O Estranho Julgamento


O cadáver do Papa Formoso sendo julgado por Estêvão VI.
Pintura de Jean-Paul Laurens (1870)


Em 891 foi eleito o que ficou conhecido como o Papa Famoso. Desordens políticas na Europa, notadamente na França, Alemanha e Itália, interferiram muito e prejudicaram o seu pontificado, findando assim com sua excomunhão.
É dito que Famoso fortaleceu e promoveu o cristianismo na Inglaterra e no Norte da Alemanha e que mantinha relações amigáveis com Constantinopla e que para se garantir contra algumas autoridades buscou o apoio de Astolfo, o Rei dos francos. O ponto culminante teria sido então o fato de haver coroado Astolfo como rei. Formoso foi o Papa que converteu os búlgaros ao catolicismo. Em 896 ele morre e aqui começa o que se tornaria um dos mais estranhos julgamentos.
Após sua morte foi substituído por Bonifácio VI com apoio dos opositores do Papa Formoso. Mas sua moral não era nada recomendável e Bonifácio permaneceu como papa apenas 15 dias.  

Nove meses após a sua morte Famoso teve seu cadáver exumado da cripta papal para ser julgado perante um Sínodo, presidido então pelo papa em exercício, Estevão VI.  Algumas fontes indicam Estevão VII e não VI. EstevãoVI foi o 113º Papa da Igreja Católica Romana.

O papa Famoso foi acusado de excessiva ambição pelo cargo papal, todos os seus atos foram declarados nulos, Seu cadáver foi despido e o mesmo teve seus dedos da mão direita amputados.
Este julgamento ficou conhecido na História como o "Sínodo do Cadáver". Conta-se que um dos grandes instigadores para tal julgamento foi a perversa mãe de Estevão VI, Ageltrudes.
Além da bizarrice do julgamento em si, cabe aqui a reflexão de que quem operou todo o julgamento era de uma moral nada recomendável. Alegando ter sido injustiçado por Famoso, Estevão VI, buscou "reparação" com esse tribunal.
O papa Estevão mandou que o cadáver fosse vestido com as vestes papais, adornado com seus respectivos signos e levado ao tribunal. 
No julgamento, com o cadáver mumificado, após nove meses de sua morte, Formoso foi retirado sacrilegamente de seu ataúde e posto diante de seus inquisidores O corpo inerte assentado num trono, com ouvidos que não podiam mais ouvir e boca que não podia mais falar, foi acusado do ‘grande crime de haver aceito ser Papa’.
Estranhamente, para não dizer outra coisa, solicitaram que Formoso (sim, o cadáver!) respondesse às acusações.  Como Famoso ‘preferiu guardar silêncio’, foi despido de suas insígnias papais, amputados seus dedos da mão e lançado ao rio Tibre. Conta-se que o rio levou seu corpo junto à igreja de Porto, onde o povo deu-lhe sepultura provisória na pequena igreja de Santa Inês. Estevão no mesmo ano foi considerado louco e morto por seus antigos 'amigos' e, por eles, possivelmente estrangulado. O sucessor de Estevão, João IX, anulou o sínodo cadavérico e mandou que o corpo de Formoso fosse enterrado na Basílica de São Pedro. Aqui você pode ver 0 Anuário Pontifício e algumas curiosidades em relação a lista cronológica dos Papas 

Disse certa vez François Fénelon que "para julgar um homem, basta observar quais os seus amigos." Cada vez mais me convenço disto. A Bíblia tem um relato que me faz aplaudir Fénelon por tão sábias palavras. Você pode ler esta história aqui. O mau conselho foi um dos combustíveis para a cisão do Reino de Israel. Crê-se de uma maneira geral, que a cisão se deveu ao choque de dois elementos: a loucura de um jovem e um povo exageradamente sobrecarregado de imposto. É possível que tenha havido uma hábil maquinação política, pois os maus conselheiros levaram o povo a fazer um pedido aparentemente inocente: a diminuição dos impostos. Os conselheiros sérios discerniram a gravidade da situação e aconselharam pela prudência, mas o rei não deu ouvidos senão aos maus conselhos. E a história se encarregou de revelar as consequências.

