As Diferenças e Semelhanças nas experiências emocionais e espirituais de Paulo e Ana



Conta-se que “uma velha senhora chinesa tinha dois grandes vasos, cada um suspenso na extremidade de uma vara que ela carregava nas costas. Um dos vasos era rachado e o outro era perfeito. O vaso perfeito estava sempre cheio de água no fim da longa caminhada da fonte até a casa, enquanto que o rachado chegava meio vazio. Por muito tempo a senhora chegou em casa com somente um vaso e meio de água.


Naturalmente o vaso perfeito era muito orgulhoso do próprio resultado e o pobre vaso rachado tinha vergonha do seu defeito, de conseguir fazer só a metade daquilo que deveria fazer. Depois de dois anos, refletindo sobre a própria amarga derrota de ser ‘rachado’, o vaso falou com a senhora: ‘Tenho vergonha de mim mesmo por causa desta rachadura que me faz perder metade da água durante o caminho até a sua casa’.


A velhinha sorriu e respondeu: ‘Você reparou as flores do caminho que percorremos? As mais lindas estão do seu lado do caminho! Eu sempre soube do seu defeito e, portanto, plantei sementes de flores na beira da estrada, exatamente do seu lado. E todos os dias, enquanto a gente volta você as rega. Por dois anos pude recolher belíssimas flores para enfeitar minha mesa. Se você não fosse como é, eu não teria aquelas maravilhas na minha casa’.”


Lembrei-me das palavras de Ellen White: “Os seguidores de Cristo foram redimidos para serem úteis ao próximo. Nosso Senhor ensina que o verdadeiro objetivo da vida é servir. Cristo mesmo foi obreiro, e dá a todos os seus seguidores a lei do serviço – o serviço a Deus e ao próximo. [...] Vivendo para servir aos outros o homem é levado à comunhão com Cristo. A lei de servir torna-se o vínculo que nos liga a Deus e a nosso semelhante.” (Parábolas de Jesus, p. 326)


Simples assim! Quanto sofrimento importamos a nós mesmos por não compreendermos esse princípio maravilhoso! Ou, simplesmente porque não o aplicamos em nossas vidas, apesar de conhecê-lo.


Está escrito em 2 Corintios 12:1-10: “Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo não sei, se fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado até o terceiro céu. Sim, conheço o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei: Deus o sabe), que foi arrebatado ao paraíso, e ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir. Desse tal me gloriarei, mas de mim mesmo não me gloriarei, senão nas minhas fraquezas. Pois, se quiser gloriar-me, não serei insensato, porque direi a verdade;


E, para que me não exaltasse demais pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de que eu não me exalte demais; acerca do qual três vezes roguei ao Senhor que o afastasse de mim; e ele me disse: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Por isso, de boa vontade antes me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que repouse sobre mim o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então é que sou forte.”


O argumento de Paulo se fundamenta em sua vida e obra. Paulo narra uma experiência além do que nos é comum. Segundo a cosmologia judaica o paraíso é a palavra usada equivalente ao terceiro céu. Isto é, o lugar onde Deus habita. O ‘primeiro céu’ é a atmosfera onde voam as aves. O ‘segundo’ é a região do sol, da lua e das estrelas. Paraíso, então, é a mansão dos bem-aventurados.


Paulo considera sua experiência algo inviolável: foi arrebatado ao paraíso, e ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir.” O que Paulo quer que compreendamos é que as coisas profundas do Espírito não podem ser explicadas em linguagem humana.


Ele tem consciência de quem é e afirma ser indigno de tão grande experiência e que não desejaria ser considerado maior e melhor do que outro ser humano. Paulo desejava que o olhar de seus ouvintes não fosse projetado para ele mesmo, mas para a essência da mensagem que anunciava. Ele regozijava-se de que em si mesmo não era nada e queixava-se continuamente de uma enfermidade física. Enfermidade essa que não o impossibilitava para sua missão, mas que o atormentava. Por três vezes orou ao Senhor que o livrasse de tão grande perturbação, porém a única resposta que recebeu foi: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Qual é, então, o significado dessa resposta de Deus?


