No Deserto da Tentação



por Ellen White – Livro No Deserto da Tentação, cap. 12-22
baseado em Mateus 4: 1-11; Marcos 1:12-13 e Lucas 4:1-13




Capítulo 12 — A primeira tentação de Cristo

Cristo entrou no mundo como o destruidor de Satanás e o Redentor dos cativos presos pelo seu poder. Deixaria um exemplo na Sua própria vida vitoriosa, para que o homem seguisse, e assim vencesse as tentações de Satanás. {DT 43.3}

Tão logo Cristo entrou no deserto da tentação Seu aspecto mudou. A glória e o esplendor que se refletiam do trono de Deus e Sua aprovação quando os Céus se abriram diante dEle, a voz do Pai reconhecendo-O como Seu Filho, em quem Ele Se comprazia, agora se foram. O peso do pecado do mundo estava pressionando-Lhe a alma; e o Seu semblante expressava inexprimível tristeza, uma profunda angústia que nenhum homem caído nunca imaginou. Ele sentiu a esmagadora corrente de angústia que inundava o mundo. Experimentou a força da condescendência com o apetite e a mundana paixão que controlam o mundo e têm trazido sobre o homem inexpressíveis sofrimentos.

A condescendência com o apetite tem aumentado e se fortalecido em todas as gerações sucessivas, desde a transgressão de Adão até que a raça humana se tornou tão frágil em poder moral que não pôde vencer na sua própria força. Cristo, em favor da raça humana devia vencer o apetite, suportando a mais poderosa prova sobre isto. Deveria palmilhar sozinho a senda da tentação, sem ninguém a ajudá-Lo, sem nenhum conforto e apoio. Sozinho deveria lutar contra os poderes das trevas.

Como o homem na sua força humana não poderia resistir ao poder das tentações de Satanás, Jesus voluntariamente tomou a missão, a fim de levar o fardo do homem e vencer o poder do apetite em seu favor. Em favor do homem Ele devia mostrar desprendimento, perseverança e firmeza de princípio soberano até para a atormentadora angústia da fome. Devia mostrar um poder de controle mais forte do que a fome e mesmo a morte. 


Capítulo 13 — Significado da prova

Quando Cristo suportou a prova da tentação sobre o apetite, Ele não estava na beleza do Éden, como Adão, com a luz e o amor de Deus vistos em tudo sobre que seus olhos repousassem; mas estava num estéril e desolado deserto, rodeado por animais selvagens. Tudo a Sua volta era repulsivo. Nesse ambiente, jejuou quarenta dias e quarenta noites, “e naqueles dias, nada comeu”.17 Estava enfraquecido pelo longo jejum e experimentou agudíssimo senso de fome. Seu semblante estava, na verdade, mais caído do que o dos filhos dos homens.

Assim Cristo entrou no conflito para vencer o poderoso inimigo, suportando toda a prova que Adão falhou em suportar, para que através do êxito neste conflito pudesse quebrar o poder de Satanás e redimir a raça humana da desgraça da queda.

Tudo estava perdido quando Adão se submeteu ao poder do apetite. O Redentor, em quem o humano e o divino estavam unidos, ficou no lugar de Adão e suportou o terrível jejum, por quase seis semanas. A duração deste jejum é a mais forte evidência da grande pecaminosidade do aviltado apetite e do poder que ele tem sobre a família humana. 

A humanidade de Cristo alcançou a mais profunda mesquinhez humana e identificou-se com as fragilidades e necessidades do homem caído, enquanto Sua natureza divina se apegava ao Eterno. Sua obra em levar a culpa do homem transgressor não Lhe deu licença para continuar violando a lei de Deus, porque a transgressão fez do homem um devedor para com a lei, e Cristo mesmo estava pagando este débito com os Seus próprios sofrimentos. As provas e sofrimentos de Cristo visavam impressionar o homem com o senso do seu grande pecado em quebrar a lei de Deus, e levá-lo ao arrependimento e obediência à lei, e através da obediência torná-lo aceitável a Deus. Ele imputaria Sua justiça ao homem e assim aumentaria seu valor moral perante Deus, para que os seus esforços a fim de guardar a lei divina pudessem ser aceitos. O trabalho de Cristo consistia em reconciliar o homem com Deus, através de Sua natureza humana, e Deus com o homem através de Sua natureza divina.

Tão logo começou o longo jejum de Cristo, Satanás estava a postos com suas tentações. Ele veio a Cristo disfarçado em luz, afirmando ser um dos anjos do trono de Deus, enviado com uma missão de misericórdia a fim de simpatizar com Ele e aliviá-Lo da Sua condição de sofrimento. Tentava fazer Cristo acreditar que Deus não requeria dEle que experimentasse a negação própria e os sofrimentos que Ele antecipava; que tinha sido enviado do Céu para trazer-Lhe a mensagem de que Deus pretendia somente provar sua disposição em suportar. 

