Junto ao Poço de Jacó – parte 2


Continuação do texto O Monte Gerazim

“[...] A evidência mais convincente da identidade de Yeshua (Jesus) como Messias diz respeito ao número de profecias do Tanakh cumpridas por ele em sua primeira vinda. [...] Jesus cumpriu todas as profecias referentes à Sua primeira vinda; [...] As restantes serão cumpridas quando Ele retornar em glórias.”2




 "Enquanto a mulher falava com Jesus, foi impressionada por Suas palavras. Nunca ouvira esses sentimentos expressos por parte dos sacerdotes de seu povo ou dos judeus. Ao ser-lhe exposta sua vida passada, tornara-se cônscia de sua grande necessidade. Percebera a sede de sua alma que as águas do poço de Sicar jamais poderiam saciar. Coisa alguma de tudo com que estivera em contato até então, a despertara para mais elevada necessidade. Jesus a convencera de que lia os segredos de sua vida; sentiu, entretanto, que Ele era seu amigo, compadecendo-Se dela e amando-a. Se bem que a própria pureza que dEle emanava lhe condenasse o pecado, não proferia palavra alguma de acusação, mas falara de Sua graça, que lhe podia renovar a alma. Nela se começou a formar a convicção acerca de Seu caráter. Surgiu-lhe no espírito a indagação: "Não poderia Este ser o tão longamente esperado Messias?" Disse-Lhe: "Eu sei que o Messias (que Se chama o Cristo) vem; quando Ele vier, nos anunciará tudo". Jesus respondeu: "Eu o sou, Eu que falo contigo". João 4:25 e 26. 

Ao ouvir a mulher estas palavras, a fé brotou-lhe no coração. Aceitou a maravilhosa comunicação dos lábios do divino Mestre. 

Essa mulher encontrava-se em disposição de espírito capaz de apreciar. Estava pronta para receber a mais excelente revelação, pois interessava-se nas Escrituras, e o Espírito Santo lhe estivera preparando a mente para a recepção de maior luz. Estudara a promessa do Antigo Testamento: "O Senhor teu Deus te despertará um profeta do meio de ti, e de teus irmãos, como eu; a Ele ouvireis". (Deuteronômio 18:15. Anelava compreender esta profecia. A luz já lhe estava brilhando no espírito. A água da vida, a vida espiritual que Cristo dá a toda alma sedenta, começara a brotar-lhe no coração. O Espírito do Senhor trabalhava nela. 

A positiva declaração de Cristo a essa mulher, não podia ter sido feita aos fariseus, cheios de justiça própria. Era muito mais reservado quando falava com eles. Aquilo que fora retido aos judeus, e que os discípulos haviam recebido recomendação de guardar em segredo, foi a ela revelado. Jesus viu que ela empregaria seu conhecimento em levar outros a partilhar de Sua graça. 

Ao voltarem os discípulos de seu mandado, ficaram surpreendidos de encontrar o Mestre falando com a mulher. Não tomara o refrigerante gole que desejara, nem Se deteve para comer o alimento trazido pelos discípulos. Havendo-se retirado a mulher, insistiram em que comesse. Viram-nO silencioso, absorto, como em meditação. O semblante irradiava-Lhe, e temeram interromper Sua comunhão com o Céu. Sabiam, no entanto, que estava desfalecido e fatigado, e julgaram seu dever lembrar-Lhe Sua necessidade física. Jesus lhes reconheceu o amorável interesse, e disse: "Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis". (João 4:32). 

Os discípulos cogitaram quem Lhe poderia ter trazido alimento; Ele, porém, explicou: "A Minha comida é fazer a vontade dAquele que Me enviou, e realizar a Sua obra". (João 4:34). Como Suas palavras à mulher lhe houvessem despertado a consciência, Jesus regozijou-Se. Viu-a bebendo a água da vida, e Sua própria fome e sede foram mitigadas. O cumprimento da missão para cujo desempenho deixara o Céu, fortalecia o Salvador para Seus labores, sobrepondo-O às necessidades humanas. Ministrar a uma alma faminta e sedenta da verdade era-Lhe mais grato que comer ou beber. Constituía um conforto, um refrigério para Ele. A beneficência era a vida de Sua alma. 

