Estamos explicando o texto?


Urgente apelo aos pregadores 
- parte 2



Esta é a primeira parte do segundo texto da série iniciada semana passada. Achei por bem dividir o segundo texto em três partes a fim de que a leitura não se torne muito cansativa.

“Leram no livro, na lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia” (Ne 8.8).

“Explique o texto bíblico” – foi uma das reiteradas súplicas do capítulo passado. É um rogo para que você se esmere em usar o texto no contexto em que ele foi dado aos ouvintes originais, seja capaz de explicar aos que lhe ouvem a intenção que o autor teve ao escrevê-lo e conectar o ouvinte moderno ao significado do texto antigo. A partir do que o texto disse ao povo daquele tempo, explicar o que ele diz ao povo deste tempo.

Tenha em mente que “compreender os costumes dos que viveram nos tempos bíblicos, das localidades, dos tempos e ocorrências é conhecimento prático; pois isso ajuda em tornar claras as imagens da Bíblia, e em fazer sentir a força das lições de Cristo” (WHITE, E., Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, p. 518). Sim, você e eu subtraímos a força do texto bíblico quando não buscamos compreendê-lo dentro de seu contexto histórico e literário (isto é, como o texto se comunica com os versos que estão antes e depois dele e como eles foram entendidos pelas pessoas as quais aquelas palavras se dirigiram originalmente). Afinal, “compreendendo o que significavam as palavras de Jesus para os que as ouviam, nelas podemos distinguir uma nova vida e beleza, recolhendo para nós mesmos suas mais profundas lições” (Grifo acrescentado. Idem. O Maior Discurso de Cristo, p. 1).

Aprender a analisar cada texto contextualmente não é um luxo, uma opção; é uma obrigação, pois nos ajuda a não ensinar meras opiniões pessoais e a nos aproximarmos do significado que o próprio Deus inspirou os escritores sagrados a transmitir. Não somos autorizados a outra postura diante da Santa Palavra.


2.1 Usar muitas passagens: sinônimo de sermão bíblico?

Uma ideia permeia a mente de muitos cristãos: quanto mais passagens bíblicas um sermão possuir, mais bíblico será. Porém, não é o citar muitas passagens que definirá se uma mensagem é bíblica, e sim o uso que se faz delas. Portanto, não se engane crendo que encher o sermão de textos bíblicos será, necessariamente, algo bom (geralmente não é, pois aumenta a possibilidade de uso descontextualizado delas). É muito mais seguro deter-se em um (ou poucos textos auxiliares ao texto principal) durante todo o sermão, explicando-o cuidadosamente, recorrendo ao contexto da passagem, do que saltar de texto em texto sem explicar contextualmente nenhum. Não que seja necessariamente ruim usar muitas passagens, mas o perigo aumenta, pois facilita uma sistematização tendenciosa, já que os textos não estarão amarrados à segurança do seu próprio contexto.

Por que não verificar pessoalmente o contexto de cada passagem que você apresentar, a fim de garantir ao máximo que todas falam mesmo aquilo para o qual você pretende utilizá-las? Isso não fará de você infalível no uso da Bíblia (mesmo aqui não estou isenta desse tipo de falha), mas uma coisa isso fará de você: alguém que busca ser cauteloso e responsável no uso das Sagradas Escrituras.

Acredite, é assustadora a quantidade de textos fora do contexto usados por grande parte dos mais bem intencionados pregadores. Veja uma pequena amostra: Isaías 28.10; 55.2; Jeremias 17.5; Zacarias 13.6; Mateus 3.11; 5.48; 6.33; 18.20; 19.24; Lucas 10.18; João 5.39; 10.10; 1 Coríntios 2.9; 2 Coríntios 3.16-17; Filipenses 4.13; 1 Tessalonicenses 5.22 etc. Perceba como tais versos são conhecidos. Infelizmente, o que eles têm de famosos, têm de mal-interpretados.

