Justificação pela Fé


Como compreendo Romanos 5 (parte 2)


Veja a parte 1 aqui.

O homem relativiza tudo. Matar em determinada sociedade é fazer justiça e em outra é assassinar! Mas, não devemos julgar Deus e seus assuntos pelos padrões de nossa ética. Claro que a ética de Deus não é relativa. Ela simplesmente É, assim somo Ele É, e é nisto que temos que nos fundamentar: no que Deus pensa e não no que os homens pensam. 

É por relativizar demais que o homem acabou se perdendo em seus princípios. Deus não julga esse mundo baseado na moral secular... Numa ética relativa. Deus julga por Sua própria ética, exatamente porque é nEle que se encerra toda a justiça e verdade.

É por não entenderem a ética de Deus que muitos não compreendem o sistema de sacrifícios de animais apresentados no Antigo Testamento.

A comunicação entre Deus e Sua criatura humana, antes do pecado, dava-se de forma direta (Gênesis 3:8). O pecado trouxe essa ruptura. Por quê?

Porque o pecado não é só a desobediência, é a condição interna. Pecado é um estado, uma natureza. Uma vez que duvidaram da palavra de Deus, Adão e Eva numa postura racional e espiritual disseram que Ele não era o Soberano, o Senhor em suas vidas. Disseram que queriam independência dEle. Reproduziram o discurso de Lúcifer que questionara o amor e a justiça de Deus.

Essa escolha gerou no ser humano a natureza pecaminosa e natureza pecaminosa é aquela que se caracteriza pela injustiça. O pecado nos deixa fétidos e injustos ante a santidade de Deus. Pois, por sua natureza pecaminosa o ser humano é propenso a só fazer o que é mal.

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?” (Jeremias 17:9)

Qual a melhor maneira de compreender o que significa a grandeza do pecado, senão confrontar-se com suas consequências! Era isto que era ensinado no deserto para o povo hebreu no sistema de sacrifícios realizado no Tabernáculo: o pecado gera morte.



A primeira cerimônia ocorria no pátio do Tabernáculo. Em reconhecimento e confissão por sua transgressão o pecador tinha que apresentar ao sacerdote um cordeirinho (inocente!) de um ano. O próprio pecador trazia o animalzinho e ele mesmo tinha que imolá-lo. Seria uma vida que estava sendo extinta por causa dos seus erros. 

Isto era justo? Milhões de vezes não!

A ruptura com Deus rompe a ligação com a vida, pois é dEle que procede o dom da existência. Por isso, com o pecado veio a morte. Tornamo-nos escravos dessa condição. Se ainda, apesar do estado de pecado, há vida na Terra é porque Deus por graça e misericórdia provê a sua sobrevivência. A nossa sobrevivência. Vivemos, pois, por Sua graça e bondade. Estamos sob o perdão temporal de Deus. Porque Ele é amor.

Mas, o amor não invalida a justiça. O perdão e a graça de Deus não desculpam o pecado. Então, como Ele também é justiça, Deus decidiu interceder pela humanidade e provê o que lhe é necessário para a sua libertação da condição de escravo da morte.

Essa é a nossa condição: somos pecadores, ainda que perdoados e justificados pela morte de Jesus. Nosso momento atual é de santificação. Estamos sendo salvos em preparação para a eternidade com Deus. Jesus será para sempre o nosso intercessor. Único e suficiente. É cruel, injusta e antibíblica qualquer doutrina religiosa que diz o contrário.

É injusta diante do sacrifício de Cristo a doutrina que apresenta outro(s) intercessores ou intermediários entre os homens e Deus. E o que torna essa doutrina mais insensata ainda é o fato de que esses possam ser homens também pecadores em sua natureza. Ninguém vem ao Pai senão por mim, disse Jesus.  

Aceitar outro intermediário é dizer que o sacrifício de Cristo não foi suficiente. E isto diante do ensinamento bíblico é uma heresia. Líderes católicos rotulam os protestantes de serem arrogantes ao não aceitarem a intercessão de Maria, mas a arrogância não seria o fato de apresentar outro ser humano também portador da natureza pecaminosa como intercessor, anulando Jesus Cristo? O único ser humano que foi a plenitude da imagem de Deus!