Nosso Redentor tem sede de reconhecimento. Tem fome da simpatia e do amor daqueles que comprou com Seu próprio sangue. Anela com inexprimível desejo que venham a Ele e tenham vida. Como a mãe espreita o sorriso de reconhecimento de seu filhinho, o qual lhe revela o alvorecer da inteligência, assim está Cristo atento à expressão de grato amor que revela haver começado a vida espiritual na alma. 

A mulher enchera-se de alegria ao escutar as palavras de Cristo. A maravilhosa revelação fora quase demasiado forte para ela. Deixando o cântaro, voltou à cidade, para levar a outros a mensagem. Jesus sabia porque ela se fora. O cântaro esquecido revelava eloquentemente o efeito de Suas palavras. O veemente desejo de sua alma era obter a água da vida; e olvidou seu objetivo em ir ao poço, esquecendo a sede do Salvador, que se propusera satisfazer. Coração transbordante de alegria, apressou-se em ir comunicar a outros a preciosa luz que recebera. 

"Vinde, vede um Homem que me disse tudo quanto tenho feito", disse ela aos homens da cidade. "Porventura não é este o Cristo?" Suas palavras tocaram o coração deles. Havia em sua fisionomia expressão nova, uma transformação em todo o seu aspecto. Despertou-se-lhes o interesse em ver a Jesus. "Saíram, pois da cidade, e foram ter com Ele." (João 4:29 e 30). 

Jesus, ainda sentado à borda do poço, pôs-Se a olhar para os campos de trigo que se estendiam diante dEle, seu delicado verdor banhado pelos dourados raios do Sol. Chamando a atenção dos discípulos para a cena, serviu-Se dela como de um símbolo: "Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que Eu vos digo: Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa." E olhava, enquanto assim dizia, aos grupos que se vinham dirigindo ao poço. Faltavam quatro meses para a ceifa do cereal; havia, entretanto, uma colheita pronta para o ceifeiro. 

"O que ceifa", disse, "recebe galardão, e ajunta fruto para a vida eterna; para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem. Porque nisto é verdadeiro o ditado, que um é o que semeia, e outro o que ceifa." (João 4:35-37). Aí indica Jesus o sagrado serviço que devem a Deus os que recebem o evangelho. Cumpre-lhes ser instrumentos vivos em Suas mãos. Ele lhes exige o serviço individual. E quer semeemos ou ceifemos, trabalhamos para Deus. Um espalha a semente; outro ajunta na ceifa; e tanto o semeador como o ceifeiro recebem galardão. Regozijam-se ambos na recompensa do seu labor. 

Jesus disse aos discípulos: "Eu vos enviei a ceifar onde vós não trabalhastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho." (João 4:38). O Salvador antecipa aqui a grande colheita do dia de Pentecoste. Os discípulos não deviam considerá-la como resultado dos próprios esforços. Entravam no trabalho de outros homens. Desde a queda de Adão, Cristo estivera sempre a confiar a semente da Palavra a Seus escolhidos servos, para ser semeada nos corações humanos. E uma invisível influência, sim, uma força onipotente, operava silenciosa, mas eficazmente para produzir a colheita. O orvalho, a chuva e o Sol da graça de Deus haviam sido dados para refrescar e nutrir a semente da verdade. Cristo estava prestes a regar a semente com Seu próprio sangue. Seus discípulos tinham o privilégio de ser coobreiros dEle e dos santos homens da antiguidade. Pelo derramamento do Espírito Santo, no Pentecoste, milhares se haviam de converter em um dia. Isso era o resultado da semente lançada por Cristo, a colheita de Seu labor.

[...]

Nas palavras dirigidas à mulher à borda do poço, fora lançada boa semente, e quão rapidamente se obteve a colheita! Os samaritanos vieram a ouvir Jesus, e nEle creram. Aglomerando-se ali em torno dEle, assediaram-nO com perguntas, recebendo ansiosamente Suas explicações de muitas coisas que para eles haviam sido obscuras. Escutando-O, suas perplexidades se começaram a desvanecer. Eram como um povo em meio de grande treva, seguindo um súbito raio de luz, até chegarem à claridade do dia. Mas não se satisfizeram com essa breve entrevista. Ansiavam ouvir mais, e dar a seus amigos também oportunidade de ouvir esse maravilhoso Mestre. Convidaram-nO a ir a sua cidade, pedindo-Lhe que ficasse com eles. Durante dois dias deteve-Se em Samaria, e muitos mais creram nEle. 