Satanás disse a Cristo que Ele devia pôr os pés no caminho ensangüentado, mas não devia andar por ele, como o fizera Abraão quando provado, a fim de mostrar Sua perfeita obediência. Ele ainda mencionou que era o anjo que segurou a mão de Abraão quando o cutelo foi levantado para matar Isaque, e que agora veio para salvar-Lhe a vida; que não era necessário que Ele suportasse a dor desta fome e morte por inanição; que ele O ajudaria a suportar o trabalho no plano da salvação.

O Filho de Deus afastou-Se de todas estas tentações ardilosas e permaneceu no Seu propósito de levar avante em detalhes, no espírito e na letra, o plano que tinha sido delineado para a redenção da raça caída. Mas Satanás tinha diferentes maneiras de tentações, preparadas para enganar Cristo e obter vantagens sobre Ele; se falhasse numa tentação, tentaria outra. Pensava que seria bem-sucedido porque Cristo tinha-Se humilhado a Si mesmo como homem. Ele lisonjeou o seu suposto caráter como sendo de um anjo celestial e que não seria descoberto. Simulou duvidar da divindade de Cristo porque a Sua aparência estava enfraquecida e achava-Se em ambiente desfavorável.

Cristo sabia que ao tomar a natureza humana não seria igual aos anjos do Céu na aparência. Satanás insistia que se Ele era realmente o Filho de Deus, deveria dar-lhe evidência de Seu exaltado caráter. Aproximou-se de Cristo com tentações sobre o apetite. Ele venceu Adão neste ponto e controlou seus descendentes, e através da condescendência com o apetite, levou-os a provocar a Deus pela iniqüidade, chegando a ponto de os crimes serem tão grandes que o Senhor os destruiu da Terra pelas águas do Dilúvio. {DT 47.3}
Sob as tentações diretas de Satanás os filhos de Israel deixaram que o apetite controlasse a razão, e pela condescendência foram levados a cometer pecados graves que atraíram sobre eles a ira de Deus, e caíram no deserto. Pensava ele que poderia com êxito vencer a Cristo com as mesmas tentações. Satanás disse a Cristo que um dos exaltados anjos fora exilado na Terra, que Sua aparência indicava que, em vez de ser o Rei do Céu Ele era o anjo caído e que isto explicava a Sua aparência definhada e aflita.


Capítulo 14 — Cristo não operou milagres para si mesmo

Ele chamou a atenção de Cristo para a sua própria aparência atrativa, vestido de luz e forte em poder. Afirmava ser um mensageiro direto do trono do Céu. Asseverava que tinha o direito de exigir de Cristo evidências de ser Ele o Filho de Deus. Satanás estava decidido a descrer, se possível, das palavras que foram dirigidas dos Céus ao Filho de Deus por ocasião do Seu batismo. Determinou vencer a Cristo e se possível construir o seu próprio reino e assegurar sua vida. A primeira tentação que Satanás trouxe sobre Cristo referia-se ao apetite. Neste ponto tinha domínio quase completo sobre o mundo, sendo suas tentações adaptadas às circunstâncias e ambientes de Cristo, de tal maneira que eram quase insuportáveis. 

Cristo poderia ter operado um milagre em Seu próprio benefício; contudo, isto não estaria de acordo com o plano da salvação. Os muitos milagres na vida de Cristo demonstraram Seu poder de operar milagres em benefício da humanidade sofredora. Por um milagre de misericórdia Ele alimentou de uma só vez cinco mil, com cinco pães e dois peixinhos. Portanto, Ele tinha poder para operar milagres e saciar Sua própria fome. Satanás lisonjeava-se a si mesmo de que poderia levar Cristo a duvidar das palavras faladas do Céu por ocasião do Seu batismo. Se ele pudesse tentá-Lo a questionar Sua filiação e a duvidar da verdade das palavras faladas por Seu Pai, ganharia uma grande vitória.