Cristo foi o único ser humano legítimo segundo o padrão de Deus. É sob este princípio que Deus julga o ser humano. Jesus é Deus na natureza humana, porém Ele ao viver sob a natureza humana não se desfez de Sua natureza também divina. Ele apenas não podia usar essa natureza divina em benefício próprio. Ele a subjugou para poder cumprir o plano da redenção do ser humano.

Ele teve que suportar, na Sua natureza humana, todas as lutas e conflitos que todo ser humano enfrenta em sua existência. Ele morreu, mas não pode ser retido pela morte porque nEle está a vida. Foi Ele mesmo quem disse: Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

Por que Jesus não foi subjugado pela morte? Por acaso usou a Sua natureza divina? Não! Deus é imortal. Jesus viveu todas as implicações absolutas, implícitas na natureza humana. Ele morreu porque era humano, mas ressuscitou porque é Deus. Jesus não foi retido pela morte simplesmente porque não tinha pecado e a morte é o salário de quem peca. É nisto que se fundamente a ética de Deus: na Sua justiça.

Por isso, a ruptura com Ele ao pecarmos, porque Ele é Santo, puro. Jesus foi maravilhoso para conosco ao morrer naquela cruz. Era a nossa única chance para voltarmos a sermos o que estamos destinados a ser: a imagem de Deus. Cuidado com a interpretação, pois imagem não é o mesmo que ser igual. Ninguém jamais poderá ser  Deus.

As religiões espiritualistas que ensinam que processos reencarnatórios nos transformam em deuses, seres superiores estão ensinando ilusão.  Sem Jesus não há solução, nem recondução à natureza segundo a imagem de Deus. E isto por quê? Porque Jesus, como ser humano, foi a plenitude da imagem de Deus. Jesus foi por natureza aquilo que estamos destinados a ser pela graça e justificação de Deus.


Romanos 5 nos ensina que Paulo reconhece isto e por isso se identifica mais com Adão do que com Cristo. Somente a arrogância humana ensina o contrário, a ponto de erguer o ser humano como se Deus ele fosse ou pudesse ser.

No sistema de sacrifício no Tabernáculo do deserto, exatamente na 2ª cerimônia (oferta pelo pecado – Levíticos 4:27 e Romanos 6:23) que ocorria logo em seguida à 1ª ocorrida no pátio de sacrifícios, o sacerdote levava o sangue da vitima inocente e o aspergia no segundo véu que fazia a separação entre o lugar Santo do lugar Santíssimo.

No lugar Santíssimo era manifestada a presença pessoal de Deus (Sheknah) e neste lugar, apenas após cumprir todo um ritual, somente o sumo sacerdote podia entrar. Este véu do Tabernáculo ficava literalmente imundo, fedido pelo sangue aspergido e deveria ficar assim durante todo um ano. Somente por ocasião da 3ª cerimônia é que o Tabernáculo poderia ser limpo, purificado.

Simbolicamente, o nosso pecado é como a sujeira neste 2º véu. Fétido, nojento, repugnante a Deus que é santo. Era necessário o véu, como uma proteção, uma fronteira.

Assim como Deus revelou misericórdia através deste véu fazendo dele a proteção de vida para os sacerdotes que não podiam comparecer inadvertidamente diante da santidade de Deus; sob o risco de serem mortos fulminados, Jesus, que carregou sobre Si, na cruz do calvário os nossos pecados fétidos e repulsivos e que O fizeram angustiar-Se a ponto de dizer: Pai, por que me abandonaste?, experimentou o drama da ruptura com Deus. Por nossa culpa, pois Ele mesmo estava sem pecado.

Jesus era a vitima inocente e esteve lá sobre aquela cruz porque eu e você somos pecadores e ele queria nos permitir um acesso ao Pai. Por isso, por ocasião de Sua morte o véu do Templo, construído por ordem de Herodes no tempo de Jesus, rasgou-se. Estava restabelecido o acesso entre Deus e os homens. Jesus, membro da divindade cumpriu Sua missão reconduzindo-nos para os braços do Grande Eu Sou, o Eterno Deus Criador.