Eu mesma já utilizei todos eles de forma errada em incontáveis ocasiões. Somente há alguns anos, quando comecei a estudar interpretação bíblica (hermenêutica), despertei para os meus erros nesse aspecto e pedi perdão a Deus. Ainda hoje estudo e peço que Ele me mostre mais pontos em que tenho falhado em minha interpretação da Bíblia. Sempre há mais, pois todos “temos muitas lições a aprender, e muitas, muitas a desaprender. Unicamente Deus e o Céu são infalíveis. Os que pensam que nunca terão de desistir de um ponto de vista acariciado, nunca ter ocasião de mudar de opinião, serão decepcionados” (WHITE, E. Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 37).

Pobre do que não tem consciência disso, crendo que seu tempo de igreja, a autoridade das pessoas com as quais aprendeu, o número de versos que conhece de cor, a denominação a que pertence, o gozar de boa fama em sua comunidade ou a sua perspicácia lhe garante imunidade quanto a erros de interpretação bíblica. Extremo cuidado aqui! Por isso, uma das coisas contra a qual o pregador e qualquer outro instrutor bíblico (sobretudo o talentoso) mais precisa lutar é a presunção.


2.2- Necessidade de estudo

Para isso, orar com fervor é essencial, mas não é suficiente. Você precisará ainda ler o(s) texto(s) bíblico(s) que utilizará e os textos ao redor dele(s). Várias vezes. Precisará estudar e se dedicar arduamente. Fazer anotações, recorrer a concordâncias, comentários e dicionários bíblicos, várias traduções, princípios hermenêuticos sadios e livros de teologia.

Afinal, apesar de possuírem muitos conceitos que uma criança é capaz de assimilar (2Tm 3.15), as Escrituras não se limitam a isso. Elas apresentam também “algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e instáveis torcem, [...] para a própria destruição deles” (2Pd 3.16).

É uma grande arrogância crer que temos o necessário para compreender as Escrituras sem dedicado estudo. Você, que busca ser um servo humilde, provavelmente sabe que, dada a nossa capacidade mental limitada, a imensa profundidade da Bíblia, o distanciamento histórico, cultural, linguístico e moral que nos encontramos dela, você e eu precisamos de toda ajuda que conseguirmos a fim de entender melhor a Palavra do nosso Deus – não apenas por meio do diálogo e vivência com os irmãos ou ouvindo outros pregadores, mas também por meio de livros.

Veja o que o apóstolo Paulo, quando na prisão, necessitado de muitas coisas, pediu que Timóteo trouxesse: “Quando você vier, [...] traga os meus livros” (2Tm 4.13). Comentando esse verso, o chamado “príncipe dos pregadores”, Charles Spurgeon, disse: ‘Era inspirado por Deus, e ainda assim queria seus livros! Teve experiências mais profundas com Deus do que muitos homens, e ainda assim queria seus livros! Foi arrebatado até o terceiro céu e viu coisas que ao homem é vedado dizer, e ainda assim queria seus livros! Escreveu a maior parte do Novo Testamento, e ainda assim queria seus livros.’

Se você, pregador, prescinde dos livros sob a desculpa de possuir o Espírito para lhe guiar, saiba que caiu num engodo, pois aprouve a esse Espírito guiar-nos também por meio dos membros do corpo de Cristo, que ministram sermões, palestras, classes bíblicas, conversas informais e escrevem livros para a edificação da igreja (1Co 12.4-29).

Rejeitar a instrução advinda dos livros é rejeitar um dos meios de instrução que o próprio Espírito Santo proveu. Ele veio para convencer “o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8), não para fazer de você um preguiçoso no estudo da Bíblia e dos recursos disponíveis para melhor entendê-la. Talvez, Ele esteja tentando lhe convencer neste exato momento acerca desse pecado e do justo juízo que lhe sobrevirá caso você não se arrependa da sua falta de estudo criterioso.

Assim como o fato de Deus lhe guardar não anula a sua necessidade de olhar ao atravessar a rua, o fato de o Espírito Santo lhe guiar não anula a sua necessidade de estudar, pois Ele “não lhe transmitirá miraculosamente o que você pode adquirir estudando” (Augustus Nicodemus Lopes). Logo, devo lembrar-lhe que não, amigo, não existem atalhos.