Encontrou a Cristo no desolado deserto, sem companheiros, sem alimento, e sofrendo. O ambiente era o mais melancólico e repulsivo. Satanás sugeriu a Cristo que Deus não deixaria Seu Filho nesta condição de necessidade e sofrimento. Esperava abalar a confiança de Cristo em Seu Pai, o qual havia permitido que Ele chegasse a esta condição de extremo sofrimento no deserto, onde pés de homem algum já haviam pisado. Satanás ansiava poder insinuar dúvidas quanto ao amor do Pai pelo Filho, encontrando abrigo na mente de Cristo e sob a força do desespero e da fome extrema, Ele exerceria o poder miraculoso em Seu próprio favor, libertando-Se das mãos do Pai celeste. Isto, realmente, era uma tentação para Cristo. Mas Ele não a acalentou por um momento. Não duvidou por um instante sequer do amor do Pai celestial, ainda que alquebrado por inexprimível angústia. As tentações de Satanás, posto que preparadas com muita perícia, não abalaram a integridade do querido Filho de Deus. Sua confiança repousava em Seu Pai, e não podia ser abalada. 


Capítulo 15 — Não discutia com a tentação

Jesus não condescendeu em explicar ao Seu inimigo que Ele era o Filho de Deus e como tal, de que maneira devia agir. De modo insultuoso e escarnecedor Satanás se refere à presente fraqueza e aparência decaída de Cristo, em contraste com sua força e glória. Insultava a Cristo como sendo um representante muito pobre dos anjos, quanto menos de seu exaltado Comandante, o reconhecido Rei nas cortes reais, e que Sua presente aparência indicava que Ele estava esquecido de Deus e do homem. Disse que se Cristo fosse na verdade o Filho de Deus, o monarca do Céu, teria poder igual ao de Deus e deveria dar-lhe uma evidência disto aliviando Sua fome mediante a operação de um milagre, transformando em pão a pedra que estava aos Seus pés. Satanás prometeu que se Cristo fizesse isto, ele se submeteria imediatamente às Suas reivindicações de superioridade, e que a luta entre ele e Cristo terminaria para sempre.

Cristo não deu atenção às insinuações injuriosas de Satanás. Não Se sentiu provocado a dar-lhe provas de Seu poder, mas mansamente suportou os seus insultos sem retaliação. As palavras proferidas do Céu por ocasião do Seu batismo foram preciosas evidências para Ele de que Seu Pai aprovava as pegadas que Ele estava seguindo no plano da salvação, como substituto e fiador do homem. A abertura dos Céus e o descer da pomba celeste eram confirmações de que o Pai uniria Seu poder no Céu ao de Seu Filho na Terra, para socorrer o homem contra o domínio de Satanás, e de que Deus aceitara os esforços de Cristo para ligar a Terra ao Céu, e o homem finito ao infinito Deus. 

Os sinais recebidos do Pai eram expressivamente preciosos para o Filho de Deus, ao longo de todos os Seus severos sofrimentos e o terrível conflito com o comandante rebelde. Enquanto suportava a prova de Deus no deserto e durante todo o Seu ministério, Ele não tinha nada a fazer para convencer a Satanás do Seu poder e de que Ele era o Salvador do mundo. Satanás tinha suficiente evidência de Sua exaltada posição. Sua má vontade em atribuir a Jesus a honra que Lhe era devida e manifestar submissão como um subordinado, desenvolveu-se em rebelião contra Deus e resultou em sua expulsão do Céu.

Não era parte da missão de Cristo exercer o Seu poder divino em Seu próprio benefício, para aliviá-Lo do sofrimento. Este Ele voluntariamente tomou sobre Si. Condescendeu em tomar a natureza humana e deveria sofrer as inconveniências, doenças e aflições da família humana. Não deveria operar milagres por Sua própria conta; veio para salvar os outros. O objetivo de Sua missão era trazer bênçãos, esperança e vida aos aflitos e opressos. Veio para carregar aflições e os fardos da humanidade sofredora. 

Apesar de Cristo estar sofrendo os agudíssimos tormentos da fome, Ele resistiu à tentação. Expulsou a Satanás com a mesma passagem que Ele tinha dado a Moisés para reiterar ao rebelde Israel quando sua alimentação era escassa e eles clamavam por carne, no deserto: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.”18 Nesta declaração e também por Seu exemplo, Cristo mostrava ao homem que a fome por alimento material não era uma grande calamidade que pudesse derrubá-Lo. Satanás insinuou aos nossos primeiros pais que o comer do fruto que Deus proibira iria trazer-lhes grandes vantagens e os tornaria seguros contra a morte, justamente o oposto do que Deus lhes havia declarado: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”19 Se Adão tivesse sido obediente, não teria conhecido a pobreza, a necessidade, nem a morte.