O julgamento do papa Famoso se deu de forma bizarra porque os interesses não eram nobres, assim como nobres não eram os corações daquelas chamadas autoridades. Fico pensando então na enormidade que há de decisões ao longo da História tomadas por homens, então revestidos de autoridades, que decidem senão segundo seus próprios interesses.

No mundo religioso, infelizmente devido a presença da corrupção moral e espiritual humana, isto também acontece. É inegável que a religião pode ser, também, um instrumento poderoso tanto para o bem como para o mal. Os registros históricos confirmam o que os homens (líderes ou não) e suas religiões foram capazes de fazer, baseados na opinião de serem donos da verdade e assim agiram dizendo estarem fazendo a vontade de Deus. A inquisição, as cruzadas, os ataques terroristas, por exemplo, jamais foram e nunca serão aprovados por Deus. Quando os líderes religiosos, que se auto-proclamam guardiões da fé, fazem estas coisas com o pensamento e a mensagem de que estão fazendo para Deus, quem pode impedi-los? Foi a convicção de que suas ações tinham a aprovação divina que os levou a fazer essas coisas. Tenho certeza absoluta que Deus é amor e que Ele jamais se alegra com a destruição, as guerras, os assassinatos.  Pelo menos, não o meu Deus. O Deus em quem eu creio é amor.

Assim se deu no julgamento de Jesus. As autoridades de Sua época não souberam o que fazer com Ele, nem com as verdades de Suas palavras. Seu julgamento e condenação estão registrados na História. Um julgamento injusto com um veredicto injusto, visto que Ele era inocente. (Mateus 27:12-54).

Ele foi apresentado diante de várias autoridades: teve duas audiências preliminares, uma diante apenas de Anás e outra diante de Anás e Caifás. Ele foi acusado duas vezes diante do Sinédrio, primeiramente à noite e depois, de dia. Jesus compareceu por duas vezes diante de Pilatos, e uma vez diante de Herodes, entre os dois comparecimentos diante de Pilatos. Por que? Simplesmente porque não havia um crime. E Eles não sabiam o que fazer! Esses julgamentos “não foram planejados para examinar com imparcialidade a evidência, mas para forjar acusações que resultassem em condenação e morte para Jesus. Os líderes religiosos tomaram a decisão antes de começar qualquer julgamento: eles queriam a morte de Jesus. Apesar de manterem a aparência de legalidade, todo o processo – um tribunal convocado apressadamente no meio da noite – fez escárnio à justiça.1

Ele foi condenado sendo inocente e Sua morte foi a nossa Redenção. “O Calvário foi um lugar de rejeição, vergonha, sofrimento e morte. Mas também é um lugar de vitória, esperança e vida eterna. O Calvário, e o que aconteceu depois, tornam Jesus de Nazaré diferente de todos outros mestres religiosos que o mundo já conheceu. Outros deixaram ensinos sábios, fizeram coisas bondosas, reuniram um grupo de seguidores e se tornaram o centro de movimentos que persistiram e cresceram depois de sua morte; alguns desses se tornaram religiões mundiais. Mas só Jesus, depois de morrer, ressuscitou e reina como Salvador vivo. E isso faz toda a diferença do mundo.”1     

Vista em sua dimensão real, o significado da cruz transcende ao de um simples instrumento de tortura e morte. Ela se reveste de uma natureza complexa, que envolve também vida. Torna-se o símbolo de uma decisão: olhar, crer ou não, aceitar ou rejeitar.  Houve um dia em minha vida em que decidi que em assuntos de fé meu referencial seria a Bíblia. Desde então, tudo o que me é proposto nesse domínio busco uma reflexão à luz da Palavra de Deus. Creio que a Sua Palavra é a fonte que sacia minha sede de saber e de compreender. É nela que tenho encontrado respostas.


Ruth Alencar

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1-  William Johsson. Lição da Escola Sabatina, pág. 88. abril-junho.2005. Casa Publicadora Brasileira






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