Obviamente, cada um terá seu ritmo. Alguns, por questão de tempo, vocação, escolaridade, ou mesmo de capacidade cognitiva, conseguirão se dedicar muito mais do que outros. Só não há desculpa para que você estagne no estudo dedicado e responsável da Bíblia, despreze o uso das ferramentas orais ou escritas que o corpo de Cristo, movido pelo Espírito, produz a fim de melhor entendê-la e edificar a comunidade da fé e, ainda assim, se diga cristão – e um cristão que suba ao púlpito.

Em nome de Jesus, estimado pregador, reconheça suas limitações e tenha humildade diante da Palavra de Deus, buscando o máximo de recursos a fim de melhor interpretá-la e ensiná-la.

Alguns não são preguiçosos nem arrogantes e até estudam, mas de forma errada, amontoando textos fora de contexto sem que o saibam. Muitos precisam apenas de instrução quanto ao que de fato consiste um estudo responsável das Escrituras. Por isso, precisamos cobrar amorosamente tal instrução de nossos líderes e de nós mesmos para que a persigamos também individualmente. Na bibliografia recomendada no último capítulo deste material, há algumas obras a fim de que você possa se aprofundar um pouco mais e, a partir delas, buscar mais materiais sobre o assunto.


2.3 Cuidado com a criatividade

Quando você não estuda detidamente o texto que vai pregar, fatalmente sucumbirá ao fácil e enganoso caminho de ser criativo na interpretação dele.

É possível pregar um lindo sermão e deixar o povo maravilhado ao falar coisas que ele nunca havia enxergado naquele verso. Contudo, por vezes isso ocorre porque o que o pregador disse simplesmente não é o que aquele texto diz mesmo.

Pode o pastor pensar que com a sua eloquência fantasiosa fez grandes coisas na alimentação do rebanho de Deus; ou os ouvintes podem pensar que nunca antes ouviram temas tão belos, que nunca viram a verdade revestida de linguagem tão bela, e, como Deus lhes foi apresentado em Sua grandeza, sentiram um ardor de emoção. Mas examinem da causa para o efeito todo esse êxtase de sentimento causado por essas fantasiosas apresentações. Poderá haver verdades, mas muitas vezes elas não são o alimento que os fortalecerá para as lutas da vida diária (WHITE, E. Evangelismo, p. 182).

Certa vez, ouvi de um conhecido que pregou sobre o seguinte verso: "Aconteceu que, ao aproximar-se [Jesus] de Jericó, estava um cego assentado à beira do caminho [...]" (Lc 18.35) e fez a seguinte interpretação: “Irmãos, esse cego é o crente que está cego em seu pecado e não está firmado no caminho de Deus, por isso, está ‘à beira do caminho’...”. Sem dúvida esse pregador é um crente fiel, muito bem intencionado, e essa parece ser uma aplicação muito bela e piedosa do texto. Apesar disso, deve ser rejeitada simplesmente porque não é isso o que o texto diz. E há um sério problema quando nos ocupamos em pregar o que o texto não diz: deixamos de pregar o que ele diz.

Compreendemos a boa intenção de quem incorre nesse tipo de erro, pois geralmente pretende tornar relevante o texto antigo ao público atual. Contudo, creia, você não precisa tornar o texto bíblico relevante. Ele já o é. Você precisa apenas explicá-lo. E não há como explicar o texto fidedignamente recorrendo a tais artificialismos.

O tipo de interpretação que o pregador acima fez do texto de Lucas é muito comum e se chama alegorização. Interpretar um texto, porém, não consiste em metaforizar seus elementos encaixando nele belas lições espirituais que não estão lá de fato. Quando Lucas escreveu, pretendeu falar de um cego literal, à beira de um caminho literal e tinha coisas específicas a comunicar com tais verdades.

Não há como entender um texto com exercícios de imaginação, mas de transpiração, isto é, com “sangue, suor e lágrimas”, debruçando-se sobre ele, estudando e orando até entender o que o autor disse e estar apto a transmitir isso à audiência.