Compreendo que Deus prometeu-lhe que esse sofrimento não seria capaz de derrotá-lo, no sentido de impedi-lo em sua missão de trabalhar para Ele. Há aqui uma advertência para nós no sentido de que algumas vezes Deus pode ter uma razão quando nos recusa uma cura física, ou não responde segundo a nossa vontade. Compreendo que para Deus a condição espiritual é mais importante do que a física. O discernimento espiritual de Paulo era maduro, por isso pôde dizer “pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então é que sou forte”.


Por sua experiência espiritual com Deus Paulo pôde expressar: “Pois o que faço, não o entendo; porque o que quero, isso não pratico; mas o que aborreço, isso faço. [...]Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. [...] Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! [...] Graças a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor!” (Romanos 7: 14-25)


A tribulação desempenha um papel importante na perfeição do caráter do cristão. Os sofrimentos e as tribulações não têm poder por si mesmos para fazer que os homens sejam semelhantes a Cristo. Por outro lado, a graça divina tem um sentido que vai além do ‘auxílio’, do ‘favor’, do ‘prêmio não merecido’ até o conceito de ‘caráter íntimo’. Cristo ajuda-nos em nossa vida; favorece-nos grandemente ao transformar para nós o mal em bem; e habita em nós de modo que espelhemos Seu caráter diante do mundo. Somos como o vaso quebrado que, apesar das rachaduras, nas mãos do oleiro cumpre a missão.


Neste instante penso nas mulheres hebreias estéreis. Penso em Sara Gênesis 11:30. Penso em Rebeca Gênesis 25:21. Penso em Lia e em Raquel (Gênesis 29:31). Penso em Ana." (1 Samuel 1:2).  De acordo com a Palavra de Deus as mulheres de Israel não deveriam ser estéreis:


“Na tua terra não haverá mulher que aborte, nem estéril; o número dos teus dias completarei. (Êxodo 23:26)


“Bendito serás mais do que todos os povos; não haverá estéril no meio de ti, seja homem, seja mulher, nem entre os teus animais."  (Deuteronômio 7:14)
Interessante que é a própria Bíblia que nos traz o relato da existência de mulheres estéreis em Israel. Contradição? Não! É algo terrível, imensuravelmente difícil para uma mulher que deseja ser mãe não conseguir! E se acrescentarmos a isso os valores culturais de uma sociedade em que a impossibilidade de gerar filhos significava maldição, nos conduz a compreensão da essência da atitude e palavras de Sara registradas em Gênesis 16:1 - 2. Simplesmente não consigo condená-la...


“Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos; tendo, porém, uma serva egípcia, por nome Agar, disse Sarai a Abrão: Eis que o SENHOR me tem impedido de dar à luz filhos; toma, pois, a minha serva, e assim me edificarei com filhos por meio dela. E Abrão anuiu ao conselho de Sarai.”


Que atitude desesperadora! Reconhecer-se impotente ao mesmo tempo que ceder o afeto de quem lhe era mais importante, seu marido! Afinal, que mulher encorajaria o marido a ter relações com outra mulher com o intuito de com ela ter filhos?


E Raquel? Gênesis 30:1 diz: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve ciúmes de sua irmã e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morrerei”.


A grande verdade é que a condição de esterilidade não representava nenhum problema para Aquele que é o Senhor da vida. A prova é que por Sua intervenção essas mulheres estéreis deram à luz personagens importantes como Sansão, Samuel, e Jacó. Afinal, NEle está toda a potencialidade da vida. O que compreendo com as histórias dessas mulheres é que o fato de estarem sob o contexto da necessidade lhes ensinou sobre a dependência de Deus em suas vidas. O resultado desse quadro é a realidade de que mulheres estéreis sob os cuidados do Eterno são um sinal de um futuro com produtividade, um futuro com frutos, um futuro que será melhor após o sofrimento no presente.
A Palavra então não se contradiz, mas afirma que o que Deus determina sempre se cumpre e de fato essas mulheres de Israel tiveram suas vidas transformadas pelo poder da palavra de Deus.


Peguemos como exemplo a história de Ana. “Ana era esposa de Elcana, um sitiante da tribo de Levi que vivia nas montanhas de Efraim. Uma mulher estéril, portanto até aquele momento não tinha filhos e dividia com outra mulher o carinho e a atenção do marido. Cercada por estas circunstâncias, ela vivia triste, era provocada com frequência pela rival, sentia-se preterida, não se sentia segura quanto ao futuro. Elcana a amava, mas ela era muito infeliz porque não tinha nenhum filho.