Os fariseus desprezavam a simplicidade de Jesus. Passavam-Lhe por alto os milagres, e pediam-Lhe um sinal de que era o Filho de Deus. Os samaritanos, porém, não pediram sinal, e Jesus não operou nenhum milagre entre eles, a não ser a revelação dos segredos da vida da mulher, junto ao poço. Entretanto, muitos O receberam. Em sua nova alegria, disseram à mulher: "Já não é pelo teu dito que nós cremos, porque nós mesmos O temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo." (João 4:42). 

Os samaritanos criam que o Messias havia de vir como o Redentor não só dos judeus, mas do mundo. O Espírito Santo dEle predissera, por meio de Moisés, como um profeta enviado por Deus. Por intermédio de Jacó fora declarado que a Ele se congregariam os povos; e de Abraão, que nEle seriam benditas todas as nações da Terra. Nessas escrituras baseavam os samaritanos sua fé no Messias. O fato de haverem os judeus interpretado mal os últimos profetas, atribuindo ao primeiro advento a glória da segunda vinda de Cristo, levara os samaritanos a desprezar todos os sagrados escritos, com exceção dos que foram dados por meio de Moisés. Ao demolir, porém, o Salvador, essas falsas interpretações, muitos aceitaram as últimas profecias e as palavras do próprio Cristo com relação ao reino de Deus. 

Jesus começara a derribar a parede de separação entre os judeus e os gentios, e a pregar salvação a todo o mundo. Conquanto judeu, misturava-Se sem restrições com os samaritanos, anulando os costumes farisaicos de Sua nação. Apesar de seus preconceitos, aceitou a hospitalidade desse povo desprezado. Dormiu sob seu teto, comeu com eles à mesa - partilhando do alimento preparado e servido por suas mãos - ensinou em suas ruas, e tratou-os com a máxima bondade e cortesia. 

No templo de Jerusalém havia apenas uma baixa parede divisória entre o pátio exterior e as outras dependências do sagrado edifício. Viam-se nessa parede inscrições em diferentes línguas, declarando que ninguém, a não ser os judeus, podia ultrapassar esses limites. Houvesse um gentio ousado penetrar no interior, teria profanado o templo, e o pagaria com a vida. Mas Jesus, o originador do templo e de seu serviço, atraía a Si os gentios pelo laço da simpatia humana, ao passo que Sua divina graça lhes trazia a salvação que os judeus rejeitavam. 

A permanência de Jesus em Samaria destinava-se a ser uma bênção para os discípulos, ainda sob a influência do fanatismo judaico. Julgavam que, para serem leais a sua nação, era preciso que nutrissem inimizade contra os samaritanos. Admiravam-se da conduta de Jesus. Não se podiam recusar a seguir-Lhe o exemplo, e durante os dois dias passados em Samaria, a fidelidade para com Ele lhes manteve em sujeição os preconceitos; todavia, no coração, continuavam irreconciliados. Foram tardios em  aprender que seu desprezo e ódio devia dar lugar à piedade e à simpatia. Após a ascensão do Senhor, porém, Suas lições foram recordadas por eles, assumindo novo significado. Depois do derramamento do Espírito Santo, relembraram o olhar do Salvador, Suas palavras, o respeito e a ternura de Seu trato para com esses desprezados estrangeiros. Quando Pedro foi pregar em Samaria, pôs em seu trabalho o mesmo espírito. Quando João foi chamado a Éfeso e a Esmirna, lembrou-se do incidente de Siquém, e encheu-se de gratidão para com o divino Mestre, que prevendo as dificuldades que haviam de enfrentar, lhes proporcionara auxílio com Seu próprio exemplo. 