Imagine que você escreva um relato comovido cobrando providências urgentes das autoridades acerca da carência que idosos tem enfrentado em determinado asilo. Então, interpretassem seu apelo como se aqueles idosos estivessem sofrendo de carência amorosa e simplesmente lhes arranjassem pares românticos. Assim como você tem uma intenção quando escreve algo, os autores bíblicos também. Logo, não seja imaginativo aqui. Por mais bem intencionado ao fazer isso, você não tem esse direito.

Com razão você se revoltaria se as autoridades se justificassem dizendo que namorar é saudável e que cada um pode entender de uma forma o que você disse. Sem dúvida você gostaria que buscassem entender apenas o que você disse, e não que fossem criativos nesse momento. Então, não faça isso com a Santa Palavra.

No momento em que nossa vida ou direitos estão em jogo, como quando ao ler a bula de um remédio, um testamento ou um trecho do Código de Defesa do Consumidor, deixamos a criatividade de lado, pois precisamos entender fielmente o que o autor disse. Por que manifestamos um respeito tão menor para com o Autor das Sagradas Escrituras?

Mesmo quando você escreve uma poesia, que é um gênero literário mais aberto a subjetividades, há coisas que você quer dizer e coisas que você não quer dizer com aquele texto. Com a Bíblia não é diferente. O autor teve uma intenção com o texto que escreveu. Seja fiel a ela.

A criatividade certamente é um dom de Deus, mas ela é sua inimiga no momento em que estiver interpretando um texto. É ótimo que você seja criativo em sua didática ao transmitir o significado da passagem, mas não seja criativo em sua forma de chegar ao significado dela. As autoridades da ilustração poderiam usar livremente a criatividade na hora de arranjar recursos financeiros para suprir a carência do asilo, mas não na hora de interpretar que tipo de carência era essa.

Assim, após encontrar o significado do texto, você pode e deve buscar formas criativas de fielmente transmiti-lo, mas apenas para clarear ao povo o significado que já está lá e que você encontrou por meio de atencioso estudo, e não exercitar a criatividade para imaginar “belos” e “profundos” significados que não estão no texto. Atenha-se ao texto. Não ensine nenhum significado que não possa ser devidamente apontado no texto. Por mais belo e profundo que seja o significado que você imaginou, ele não pode competir com o significado que o próprio Deus quis comunicar com aquelas palavras. Não diga em nome dEle o que Ele não disse.

A meus irmãos do ministério, quero dizer: Pregue a Palavra; inste “a tempo e fora de tempo” (2Tm 4:2). Não ponha no fundamento madeira, feno e palha – suas próprias suposições e especulações, que a ninguém podem beneficiar. Cristo não reteve nenhuma verdade essencial a nossa salvação. As coisas que são reveladas são para nós e para nossos filhos, mas não devemos permitir que nossa imaginação estruture doutrinas concernentes a coisas não reveladas (WHITE, E. Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 173).

Muitos leem e ouvem a Palavra buscando novidades. Ao que parece, a Palavra de Deus por si só é monótona demais para alguns, de modo que precisam “apimentá-la” com novas e excitantes interpretações. Não faça da criatividade o critério para aferir uma mensagem, e sim a fidelidade dela ao texto utilizado.

Busquem os que desejam alguma coisa nova aquela novidade de vida que provém do novo nascimento. Purifiquem sua alma pela obediência à verdade, e procedam em harmonia com as instruções de Cristo ao mestre da lei que indagou o que devia fazer para herdar a vida eterna (WHITE, E. Obreiros Evangélicos, p. 314-315).

Quando você acha necessário florear e “enriquecer” o significado do texto bíblico com sua brilhante criatividade, você está tratando a Palavra de Deus como insuficiente. Por favor, irmão, tenha muito cuidado com isso.


Vanedja Cândido Barbosa

IASD de Funcionários II, João Pessoa, Paraíba.





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Outros textos de Vanedja publicados no Nossas letras




Outras fontes:



Comentários

  1. Há tempos ela fez a gentileza de partilhar comigo o texto.

    Foi como um divisor de águas pra mim.

    Repassei pra muita gente!

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