Os sentimentos de Ana não devem ser tão difíceis de entender, especialmente em uma cultura em que não ter filho homem significava não ter nenhuma segurança na velhice. Não ter nenhum filho era entendido como maldição divina. Tanto na esfera pública como na familiar, uma mulher sem filhos tinha que viver com o estigma de ser supostamente amaldiçoada por Deus.


Obviamente, esse fato afetava seu valor aos olhos da sociedade, sua própria autoestima e seu relacionamento com Deus. No tempo de Ana, o papel de uma mulher na sociedade estava principalmente associado ao parto e à criação dos filhos. Não havia outra possibilidade de fazer carreira. Uma mulher não podia mudar de carreira e encontrar realização em outra ocupação. Temos exemplos de mulheres juízas e líderes no Antigo Testamento, mas esses exemplos são muito limitados e dependentes do chamado direto de Deus. Era só pelos filhos que Ana podia reconhecer o valor de sua vida e deixar um legado. Para ela, sem filhos, a vida não tinha nenhum significado real. Ana deve ter pensado frequentemente o que havia feito para merecer isso.


Frequentemente, os que são mais próximos de nós são os que sabem o que mais nos fere. Com as constantes provocações de Penina, não é de surpreender que a vida de Ana se tornasse difícil. O texto bíblico enfatiza que as provocações se repetiam ano após ano, a mesma história de sempre. [...] Essa não era só uma observação rápida, furtiva. Parece ter sido uma estratégia premeditada e consciente de Penina para provocar Ana a fazer algo impensado. Afinal, Ana era sua única rival nos afetos de Elcana.”¹


O que machuca mais numa situação assim não são as palavras em si, mas de quem as diz. A história de Jó nos ensina que “a perda das posses materiais ou de pessoas próximas a nós provoca profundas dores. Enfermidades ou circunstâncias de nossa vida podem parecer assustadoras e nos levar ao desespero. Às vezes, viver com profundos desejos não realizados remove de nossa vida todo senso de esperança. As coisas vão de mal a pior quando temos que enfrentar não só profundas dores ou circunstâncias ruins, mas também pessoas que parecem especialistas em tornar insuportável a vida. Essa combinação de sonhos não realizados e constantes tensões precipitou o clamor de Ana diante do Senhor. Às vezes, precisamos apresentar persistentemente nossas dores e frustrações diante de Deus. Quando chegamos ao fundo do poço, precisamos procurar respostas fora de nós.


Uma das grandes dificuldades que muitas pessoas enfrentam é o senso de valor próprio. Qual é nosso valor neste mundo? Qual é o significado de uma vida entre tantos bilhões? Evidentemente, a Bíblia ensina que isso é verdade, que somos seres criados à imagem de Deus. Temos valor porque somos importantes para Deus. Quem se importa com o que os outros pensam de você, se Deus, que segura o mundo inteiro em Suas mãos, lhe tem amor? Acima de tudo, é Seu amor o que importa.”1


Elcana era da tribo de Levi. Dessa tribo saia a linhagem dos sacerdotes. Porém, a situação espiritual da nação de Israel estava muito crítica. O sacerdócio estava em decadência em Israel e não havia organização, por isso Alcana foi morar na região montanhosa de Efraim, tornando-se um sitiante bem sucedido. Abandonou completamente sua função na linhagem sacerdotal, embora permanecesse fiel a Deus.


“[...] a nação israelita não estava organizada politicamente. Era uma situação tribal, sem uma sólida conexão governamental. Pela irregularidade da vida religiosa deles, Deus os entregou à sua própria sorte. Sem a proteção direta de Deus, foram invadidos e escravizados por diversas vezes e por vários povos; [...] Em resumo, a Bíblia diz que, nessa situação caótica, “cada um fazia o que achava melhor aos seus olhos” (Juízes 21:25).”1


A vida espiritual de Israel estava um caos e isto se refletia nos lares. Elcana tomou para si uma segunda esposa, por ser Ana estéril. Isso estava de acordo com o padrão cultural de seus dias, mas contrariava o princípio divino. Gênesis 2:24 diz: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” Esta sempre foi a posição de Deus. Ele não deu duas ‘Evas’ a Adão. Assim, como aconteceu com Abraão, Jacó e outros, a quebra desse princípio divino foi a raiz da discórdia no lar de Alcana e Ana. Você pode ler sobre essa história em 1Samuel 1.


