Conversando um pouco mais sobre Daniel 9


A profecia das 70 semanas (Daniel 9:24-27) é uma das mais extraordinárias da Bíblia. Ela mostra, além de qualquer dúvida, que existe um Deus que conhece o futuro. Em resumo, a profecia diz que o Messias apareceria 483 anos depois de ser emitido o decreto para a reconstrução de Jerusalém (o que aconteceu em 457 a.C.). Portanto, o Messias deveria aparecer em 27 d.C. Jesus de Nazaré é o único personagem que cumpriu essa especificação.

Mas, neste momento, não pretendo falar sobre como essa profecia pode ser usada para levar Deus aos céticos. Nem sobre como demonstrar pelo Antigo Testamento que Jesus é o Messias. Quero comentar sobre uma interpretação comum, mas que não está livre de problemas. A profecia das 70 semanas começa com estas palavras: Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade (Daniel 9:24).
“O teu povo”, evidentemente, é o povo de Daniel, o povo judeu. E a “santa cidade” é Jerusalém.

Teoria do ultimato

Com base nesse texto, muitos acreditam que a profecia das 70 semanas apresenta uma espécie de ultimato para Israel, a última chance para os judeus se arrependerem e aceitarem Jesus. Como as 70 semanas terminaram em 34 d.C. (três anos e meio após a morte de Jesus), nesse ano Israel teria sido rejeitado por não ter aceitado Jesus.

Um excelente livro sobre Daniel argumenta que as 70 semanas “foram estabelecidas especialmente em relação ao povo judeu”. Até o fim desse período, Jesus “pretendia manter Sua promessa para com os judeus”. “Portanto, nos anos que se sucederam imediatamente a cruz, milhares de judeus” creram em Jesus. Mas a rejeição de Cristo por parte dos judeus – a qual foi simbolizada pelo apedrejamento de Estêvão – conduziu diretamente à proclamação do evangelho ao mundo não judeu. [...] A vinha deveria ser tomada de Israel e oferecida a uma “nação” diferente [ou seja, os gentios] (C. Mervyn Maxwell,Uma nova era segundo as profecias de Daniel [Casa Publicadora Brasileira, 2004], p. 235, 236, 242, 241).

Outra explicação

Geralmente os judeus messiânicos (isto é, os judeus que creem em Jesus) não seguem essa interpretação. Exemplos disso são os livros sobre Daniel escritos pelo Dr. Jacques Doukhan (Daniel: Vision of the End[Andrews University Press, 1987]; Secrets of Daniel: Wisdom and Dreams of a Jewish Prince in Exile [Review and Herald, 2000]). Doukhan é um judeu adventista que possui dois doutorados em Antigo Testamento, além de formação rabínica, e é professor na Universidade Andrews.

Mas há pouco tempo encontrei um importante estudioso não judeu que discorda da interpretação do “ultimato”: o Dr. Roy Gane, professor de Antigo Testamento na Universidade Andrews, considerado o maior especialista do mundo no livro de Levítico e uma notável autoridade no livro de Daniel. A fonte é o que provavelmente seja o melhor livro não acadêmico sobre Daniel 8 e 9: Who’s Afraid of the Judgment? The Good News About Christ’s Work in the Heavenly Sanctuary [Quem tem medo do juízo? As boas-novas sobre a obra de Cristo no santuário celestial] (Pacific Press, 2006).

Nesse livro, Gane cita (concordando com ele) um texto de Jacques Doukhan, que afirma: As 70 semanas não foram “determinadas” contra os judeus para assinalar o destino deles ou significar a rejeição de Israel. Em vez disso, o propósito das 70 semanas é mostrar as boas-novas da salvação dos judeus e do mundo através da obra do novo Sumo Sacerdote [Jesus Cristo]. Em 31 d.C., Jesus Se assentou à direita do Pai depois da ascensão (1Pe 3:22). Esse evento foi confirmado em 34 d.C., precisamente no fim das 70 semanas, quando Estêvão viu “os céus abertos e o Filho do homem em pé, à direita de Deus” (Atos 7:56, NVI) (Who’s Afraid of the Judgment?, p. 55, citando Jacques Doukhan,Mystery of Israel [Review and Herald, 2004], p. 36).