Se o povo que viveu antes do Dilúvio tivesse obedecido à Palavra de Deus, não teria perecido nas águas diluvianas. Se os israelitas tivessem obedecido à Palavra de Deus, Ele teria derramado sobre eles bênçãos especiais. Mas eles caíram, em conseqüência da condescendência com o apetite e paixão. Não foram obedientes à Palavra de Deus. A condescendência com o apetite pervertido os levou a numerosos e graves pecados. Se eles tivessem considerado primeiramente os reclamos de Deus e depois as suas necessidades físicas em submissão à escolha, por Deus, do alimento apropriado para eles, certamente nenhum deles teria sucumbido no deserto. Teriam sido estabelecidos na boa terra de Canaã, como um povo santo e feliz, sem nenhum indivíduo fraco em todas as suas tribos. 

O Salvador do mundo tornou-Se pecado pela raça humana. Ao tornar-Se substituto do homem, não manifestou Seu poder como Filho de Deus, mas enfileirou-Se entre os filhos dos homens. Deveria suportar a prova da tentação como homem, em favor do homem, sob as mais probantes circunstâncias, e deixar um exemplo de fé e perfeita confiança em Seu Pai celestial. Cristo sabia que o Pai Lhe supriria alimento quando fosse para Sua glória. Nesta severa provação, quando a fome O pressionava além da medida, não diminuiria prematuramente uma partícula da prova que Lhe foi dada, exercendo o Seu divino poder.

O homem caído, quando colocado em apuros, não tem poder para operar milagres em seu próprio benefício, a fim de salvar-se a si mesmo da dor ou angústia, ou obter vitórias sobre seus inimigos. Era propósito de Deus testar e provar a raça humana e dar-lhe a oportunidade de desenvolver o caráter, levando-a freqüentemente a situações de prova, para testar sua fé e confiança no Seu amor e poder. A vida de Cristo era de uma conduta perfeita. Estava sempre ensinando ao homem, por Sua palavra e exemplo, que ele devia depender de Deus e que nEle deveria depositar sua fé e firme confiança. 

Cristo sabia que Satanás é mentiroso desde o princípio e que requeria muito domínio próprio ouvir as proposições desse enganador insultante sem repreendê-lo imediatamente por causa de sua audaciosa presunção. Satanás estava na expectativa de que o Filho de Deus, em extrema fraqueza e agonia de espírito, dar-lhe-ia uma oportunidade para obter vantagens sobre Ele, provocando-O a empenhar-Se em controvérsia com ele. Deliberou perverter as palavras de Cristo e arrogar vantagem, buscando o auxílio dos anjos caídos a fim de usar todo o seu poder para prevalecer contra Ele e dominá-Lo.

O Salvador do mundo não tinha controvérsia com Satanás, já expulso do Céu porque não mais merecia ficar lá. Aquele que influenciou os anjos de Deus contra o Seu Supremo Governador e contra Seu Filho, o amado Comandante, e recrutou a simpatia deles para si mesmo, era capaz de qualquer engano. Por quatro mil anos ele tinha estado guerreando contra o governo de Deus e não perdera nada de sua habilidade ou poder para tentar e enganar.


Capítulo 16 — Vitória por meio de Cristo

Sendo que o homem caído não podia vencer a Satanás na sua força humana, Cristo veio das cortes reais do Céu para ajudá-lo com Sua força humana e divina combinadas. Cristo sabia que Adão no Éden com suas vantagens superiores podia ter enfrentado as tentações de Satanás e tê-lo vencido. Igualmente sabia que não era possível ao homem fora do Éden, separado da luz e do amor de Deus desde a queda, resistir às tentações de Satanás na sua própria força. Para trazer esperança ao homem e salvá-lo da completa ruína, Ele humilhou-Se a ponto de tomar a natureza humana, combinando o Seu poder divino com o humano, a fim de que pudesse alcançar o homem onde ele estava. Ele obteve para os caídos filhos e filhas de Adão a força, que por si mesmos é impossível obter, mas em Seu nome poderiam vencer as tentações de Satanás. 

O exaltado Filho de Deus, ao assumir a humanidade, aproximou-Se do homem, ficando como o Substituto do pecador. Identificou-Se com os sofrimentos e aflições dos homens. Foi tentado em todos os pontos como o homem é tentado, para que pudesse socorrer àqueles que seriam tentados. Cristo venceu em lugar do pecador.

Jacó, na noite de sua visão, contemplou a Terra ligada ao Céu por uma escada que alcançava o trono de Deus. Ele viu os anjos de Deus, vestidos com vestimentas de brilho celestial, descendo do Céu e subindo ao Céu nessa luminosa escada. O pé da escada repousava na Terra, enquanto o seu topo alcançava o mais alto dos Céus, tocando no trono de Jeová. O brilho do trono de Deus irradiava pela escada abaixo e refletia uma luz de glória inexprimível sobre a Terra. Esta escada representava a Cristo, que abriu a comunicação entre a Terra e o Céu. 