Em Jesus podemos nos achegar a Deus sem medo ou temor. A Sua cruz é a nossa ponte, por isso Ele disse de Si mesmo: Eu Sou o Caminho. 

Em Jesus espiritualmente estamos eternamente unidos ao Pai. Os nossos pecados ainda nos separam fisicamente, mas por ocasião da volta de Cristo seremos glorificados pela liberdade que Jesus nos dará ao nos coroarmos com a imortalidade.

A morte de Jesus foi a intercessão não somente por Adão e Eva, mas por toda a humanidade. Diferentemente do sacrifício dos animaizinhos, o sacrifício do Ungido, enviado por Deus, foi único e definitivo. (Hebreus 10:12) Estamos salvos em Jesus, perdoados e justificados por Sua graça e amor.

É isto que Paulo afirma no verso 14: “No entanto a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão o qual é figura daquele que havia de vir.”

Nesta expressão “até Moisés”, entendo que a partir de Moisés Deus determina a escolha de um povo, não em detrimento da humanidade, para ser o depositário do sistema sacerdotal que seria o evangelho da salvação a ser anunciado para a humanidade daquela época. Através do sistema de sacrifício Deus anunciaria Sua obra de intercessão pela humanidade, através de Jesus, não somente pelo povo hebreu.

Os que ficarem de fora, os que não serão alcançados pela salvação de Cristo, serão apenas os que não aceitam a Sua intercessão. Deus não condena ninguém, a condenação dos ímpios (os que não quiserem ser limpos pelo sangue de Cristo) vem pela não aceitação de Sua morte em seu favor. Muitos, neste verso, argumentam sobre a universalidade do pecado e não a respeito da sua originalidade. Isto seria negar nossa unidade em Adão, a qual é o tipo da unidade dos remidos em Cristo. Por isso, Paulo diz: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram.” (v.12)

Este verso é o marco para o ensinamento da doutrina da relação de um para muitos. Paulo está traçando uma comparação entre Adão e Cristo: ambos por um simples ato influenciaram a raça humana inteira.

O efeito do ato (pecado) de Adão é a morte. Morte é o efeito e não a causa. O pecado é realmente o que foi transmitido à descendência de Adão: a natureza rebelde, o estado de pecado, a natureza pecaminosa. A morte veio em consequência.

O efeito da justiça de Cristo é a vida. O ato de Cristo foi a morte intercessora, conduzido pelo amor incondicional, pelo desejo de libertar, pela vontade de voltar a relacionar-Se. Paulo confirma no v. 15 a abundância dessa graça de Deus através de Cristo Jesus:


“[...] se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos.”


Esta é a dinâmica da salvação:

.  justificação - fomos salvos, libertos da condenação do pecado;

. santificação - estamos sendo salvos, libertos do poder do pecado;

. glorificação - seremos salvos, libertos da presença do pecado.

O v. 17 é maravilhoso! “Porque, se pela ofensa de um só, a morte veio a reinar por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo.”

Paulo faz a diferença entre os dois reinos: o de Adão estabelece o reinado do pecado e da morte, e o de Cristo o reinado da graça e da vida. A união com Cristo anula eternamente a união pecaminosa com Adão.

v.19: “Porque, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um muitos serão constituídos justos.” Paulo nos ensina aqui que o domínio e liderança espiritual de Cristo antecipa-se ao domínio e liderança física de Adão.

Que liderança é essa? Há um aspecto interessante no fato científico da solidariedade da raça. Assim como o todo está contido no gene (a árvore na semente por exemplo), assim toda a humanidade reside em Adão como um organismo físico. Pela graça, mediante a fé em Cristo Jesus, também somos um organismo espiritual. A salvação é uma solução espiritual providenciada por Deus para resolver o grande problema que o pecado causou a nossa existência física. É disso que fala o v. 18:

“Portanto, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação e vida.”