Então, sobre o que a profecia fala?

Essa interpretação parece fazer sentido. É verdade que a profecia começa com as palavras “setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo”. Mas “em nenhum lugar o texto da profecia sugere o conceito” de rejeição (Secrets of Daniel, p. 151). Veja a frase completa: Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos Santos (Daniel 9:24). O texto fala sobre salvação!

No livro citado por Gane, Doukhan diz ainda que esse texto “transmite a ideia de esperança e salvação, porque o Messias viria deste povo e para este povo. Portanto, essas são boas-novas para o povo, notícias de libertação e redenção, em vez de triste fim e rejeição”. Daniel 9, o capítulo em que está a profecia das 70 semanas, “descreve Daniel esperando e orando a Deus pela salvação de Seu povo. Em resultado disso, veio essa profecia como resposta de Deus ao pedido de Daniel (Dn 9:21)” (Mystery of Israel, p. 34).

Como já citei, “o propósito das 70 semanas é mostrar as boas-novas da salvação dos judeus e do mundo através da obra do novo Sumo Sacerdote [Jesus Cristo]” (p. 36). No fim das 70 semanas, em 34 d.C., ocorreu “um importante evento para a civilização e a salvação humana”. Nesse ano, a mensagem do Deus de Israel explodiu para além das fronteiras da Palestina e alcançou os gentios (Atos 8). Esse é não somente o ano da conversão e do chamado apostólico de Paulo (Atos 9), mas é o ano em que Deus derramou Seu Espírito sobre os “muitos” gentios (Atos 10:44, 45). [...] Essa profecia não fala sobre a rejeição dos judeus, mas sobre a adoção dos gentios, que não substituíram os judeus, mas se uniram a eles (foram “enxertados” neles, como diz Romanos 11:17-24) (p. 38).

No texto mais importante sobre Israel e a igreja, o apóstolo Paulo declara: Pergunto, pois: Acaso Deus rejeitou o Seu povo? De maneira nenhuma! Eu mesmo sou israelita, descendente de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou o Seu povo, o qual de antemão conheceu (Romanos 11:1, 2, NVI).

Comentando esse texto, Ellen White afirma: "Embora Israel houvesse rejeitado Seu Filho, Deus não os rejeitou" (Atos dos apóstolos, p. 375).

Sobre o que significa exatamente Israel ter rejeitado a Cristo, vamos deixar para outro dia. Por enquanto, guarde estas palavras: “Deus não os rejeitou”.

Continuaremos


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Comentários

  1. Querida Ruth, parabéns pelo novo endereço do blog!

    Eu entendo pouco de internet, mas imagino que, quando um site abandona aquela extensão blogspot.com e adquire um domínio próprio, ele avançou para um novo patamar.
    Louvo a Deus por isso, principalmente porque o banco onde trabalho bloqueou os acessos a blogs, mas somente os com a extensão blogspot.com e wordpress.com
    De vez em qdo consigo - quando há tempo - acessar o site do Michelson Borges (www.criacionismo.com) e agora, louvado seja Deus, poderei acessar livremente o NOSSAS LETRAS...
    Tenho orado por vc, sua família (especialmente marido e filhos) e o blog NOSSAS LETRAS... e fico muito feliz por ver o resultado das nossas orações.
    Que Deus continue te usando e abrindo a mente dos seus leitores.
    Que todo joelho se dobre em nome de Jesus!

    Um forte abraço!

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    1. Obrigada por suas orações Rafael. Tenho sempre sua preciosa família em minhas orações. Estamos sonhando sempre em dar um passo a mais no sentido de nos colocarmos nas mãos de Deus e podermos compartilhar da melhor maneira possível Sua Palavra e conselhos para um viver feliz e em paz. Há em nosso coração o sonho de um site. Estamos amadurecendo o projeto. Ore por isso também.

      Um grande abraço para vcs.

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