Na humilhação de Cristo, Ele desceu às mais profundas misérias humanas, em simpatia e compaixão pelo homem caído, que era representado por Jacó, num dos lados da escada, que tocava a Terra, enquanto o topo da escada, que alcançava o Céu, representava o poder divino de Cristo segurando o Infinito, e assim unia a Terra ao Céu e o homem finito ao infinito Deus. Através de Cristo a comunicação está aberta entre Deus e o homem. Anjos podem ir e vir do Céu à Terra, com mensagens de amor ao homem caído, e ajudar aqueles que herdarão a salvação. É através de Cristo, unicamente, que os mensageiros celestes assistem aos homens.

Adão e Eva, no Éden, foram colocados sob circunstâncias bem favoráveis. Tinham o privilégio da comunhão com Deus e os anjos. Estavam livres da condenação do pecado. A luz de Deus e dos anjos estava com eles e ao redor deles. O Autor da vida era o seu professor. Mas eles caíram sob o poder e tentações do manhoso inimigo. Por quatro mil anos Satanás tinha trabalhado contra o governo de Deus e obtivera força e experiência de tal prática.

Os homens caídos não tinham as vantagens de Adão no Éden. Tinham estado separados de Deus por quatro mil anos. A sabedoria para entender e o poder para resistir às tentações de Satanás tinham-se tornado cada vez menores. Até parecia que Satanás reinava triunfantemente sobre a Terra. O apetite e a paixão, o amor ao mundo e os pecados insolentes foram as grandes ramificações do mal, das quais cresceram muitas espécies de crime, violência e corrupção. Satanás foi vencido no seu objetivo de dominar a Cristo consoante ao apetite. E aqui, no deserto, Cristo alcançou a vitória em favor da raça humana, justamente no ponto do apetite, tornando possível ao homem, no tempo futuro, em Seu nome, vencer a força do apetite em seu próprio benefício. 


Capítulo 17 — A segunda tentação

Satanás, porém, não estava disposto a cessar os seus esforços até tentar todos os meios para obter a vitória sobre o Redentor do mundo. Sabia que tudo estava em jogo: seria ele ou Cristo o vitorioso na luta. Para intimidar a Cristo com sua força superior, ele O levou a Jerusalém e O colocou sobre o pináculo do templo, continuando a assediá-Lo com tentações. De novo exigiu de Cristo que se Ele na verdade fosse o Filho de Deus, desse-lhe evidência disto, lançando-Se da vertiginosa altura sobre a qual Ele fora colocado. Instigou Cristo a mostrar Sua confiança no cuidado preservador do Pai, atirando-Se do pináculo do templo.

Na primeira tentação de Satanás quanto à questão do apetite, ele tentou insinuar dúvidas com respeito ao amor de Deus e ao cuidado por Cristo como Seu Filho, apresentando o ambiente e Sua fome como evidência de que Ele não tinha o favor de Deus. Nisto não obteve êxito. A próxima tentativa, a fim de tirar vantagem da fé e perfeita confiança que Cristo tinha demonstrado no Pai celestial, impelira-O à presunção: “Se és Filho de Deus, atira-Te abaixo, porque está escrito: Aos Seus anjos ordenará a Teu respeito que Te guardem; eles Te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.”20 Jesus prontamente respondeu: “Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.”21 


Capítulo 18 — O pecado da presunção

O pecado da presunção jaz ao lado da virtude da fé perfeita e da confiança em Deus. Satanás se gabava de que poderia ter vantagem sobre a humanidade de Cristo, insistindo com Ele que passasse da fé para a presunção. Neste ponto muitas almas já caíram. Satanás tentou enganar a Cristo através da lisonja. Admitia que Ele estava correto no deserto, tendo fé e confiança de que Deus era Seu Pai, mesmo sob circunstâncias probantes. Então intimou Cristo a dar-lhe uma prova adicional de Sua inteira dependência de Deus, mais uma evidência de fé de que Ele era o Filho de Deus, atirando-Se do templo. Disse a Cristo que se Ele realmente fosse o Filho de Deus não tinha nada a temer, porque anjos estariam ali para ampará-Lo. Satanás dava evidências de que conhecia as Escrituras pelo uso que fez delas.

O Redentor do mundo não vacilou de Sua integridade, e mostrou que Ele tinha perfeita fé no cuidado prometido por Seu Pai. Não levaria a fidelidade e o amor do Pai a um julgamento desnecessário, apesar de estar nas mãos de um inimigo e colocado numa posição de extrema dificuldade e perigo. Não iria tentar presunçosamente a Deus a que agisse em Sua providência por sugestão de Satanás. Satanás extraiu das Escrituras aquilo que parecia apropriado para a ocasião, esperando conseguir seus intentos fazendo aplicação ao Salvador naquele momento especial. 

