“Ele não pesa, ele é meu irmão"


Hoje fui acompanhar meu esposo ao aeroporto, ele viajou para proferir uma palestra... gosto de estar com ele até o último momento. O voo atrasou 2 horas, então decidimos jantar no aeroporto. Não fique muito chateado quando coisas chatas acontecem. Elas podem se transformar em bençãos.

Como foi bom aquele atraso! Jantamos e ficamos conversando... E que conversa gostosa! Amei quando ele disse: “Eu penso às vezes no tamanho de Deus... Ele deve ser muito grande. Grande mesmo! Penso que Ele é muito diferente do que tem revelado as religiões, todas as religiões! Acho que nem mesmo a Bíblia conseguiu revelar Deus como Ele É.”

Conversamos sobre a vida, o cansaço da longa jornada de trabalhos, sobre suas aulas e relacionamento com seus alunos. Falamos sobre a vaidade do conhecimento... Ele me contava de seus debates com seus alunos que se identificavam como agnósticos. E como às vezes ficavam sem respostas quando ele expunha situações pontuais do conteúdo em que estavam estudando. “Eu sempre afirmo para eles que o conhecimento científico não me deixa dúvidas... Ele existe sim e é o mentor de tudo o que gera a vida no universo!”

Eu fiquei ali ouvindo, encantada com meu esposo. Nos despedimos e fui pensativa para casa. Pensar em Deus é algo que deve ir além de conceitos religiosos. Deus não é um ser religioso. Deus é um Ser espiritual e tem que ser entendido como tal.

Numa situação de perigo uma mãe ou um pai, ou mesmo um irmão muitas vezes deixa de pensar em si e se expõe ao perigo porque simplesmente ama. E isto não é impulso ou instinto! Isto é essência. No dia em que, nós como cristãos, compreendermos que ser filho de Deus implica necessariamente em compartilhar de Sua essência, o mundo conhecerá Deus de verdade.

Tenho visto muitos textos atacando, criticando o ateísmo. Mas, eu me pergunto qual a minha responsabilidade diante de tal quadro? Tenho eu sido, pelo menos, o que acredito ser como verdade? Que Deus me ajude a vencer a minha hipocrisia!

Tenho visto também muitas críticas entre os irmãos em suas comunidades religiosas. Falamos muito, agimos pouco. Muitos são tão exigentes quanto a comportamentos, mas há tanta negligência no olhar...

Não se trata de apenas saber que não devemos falar mal uns dos outros, julgando-nos superior em bondade e integridade moral. Corajosos porque ele não está nos escutando. Mas, e se ele estiver lendo o que você escreve ou escutando o que você diz você teria coragem de dizer? E mais complexo ainda, como fazê-lo se Alguém que ama muito o outro também, tanto quanto ama você, será que Ele ficaria feliz ao ouvir e ler o que você está dizendo? Se não conseguimos nos sensibilizar com o mal em si de falar mal dos outros, que pelo menos nos sensibilizemos com o fato de que Ele tudo ouve e tudo vê. Como cristãos temos que decidir! Nossos ouvidos, nossos lábios e nossos olhos precisam aprender a estar a serviço do amor. Quando isto acontecer não será mais o meu eu, mas Ele a minha essência.

Não adianta recitar, escrever, falar versos bíblicos se meu coração está cheio da vaidade do eu! Não adianta! Isto é hipocrisia! Ao testemunharmos o nosso eu hipócrita as palavras bíblicas soarão como espinhos. Ferirão, apenas isto!

Mas, quando Ele está em nós a palavra bíblica é cortante, dilacera, extirpa o mal... cura!

“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” (Hebreus 4:12)

É algo muito solene tornar-se alguém uma testemunha negativa da verdade das promessas de Deus ao deixar-se ‘cair’ ou ‘ficar para trás’. É muito melhor ser uma testemunha positiva e entrar no descanso. Aqueles que têm ouvido a voz de Deus inexoravelmente se tornam uma coisa ou outra.

“Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações.” (Hebreus 4:7)

Amo isto que A. M. Stibbs escreveu: “É conveniente considerar o caráter da Palavra com o qual somos confrontados, a palavra das Escrituras e do Evangelho, caso tenhamos de apreciar plenamente a responsabilidade sob a qual somos postos ao ouvi-la. Pois, esta Palavra é a Palavra de Deus. Ela participa dos atributos do próprio Deus. Ela é viva e plena de atividade e poder de realização. Nela o próprio Deus acha-Se ativo, pelo que ela jamais deixa de produzir resultado: traz salvação ou julgamento. Ela penetra até o mais íntimo do ser do homem, como se fosse um bisturi dissecador, e força uma aberta e radical divisão e distinção entre as coisas que diferem na vida humana. Põe sob juízo os pensamentos e as ideias da mente e da vontade humana. Ela é o crítico pelo qual somos julgados. Confrontado por ela o homem é confrontado por Deus, perante Quem nada pode ser ocultado. De fato, a Palavra de Deus nos deixa cônscios de que todas as coisas estão descobertas e patentes, plenamente expostas ao olhar perscrutador de Deus. E é justamente a Ele, o Deus onde se origina essa Palavra, que todos quanto ouvem-na terão de finalmente dar uma resposta com sua própria palavra ou ‘prestação de contas’. [...] Na prestação de contas final, todos deverão olhar para Deus e ser olhados por Ele, face a face.”1

“E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas.” (Hebreus 4:13)

Pensei agora no fato de que ofendemos a Deus quando negligenciamos o conceito da Onipresença e Onisciência de Deus diante do comportamento de sermos falsos com o nosso próximo.  Devemos realmente pensar nisto! Se o simples pensamento de que o nosso próximo de quem falamos mal pode estar detrás da porta a nos escutar nos inibe de o fazer, o que seria então compreendermos que o Eterno tudo vê, tudo escuta, tudo sabe!

Diz um provérbio chinês que “palavras não cozinham arroz”. Puxa! Quanta verdade há neste simples ditado. Mas, as palavras têm o seu poder e foram elas faladas sobre a forma dessa canção que me fizeram pensar em escrever este texto. Conta-se que em uma certa noite em Whashington caiu uma forte nevasca.

Batidas foram escutadas na porta da sede da “Missão dos Órfãos”. O padre plantonista ao abri-la deparou-se com um menino coberto de neve, com poucas roupas, trazendo em suas costas um outro menino mais jovem. O sacerdote admirando-se da coragem e esforço do pequeno disse: “Ele deve ser muito pesado!” – “Não - disse o garotinho. - Ele não pesa, ele é meu irmão.” (He ain’t heavy, He is my brother).

Eles não eram irmãos de sangue. Eram irmãos de rua. O autor dessa música soube do caso e se inspirou em compô-la. E da frase fez o refrão. Escute essa música acompanhando suas palavras na letra abaixo2:





Sabem, pessoas seculares podem dizer “que Jesus deveria ter apanhado mais!”. Mas, contemplando a mim mesma não existe outra palavra que não seja: Senhor, obrigada por teres apanhado assim. Obrigada por teres sido forte. Obrigada por teres aceitado a minha cruz, por tê-la carregado por mim. Obrigada por teres sido meu irmão. Por amar-me como me amas. Ensina-me, eu Te peço, a fazer dessas palavras a canção da minha vida!








Referências:

1- A. M. STIBBS, M.A., Vice-Reitor do Oak Hill Theological College, Londres. I e II Timóteo, Tito, Hebreus.



Ruth Alencar

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