Concordo querido leitor quando você diz que “vale lembrar que a razão é um dos dons de Deus aos humanos [...]”, e exatamente por isso creio que há sim uma diferença entre nós e as criaturas de Deus que são irracionais.  Foi Deus mesmo quem estabeleceu essa diferença, ao dar ao homem o domínio e a autoridade sobre a Sua criação. Deus é o soberano no Universo e à Sua semelhança ética delegou ao homem exercer autoridade sobre a Terra. Não são os irracionais que Deus julga em Seu julgamento, mas os homens. Ele delegou e vai cobrar o zelo humano. Não se trata, portanto, de um “desmerecimento”, mas de uma responsabilidade diferenciada em relação às outras criaturas. Jesus veio morrer por toda a Sua criação, mas somente será exigida uma resposta ética dos homens, pois somente esses receberam de Deus a Sua imagem e semelhança.

Sim, há uma diferença imensurável entre nós e os outros seres que respiram. Não por uma questão de valor aos olhos de Deus, mas por uma questão de capacidade de resposta ética.

Os temas mais importantes para a existência humana são abordados profundamente pela Bíblia: fim do sofrimento, vitória sobre a morte, a humanidade como objeto de amor, esperança apesar de um mundo tão confuso. O modelo criacionista que ela apresenta evidencia Deus interessado pela felicidade humana. E aqui entra uma importante questão: A crença na existência de Deus e o conhecimento de Seus atributos resolvem todos os problemas humanos.

A conclusão que chego é que não adianta estribar-nos em um universo de informações e conhecimento, se o essencial somos incapazes de perceber e revelar em toda a sua dimensão: Deus. E sendo Deus o diferencial, como cristãos, qual testemunho estamos dando de Sua existência se cremos que fomos criados por Ele à Sua imagem?

Livre arbítrio... Podemos aceitar de bom grado nossa condição como imagem de Deus e reconhecer nossa humilde dependência, consentindo livremente com os princípios de Seu reino, ou podemos rejeitá-la, convertendo liberdade em rebelião.

Reflita em Lucas 4:16-21 e Romanos 3, 7 e 8.  Essa libertação não é universal nem automática. Ela só vem para aqueles que de bom grado recebem a Cristo e traz como resultado liberdade, não para voltar a seus próprios desejos autônomos, a antiga vida de pecado, mas para amar a Deus e o semelhante sob a ‘lei da liberdade’. (João 1:12; Tiago 2:12).

A morte é o salário do pecado (Romanos 6:23). Se hoje a vida prossegue seu curso, se na terra há fertilidade, se ainda há vida em nós, apesar da maldição do pecado, é porque o perdão temporal de Deus nos sustenta. Deus em Cristo perdoou toda a humanidade e a propósito disso Ele não nos exige uma resposta ética. Por isso, o sol brilha sobre justos e injustos. Deus não é motivado por nossa adoração para ser quem Ele É, misericordioso e gracioso. Sim, Deus nos perdoa e salva por motivações próprias. Ele decide, Ele quer, Ele pode. Não sensibilizamos Deus para nos conceder a salvação por nossas condutas.

Salvação é uma providência divina, então Justificação é uma iniciativa Sua também. O que precisamos compreender é que ser salvo e justificado implica numa relação de mão dupla, Deus não impõe, propõe. O homem tem que aceitar. Nossa participação essencial no processo da salvação é apenas esta: aceitação. Quando aceitamos de fato o sacrifício de Cristo por nós, nosso relacionamento com Deus gera respostas éticas, daí passamos a viver em consequência.

A grande verdade é que o melhor que há em nós é obra do Espírito Santo. Sem Jesus como intercessor tudo teria sido em vão. Sem o amor de Deus a nos atrair nem chegaríamos perto, pois é o Seu amor que nos atrai.

O paganismo nos deixou essa terrível herança do princípio pagão de que devemos agir para que Deus reaja. Portanto, em se tratando de salvação a ação sempre será de Deus e a reação sempre será nossa.

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

Continuaremos...

 ______

1- Aecio E. Carius – Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, vol.9 , A Doutrina do Homem.

Ruth Alencar 

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