Cristo sabia que Deus realmente O sustentaria se Ele Lhe tivesse ordenado atirar-Se do pináculo do templo. Mas fazer isto sem ser mandado, tentando o protetor cuidado e o amor do Pai, porque Satanás O desafiara a fazer tal coisa, não mostraria a força de sua fé! Pois Satanás sabia muito bem que se Cristo prevalecesse e sem ser ordenado pelo Pai, saltasse do templo para provar a Sua assertiva do cuidado protetor do Pai celeste, justamente neste ato estaria mostrando a fraqueza de Sua natureza humana.

Cristo saiu vitorioso da segunda tentação. Manifestou perfeita confiança e fé no Pai durante Seu severo conflito com o poderoso inimigo. Nosso Redentor, na vitória aqui obtida, deixou para o homem um exemplo perfeito, mostrando-lhe confiança e inabalável fé em Deus, nas provas e perigos. Ele recusou prevalecer sobre a misericórdia do Pai, colocando-Se em perigo, obrigando o Pai celeste a demonstrar Seu poder para salvá-Lo do perigo. Isto forçaria a providência em Seu favor e Ele não deixaria para Seu povo um exemplo perfeito de fé e firme confiança em Deus. 

O objetivo de Satanás ao tentar a Cristo era levá-Lo à presunção audaciosa, mostrando a fraqueza humana que impediria fosse um perfeito modelo para Seu povo. Pensava que se Cristo falhasse em suportar o teste de suas tentações, não poderia haver redenção para a raça humana e o seu poder sobre ela seria completo.


Capítulo 19 — Cristo nossa esperança e exemplo

A humilhação e agonizantes sofrimentos de Cristo no deserto da tentação foram em favor da raça humana. Tudo em Adão foi perdido pela transgressão. A única esperança de ser o homem restaurado ao favor de Deus era através de Cristo. O homem se separou de Deus a tão grande distância pela transgressão de Sua lei, que não podia humilhar-se diante de Deus em nenhum grau proporcional à magnitude do seu pecado. O Filho de Deus podia compreender totalmente a gravidade do pecado do transgressor e em Seu caráter sem pecado, unicamente Ele poderia oferecer pelo homem uma expiação aceitável, suportando o sofrimento agonizante do desprazer do Pai. A tristeza e angústia do Filho de Deus pelos pecados do mundo foram proporcionais à Sua excelência e pureza divinas, bem como à magnitude da ofensa.{DT 60.2}

Cristo foi nosso exemplo em todas as coisas. Ao vermos Sua humilhação na longa prova e jejum, a fim de vencer a tentação do apetite em nosso benefício, devemos aprender a vencer quando formos tentados. Se o poder do apetite é tão forte sobre a família humana e sua condescendência é tão temível que o Filho de Deus Se submeteu a tal teste, quão importante é que sintamos a necessidade de manter o apetite sob o controle da razão! Nosso Salvador jejuou aproximadamente seis semanas a fim de que pudesse ganhar para o homem a vitória sobre o apetite. Como pode um professo cristão, tendo uma consciência esclarecida e tendo a Cristo diante de si como seu exemplo, submeter-se à condescendência com o apetite, que tem debilitado a mente e o corpo? É fato doloroso que hábitos de satisfação própria às expensas da saúde e poder moral, estão atualmente jogando grande parte do mundo cristão nos laços da escravidão. {DT 60.3}

Muitos que professam piedade não examinam razoavelmente o longo período de jejum e sofrimentos de Cristo no deserto. Sua angústia não era tanto pela terrível fome, mas pelo senso do resultado penoso da condescendência com o apetite e paixão, sobre a raça humana. Ele sabia que o apetite seria o ídolo do homem e o levaria a se esquecer de Deus, colocando-se diretamente no caminho de sua salvação.{DT 61.1}

Nosso Salvador mostrou perfeita confiança de que Seu Pai celestial não iria deixá-Lo sofrer a tentação acima do que Ele poderia, dando-Lhe força para suportar; e dar-Lhe-ia a vitória se Ele pacientemente enfrentasse a tentação a que estava sujeito. Cristo não colocou a própria vontade em perigo. Deus tolerou que Satanás por algum tempo tivesse este poder sobre Seu Filho. Jesus sabia que se Ele preservasse Sua integridade nesta posição de extrema provação, um anjo de Deus seria enviado para aliviá-Lo, se não houvesse outra maneira. Ele tomou a natureza humana e foi o representante da humanidade. {DT 61.2}


