (Siegfried J. Schwantes) 


. capítulo 1

Outros estudos sobre o capítulo 2
. O Reino da Pedra

- por Ruth Alencar com comentário de Siegfried J. Schwantes
- comentários de C. Mervyn Maxwell e Ellen White 

. capítulo 4
- comentário de Siegfried J. Schwantes
- por Ruth Alencar com comentários de C. Mervyn Maxwel, Urias Smith e Dr. Cesar Vasconcellos de Souza

. capítulo 5
- por Ruth Alencar com comentários de Siegfried J. Schwantes e C. Mervyn Maxwel

. capítulo 6
- comentários de Siegfried J. Schwantes e C. Mervyn Maxwel

. capítulo 7
- comentários de Siegfried J. Schwantes e C. Mervyn Maxwel.
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- por Ruth Alencar com comentários de Siegfried J. Schwantes 
- com comentários de Siegfried J. Schwantes e  José Carlos Ramos 
- por Ruth Alencar
- com comentários de Siegfried J. Schwantes e  José Carlos Ramos 
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 Continuando nossos estudos sobre Daniel 7  
 - por Ruth Alencar

. capítulo 8
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. capítulo 9
- com comentários de Siegfried J. Schwantes
- por Matheus Cardoso

. capítulo 10
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- Comentário de Siegfried J. Schwantes

. capítulo 11
- Comentário de Siegfried J. Schwantes
. capítulo 12
Daniel 12 : O Tempo do Fim – Parte 1- Por Siegfried J. Schwantes


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