O Salvador continua ainda a fazer a mesma obra que realizou quando ofereceu água da vida à mulher de Samaria. Os que se chamam Seus seguidores podem desprezar e evitar os párias da sociedade; circunstância alguma de nascimento ou nacionalidade, porém, nenhuma condição de vida, pode desviar Seu amor dos filhos dos homens. A toda alma, embora pecadora, Jesus diz: Se Me pedisses, Eu te daria água viva. 

O convite evangélico não deve ser amesquinhado, e apresentado apenas a uns poucos escolhidos, que, supomos, nos farão honra caso o aceitem. A mensagem deve ser dada a todos. Onde quer que haja corações abertos para receber a verdade, Cristo está pronto a instruí-los. Revela-lhes o Pai, e o culto aceitável Àquele que lê os corações. Para esses não emprega nenhuma parábola. Como à mulher junto ao poço, Ele lhe diz: "Eu sou, Eu que falo contigo." (João 4:26). 

Quando Jesus Se sentou para descansar à beira do poço de Jacó, havia chegado da Judeia  onde Seu ministério pouco fruto produzira. Fora rejeitado pelos sacerdotes e rabis, e os próprios que professavam ser Seus discípulos, deixaram de perceber-Lhe o divino caráter. Achava-Se desfalecido e fatigado; não negligenciou, no entanto, a oportunidade de falar a uma única mulher, conquanto fosse uma estranha, inimiga de Israel, e vivendo abertamente em pecado. 

O Salvador não esperava que se reunissem congregações. Começava muitas vezes Suas lições tendo apenas poucas pessoas em volta de Si; mas, um a um, os transeuntes paravam para escutar, até que uma multidão, maravilhada, e respeitosa ficava a ouvir as palavras de Deus através do Mestre, enviado do Céu. O obreiro de Cristo não deve julgar que não pode falar a poucos ouvintes com o mesmo fervor com que o faz a um maior auditório. Poderá haver uma única pessoa a escutar a mensagem; quem poderá, entretanto, dizer até onde se estenderá sua influência? 


Pouca importância, mesmo para os discípulos, parecia ter essa mulher de Samaria, para o Salvador gastar com ela Seu tempo. Ele, porém, raciocinou mais fervorosa e eloquentemente com ela, do que com reis, conselheiros ou sumos sacerdotes. As lições por Ele dadas àquela mulher têm sido repetidas até aos mais afastados recantos do mundo. 


Assim que encontrou o Salvador, a samaritana levou outros a Ele. Demonstrou-se mais eficiente missionária, que os próprios discípulos. Estes nada viram em Samaria indicativo de um campo promissor. Tinham os olhos fixos numa grande obra a ser feita futuramente. Não viram que exatamente em torno deles havia uma colheita a fazer. Por meio da mulher que haviam desprezado, porém, toda uma cidade foi levada a ouvir o Salvador. Ela transmitiu imediatamente a luz a seus concidadãos. 

Essa mulher representa a operação de uma fé prática em Cristo. Todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como missionário. Aquele que bebe da água viva, faz-se fonte de vida. O depositário torna-se doador. A graça de Cristo na alma é uma vertente no deserto, fluindo para refrigério de todos, e tornando os que estão prestes a perecer, ansiosos de beber da água da vida." (Ellen White, O Desejado de Todas as Nações, pág. 168-174, baseado em Mateus 15:21-28; Marcos 7:24-30.)



Junto ao Poço de Jacó - parte 1   


2- Bíblia Judaica Completa. (David H. Stern é doutor em Economia, pela Universidade de Princeton. Mestre em Teologia pelo Seminário Fuller, e prestou serviços para a University of Judaisme. Judeu, em 1972 passou a confiar em Yeshua (Jesus), como o Messias. Dr. Stern é autor do Manifesto judeu messiânico, que delineia o destino, identidade, história, teologia e objetivos do movimento messiânico moderno. Escreveu também Restoring de Jewishness of the Gospel: a Message for Christians (Restaurando o caráter judaico do evangelho: uma mensagem para os cristãos), que consiste em trechos seletos do Manifesto para cristãos não familiarizados com o caráter judaico do evangelho. Seu Jewish New Testament Commentary (Comentário Judaico do Novo Testamento) discute questões judaicas suscitadas pelo Novo Testamento e o cristianismo; perguntas que os judeus messiânicos fazem sobre a própria identidade e papel.)

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