Capítulo 20 — A terceira tentação

Satanás viu que ele não prevaleceu em nada contra Cristo na sua segunda grande tentação. “Levou-O ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e Lhe disse: Tudo isto Te darei se, prostrado, me adorares.”22{DT 62.1}

Nas duas primeiras grandes tentações Satanás não havia revelado seus verdadeiros propósitos ou seu caráter; ele afirmava ser um mensageiro exaltado das cortes do Céu, mas agora tira seu disfarce. Apresentou a Cristo todos os reinos do mundo na mais atrativa luz, enquanto se dizia ser o príncipe deste mundo.{DT 62.2}

Esta última tentação era a mais persuasiva das três. Satanás sabia que a vida de Cristo deveria ser de tristeza, agruras e conflito. Ele pensou que poderia aproveitar-se deste fato para subornar Cristo a renunciar à Sua integridade. Satanás usou toda a sua força nesta última tentação, pois este último esforço iria decidir seu destino, quem seria vitorioso. Ele afirmava que o mundo era seu domínio e que ele era o príncipe das potestades do ar. 

Levou Jesus ao topo de um monte muito alto e apresentou-Lhe uma visão panorâmica de todos os reinos do mundo, que por muito tempo tinham estado sob seu domínio e os ofereceu a Ele como uma grande dádiva. Disse a Cristo que Ele poderia apossar-Se de todos estes reinos, sem sofrimento ou perigo. Satanás prometeu ceder o seu cetro e domínio e fazer de Cristo o governante de direito por apenas um só favor dEle. Tudo que ele queria em retorno por entregar-Lhe todos os reinos do mundo naquele dia apresentados diante dEle, é que Cristo deveria prestar-lhe homenagem como a um superior.

Os olhos de Jesus repousaram por um momento sobre a glória apresentada diante dEle; voltou-Se, porém, recusando continuar a olhar para o fascinante espetáculo. Não iria danificar Sua leal integridade perdendo tempo com o tentador. Quando Satanás solicitou a homenagem divina de Cristo, despertou-se-Lhe a indignação e Ele não pôde mais tolerar sua presunção profana nem mesmo permitir-lhe que permanecesse na Sua presença. Aqui, Cristo exerceu Sua autoridade divina e ordenou que Satanás desistisse. “Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele darás culto.”23

Satanás, em seu orgulho e arrogância, havia declarado ser ele o governante do mundo por direito permanente, o possuidor de todas as suas riquezas e glórias, exigindo homenagem dos seus seres viventes, como se ele tivesse criado o mundo e todas as coisas que nele existem. Disse a Cristo: “Dar-Te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser.”24 Procurou fazer um contrato especial com Cristo, ordenando que Ele o adorasse. 

Este insulto ao Criador levou a indignação do Filho de Deus a repreendê-lo e expulsá-lo. Satanás jactou-se de haver escondido seu verdadeiro caráter e propósito na primeira tentação, de tal modo que Cristo não o reconheceu como o chefe rebelde caído que Ele já havia derrotado e expulso do Céu. As palavras de Cristo: “Retira-te Satanás”, evidenciaram que ele fora reconhecido desde a primeira tentação, e toda a sua habilidade não teve nenhum êxito sobre o Filho de Deus. Satanás sabia que se Cristo tivesse de morrer para redimir o homem, seu poder terminaria após algum tempo e ele seria destruído. Assim sendo, era seu estudado plano impedir, se possível, a consumação do grande trabalho que foi começado pelo Filho de Deus. Se o plano da redenção do homem falhasse, ele reteria o reino que então reclamava e, se fosse bem-sucedido, regozijava-se de que reinaria em oposição ao Deus do Céu.

Quando Jesus deixou o Céu, deixando lá o Seu poder e glória, Satanás exultou. Pensou que o Filho de Deus fora colocado sob seu poder. A tentação ao santo par no Éden fora tão fácil que ele esperava que com sua satânica astúcia e poder venceria até mesmo o Filho de Deus e salvaria sua vida e seu reino. Se ele pudesse tentar Jesus a afastar-Se da vontade de Deus, como fez na sua tentação a Adão e Eva, então seu objetivo seria alcançado. 

Estava prestes a vir o tempo em que Jesus redimiria a possessão de Satanás, dando Sua própria vida; e depois de algum tempo tudo no Céu e na Terra se submeteria a Ele. Foi fiel. Escolheu uma vida de sofrimento, uma ignominiosa morte e, da maneira apontada pelo Pai, tornar-Se-ia o governador legítimo dos reinos da Terra, tendo-os nas mãos como possessão para sempre. Satanás também seria colocado em Suas mãos para ser destruído pela morte e nunca mais molestar a Jesus e aos santos na glória.

