Refletindo um pouquinho sobre 2 Reis 2: 9- 13


Na leitura bíblica de hoje do ano bíblico alguns versos chamaram-me a atenção:

v.9-10 “Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim. E disse: Coisa difícil pediste;  se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará, porém, se não, não se fará.”

Deixe-me ressaltar primeiramente que em hebraico o emprego metafórico de ‘filho’ implica forte semelhança e íntima relação. Não é necessariamente uma questão de filiação. Um Ben-Nabi (filho de profeta) era um candidato à profissão de profeta. Um profeta tinha seus discípulos. A principal missão do Ben-Nabi seria propagar a mensagem do seu mestre. É nesse contexto que tem que ser entendido o pedido de Eliseu.

“Quando Elias estava prestes a se retirar de seu fiel servo e discípulo, ele deu a Eliseu o privilégio de pedir o que estava em seu coração. Eliseu poderia pedir favores temporais e materiais, como riqueza, fama, sabedoria, honra e glória do mundo, um lugar onde os grandes líderes da terra, ou uma vida de conforto e prazer em contraste com a vida de Elias, que fora de dificuldades e privações. Ele, porém, não pediu nada disso. O que ele mais queria era continuar a mesma obra que Elias tinha exercido, no mesmo espírito e poder. Para isso ele precisaria da mesma graça e da ajuda do mesmo Espírito de Deus.

O pedido de Eliseu lembra a petição de Salomão. Ele não pediu vantagem mundana, posição nem ganho, mas o poder do espiritual necessário para desempenhar corretamente as solenes tarefas que havia sido chamado a executar. [...] Eliseu não estava pedindo o dobro do poder de Elias. [...] A expressão hebraica utilizada é a mesma de Deuteronômio 21:17, que denota a porção da propriedade de um pai que devia ser dada a um filho mais velho. Assim, o pedido de Eliseu era apenas que ele fosse tratado como o filho mais velho do profeta que partia e que recebesse uma ‘porção dobrada’ do Espírito em comparação ao que seria dada a qualquer outro dos filhos dos profetas. O que ele estava pedindo era o reconhecimento de um direito espiritual, a fim de ser considerado filho espiritual, primogênito do idoso profeta e que, assim, fosse habilitado a continuar o trabalho iniciado por Elias.

Não era difícil para o Senhor, mas para Elias. Não cabia ao profeta nomear seu sucessor. Só Deus pode escolher quem vai realizar a função profética. Elias bem sabia que não estava dentro de sua capacidade designar quem deveria continuar a obra a que ele mesmo tinha sido chamado pelo Senhor. Por essa razão, era impossível para ele, à parte da inspiração divina, dizer se o pedido seria concedido ou não.

As palavras, ‘quando for’ não estão no hebraico e seria melhor que fossem omitidas. O significado é: ‘se você me vir sendo tomado’. Se Elias fosse testemunha da trasladação de Elias, ele saberia que o Senhor achara por bem conceder seu pedido.

Os v. 12 -13 confirmam: “O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel, e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, pegando as suas vestes, rasgou-as em duas partes. Também levantou a capa de Elias, que dele caíra; e, voltando-se, parou à margem do Jordão.”

Essas palavras foram inspiradas pela forma impressionante com que Elias foi levado ao Céu, mas expressam a percepção, por parte do profeta, de que a verdadeira defesa de Israel não vinha do poder terreno, nem de exércitos, cavaleiros e carros, mas da força e do poder de Deus. Um anjo enviado por Deus para guardar seus filhos é poderoso para enfrentar os mais fortes exércitos do mundo.

Assim se cumpriu o sinal dado por Elias. Eliseu então sabia que teria a porção dobrada do espírito de Elias e que havia um importante trabalho pela frente. Eliseu considerava o idoso profeta como um pai espiritual. Como filho e herdeiro, o jovem profeta deveria assumir as responsabilidades do ancião. O trabalho que Elias tinha começado tão nobremente, então, deveria passar a ser efetuado por Eliseu.

Possivelmente, ‘os carros de Deus’ eram anjos (Salmo 68:17). Os anjos são os mensageiros de Deus ‘enviados  para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação’ (Hebreus 1:14). Na visão humana e profética, os mensageiros celestiais e agentes divinos são representados de diferentes formas: Zacarias 1:8, 10; 6: 1-3, 5; Ezequiel 1:13-14.

Cavalos e carros são usados frequentemente na Bíblia como símbolos de poder, glória e majestades, e com os quais o Senhor aniquila os oponentes, protege e conserva Seu povo.  (Habacuque 3:8; Isaías 66:15).

Eliseu viu seu mestre ser levado ao Céu, e, uma vez que ele se foi, Eliseu não o veria nunca mais. Pelo menos, até a ressurreição, quando todos os justos mortos serão ressuscitados, então Eliseu verá Elias novamente. Assim acontecerá com os discípulos que viram Jesus ascender aos céus, quando ‘uma nuvem O encobriu dos seus olhos’ (Atos 1:9). Na Sua segunda vinda eles mais uma vez poderão vê-LO.’ (Atos 1:11)

O rasgar das roupas geralmente era sinal de tristeza e desânimo (Números 14:6; 2 Samuel 13:19; 2 Crônicas 34:27; Esdras 9;3; Jó 1:20; 2:12). Neste caso, Eliseu rasgou as roupas não para indicar sofrimento, mas provavelmente, para mostrar que , doravante, não mais precisaria do seu velho manto, pois vestiria o de Elias ( 2 Reis 2:13).