Ana, porém, decidiu agir pela fé e a despeito de sua dor e a complexidade do seu problema derramou sua alma perante Deus, buscou ao Senhor e Ele lhe ouviu. “Ali no templo, ela derramara seu coração diante do Senhor. [...] Para nos posicionarmos ao lado do Senhor, é necessário reconhecer que nossos recursos não são suficientes. Ana compreendeu que a determinação de ter um filho não estava em seu poder. Quando ela foi ao santuário, não tinha mais opções. O pensamento de não conseguir o que desejava era intolerável. Nada em suas circunstâncias havia mudado. Eli, o sacerdote, a havia abençoado, e isso sem dúvida foi importante. Mas mesmo ele não podia fazer mais que desejar o bem a ela. Não sabemos se ela estava certa de que Deus concederia seu desejo do jeito que ela queria. Mas lemos que “seu semblante já não era triste”. O que havia mudado era que ela havia se colocado ao lado de Deus.” Aprendera a ver a vida de uma perspectiva totalmente nova.


O verbo derramar [...] tem conotações de abundância e plenitude. Em algumas passagens do Antigo Testamento, o verbo é usado com relação à oração. Essa oração derramada é talvez o tipo mais íntimo de oração. Envolve ser absolutamente honesto para com Deus, expressando nossa dor e nossos temores mais profundos. Ana estava tão absorvida em sua oração que ficou inconsciente das pessoas ao seu redor e do que poderiam pensar dela.”


Eu amo o Salmo 42: 4 - 5. Quando me vem sentimentos de tristeza e angústia gosto de dizer para mim mesma: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.”


“Embora nem sempre Deus responda imediatamente às nossas orações, quando derramamos o coração diante dEle, podemos estar seguros de que Ele nos ouve e responde a Seu próprio tempo e à Sua maneira. Isso pode nos dar esperança e confiança enquanto esperamos para ver a guia de Deus em nosso futuro.


Na história de Ana temos um vislumbre de um Deus que nos ama individualmente e que nos diz que somos alguém, embora seja fácil aceitar a mensagem do mundo de que não somos ninguém.”¹


Também compreendo na resposta de Deus às orações dessas mulheres hebreias que “Deus é o Criador da vida e, como Criador, Ele tem direito de fazer o que quiser com Sua criação. Em outras palavras, nada neste planeta está além de Seu controle. Isso significa que, na visão bíblica de mundo, até as coisas negativas estão sujeitas ao controle de Deus.1 Deus é completamente capaz de controlar as circunstâncias da história, bem como a própria experiência pessoal. A paz só existe onde existe a esperança e a certeza. Precisamos compreender que a verdadeira segurança não depende das circunstâncias, mas de conhecer a Deus, que não muda. É Ele que nos diz que cada um de nós é especial. É Ele que nos dá valor.


Deus permite com frequência que os seus passem por intensos apuros para que possam compreender sua própria insuficiência e sejam induzidos a confiar e a esperar na suficiência divina. Quais as diferenças e semelhanças nas histórias de Paulo e Ana?


Paulo não foi curado de sua enfermidade que tanto lhe angustiava, embora tenha orado sinceramente a Deus. Ana por sua vez foi curada em resposta às suas orações. Quais as semelhanças da história de Paulo e de Ana?


Paulo foi até às últimas consequências em sua decisão, independente da resposta de Deus. Morreu como mártir, pregando sobre o Evangelho da graça e misericórdia divina. Entregou o que de mais precioso tinha: a própria vida. Ana também foi até às últimas consequências. Deu em retorno, por gratidão e fidelidade a Deus, o objeto maior do desejo de toda a sua vida: seu filhinho amado. Samuel foi um grande profeta a serviço de Deus. E Deus a abençoou com muitos outros filhos.


Ambos foram sustentados por Deus. Ambos foram vitoriosos. Respostas diferentes de cada um para Deus e de Deus para cada um. Ele é um Deus pessoal e Suas intervenções em nossas vidas visam sempre o nosso crescimento. Precisamos compreender isso se quisermos conhecer a paz mesmo quando em tribulação.





Referência:


Ruth Alencar

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