Disse Jesus a este vil inimigo: “Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele darás culto.”25 Satanás havia desafiado Cristo a mostrar-lhe evidência de que Ele era o Filho de Deus, e agora tinha a prova que pedira. Foi compelido a obedecer à ordem divina. Foi repelido e silenciado. Não teve poder para resistir ao positivo repúdio. Foi repelido instantaneamente, sem uma palavra de resistência, desistindo e deixando o Redentor do mundo.

A presença odiosa de Satanás foi afastada. A luta estava terminada. Com inexprimível sofrimento, a vitória de Cristo no deserto foi tão completa como fora a queda de Adão. Por um espaço de tempo Ele Se livrou da presença do Seu poderoso adversário e de suas legiões de anjos.


Capítulo 21 — Término da tentação de Cristo

Depois de haver Satanás terminado suas tentações, ele deixou Jesus por um pouco de tempo. O inimigo foi derrotado, mas o conflito fora longo e excessiva a prova, e Cristo estava exausto e fraco. Caiu ao chão como se fosse morrer. Anjos dos Céus que se haviam curvado diante dEle nas cortes reais, e que com intenso e doloroso interesse presenciaram o terrível confronto, e como Ele enfrentou a Satanás, agora vieram para servi-Lo. Prepararam-Lhe alimento e O fortaleceram, pois Ele jazia como morto.

Os anjos estavam cheios de espanto e admiração ao acompanhar os inexprimíveis sofrimentos do Redentor do mundo a fim de obter a redenção do homem. Aquele que era igual a Deus nas cortes reais, estava diante deles enfraquecido pelo jejum de aproximadamente seis semanas. Solitário, foi perseguido pelo chefe rebelde que havia sido expulso do Céu. Suportou a mais severa prova a que alguém já foi submetido. A luta contra o poder das trevas foi longa, e a natureza humana de Cristo a experimentou intensamente em Sua condição de fraqueza e sofrimento. Os anjos trouxeram-Lhe mensagens de amor e conforto, provenientes do Pai, bem como a certeza de que todo o Céu triunfou na vitória completa que Ele ganhou em favor do homem.

O custo da redenção da raça humana nunca poderá ser completamente compreendido, até que os redimidos estejam em pé diante do Redentor, ao lado do trono de Deus. Ao ter eles capacidade para apreciar o valor da vida imortal e da recompensa eterna, avolumarão o cântico de vitória e imortal triunfo, “proclamando em grande voz: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor. Então ouvi que toda criatura”, disse João, “que há no Céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo: Àquele que está sentado no trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos.”26 

Apesar de Satanás ter falhado nos seus mais fortes esforços e mais poderosas tentações, não desistiu de toda esperança de que nalgum futuro próximo seria bem-sucedido em seus esforços. Olhava para um período adiante no ministério de Cristo, quando teria oportunidades de tentar seus artifícios contra Ele. Satanás planejou cegar a compreensão dos judeus, povo escolhido de Deus, para que eles não discernissem em Cristo o Salvador do mundo. Pensou que poderia encher-lhes o coração de inveja, ciúme e ódio contra o Filho de Deus, a ponto de que não O recebessem mas tornassem a Sua vida na Terra a mais amarga possível.

Satanás convocou um concílio de seus anjos, a fim de decidirem que curso deveriam seguir para impedir que o povo tivesse fé em Cristo como o Messias que os judeus por tão longo tempo haviam esperado ansiosamente. Ficou desapontado e enraivecido porque em nada prevaleceu contra Jesus, nas diferentes maneiras de tentações no deserto. Pensava que se pudesse inspirar o coração do próprio povo de Cristo a descrer de que Ele era o Prometido, poderia desencorajar a Jesus na Sua missão e assegurar os judeus como agentes na execução dos seus propósitos. 

Satanás se aproxima do homem como um anjo de luz, tentando-o, como fez com Cristo. Tem atuado para levar o homem a uma condição de fraqueza física e moral, de maneira que possa facilmente dominá-lo e então triunfar sobre sua ruína. E tem sido bem-sucedido em tentar o homem a condescender com o apetite, a despeito do resultado. Sabe muito bem que é impossível ao homem desincumbir-se de suas obrigações para com Deus e seus semelhantes enquanto enfraquece as faculdades que Deus lhe deu. O cérebro é a capital do corpo. Se as faculdades perceptivas forem entorpecidas por qualquer espécie de intemperança, as coisas eternas não serão discernidas.


Ellen White

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