O manto era a insígnia da função profética de Elias, quando ele designou Eliseu como seu sucessor, lançou seu manto sobre ele (1 Reis 19:19). O manto foi deixado a Eliseu como um legado do profeta mais idoso e como indicação de que ele devia assumir as responsabilidades de liderança que até então tinham sido exercidas por Elias. Voltando ao povo com esse distintivo de autoridade, ele seria reconhecido como o sucessor de Elias.

Elias foi um tipo dos santos que vivem nos últimos dias, que serão trasladados sem ver a morte. Na transfiguração, quando Pedro, Tiago e João tiveram uma antevisão da segunda vinda de Cristo com poder e glória (Lucas 9: 28-32) Elias apareceu como representante dos santos que serão trasladados quando Jesus vier, e Moisés, como representante dos justos que morrem e serão ressuscitados dos túmulos para acompanhar seu Salvador até o Céu. Ele havia honrado a Deus, assim o Senhor então o honrou, não lhe permitindo ir para a sepultura, mas levando-o diretamente para a glória e paz do Céu.”’1

Conta-se que um agricultor chinês estava cuidando de seu arrozal nos terraços de uma montanha com vista para o vale e o mar. Um dia, ele viu o início de um tsunami – o mar retrocedeu, deixando uma larga porção da baía exposta, e ele sabia que a água voltaria com força, destruindo tudo no vale. Ele pensou em seus amigos que trabalhavam no vale e decidiu atear fogo a seu campo de arroz. Imediatamente, seus amigos subiram a montanha para apagar o fogo e, assim, escaparam da morte na onda assassina. Como resultado desse espírito de ajuda mútua, a vida deles foi salva. A lição é clara.

É assim que consigo ver o espírito de renúncia que têm os que decidem trabalhar para salvar as pessoas de uma vida que certamente as conduz para morte. Essa é a razão pela qual o cristão parte para a missão de pregação do evangelho de Cristo. Como disse João, o evangelista: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e nós devemos dar a vida pelos irmãos."(1 João 3:16)

Foi o amor a Deus e ao povo que motivou e sustentou Elias durante a sua vida como profeta. Jezabel ameaçou dia após dia a sua vida, representando o próprio Satanás, que insiste em nos intimidar em nossa caminhada cristã. Mas, apesar das intimidações, a rainha má nada pôde fazer a Elias, a não ser que Deus o permitisse. Houve um momento em que o  seu sofrimento emocional foi tão forte que ele fugiu como um menino! Perdeu a compostura de um servo de Deus, e passou a ser regido apenas pelas emoções (negativas), chegando ao ponto de pedir a morte, de pensar em desistir.

Acontecimentos negativos como a perda de um ente querido, divórcio ou rompimento de namoro, problemas de relacionamento, perda de emprego, problemas financeiros, doença, ansiedade causada por situações de risco (como no caso de Elias, diante da ameaça de Jezabel), contínua expectativa por desejos não realizados, também podem contribuir para que alguém experimente o estresse. E sinta-se cansado, não somente física, mas espiritualmente.

O inimigo de Deus também trabalha assim conosco. A Bíblia diz: “O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1 Pedro 5:8). Mas, assim como aconteceu a Elias, se estivermos em comunhão com Deus e firmados em Seus caminhos pela obediência, Satanás também não alcançará vitórias em nossas vidas. Ele tentará nos prejudicar, nos fará experimentar perdas, teremos que fazer renuncias, mas assim como Elias, Jó, Paulo e muitos outros personagens bíblicos, seremos vitoriosos.

“Bem-aventurado o homem que suporta a provação; porque, depois de aprovado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam." 
(Tiago 1:12)

“Se é só para esta vida que esperamos em Cristo, somos de todos os homens os mais dignos de lástima.”
 (1 Corintios 15:19)

“Quando sua experiência diária for olhar a Jesus e dEle aprender, você haverá de revelar caráter são e harmônico. Abrande suas manifestações, e não se permita proferir palavras condenatórias. Aprenda do grande Mestre. As expressões de bondade e simpatia farão bem como um remédio, e curarão os que se acham em desespero. O conhecimento da Palavra de Deus, introduzido na vida prática, terá uma força saneadora e suavizante. A aspereza no falar nunca há de produzir bênçãos para você, nem a nenhuma outra pessoa” 
(Obreiros Evangélicos, p. 163, 164).

Que a exemplo de Eliseu sigamos em cumprimento da missão que Deus em Jesus, nosso grande Mestre e Pai, nos pediu: amá-Lo acima de todas as coisas e ao nosso próximo como amamos a nós mesmos. Como filhos de Deus devemos propagar a Sua mensagem de arrependimento e confissão dos pecados. A mensagem da Salvação em Cristo Jesus. Essa é a nossa missão: propagar a mensagem do nosso mestre.

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1- Comentário Bíblico Adventista vol. 2, Casa Publicadora Brasileira.

Ruth Alencar  


Comentários

  1. Lindas palavras! Palavras de ânimo e consolo... exatamente o que eu estava precisando ler.
    Glórias e mais glórias ao Deus que te ilumina, Ruthinha.

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    1. Amém, não desapareça meu amigo. Um grande abraço

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