Explicando o texto ou usando-o como gancho? - parte 3



É comum que se leia um texto cujo tema seja, por exemplo, santidade e, em vez de explicar o que aquele texto específico diz sobre santidade, o pregador imediatamente passa a falar qualquer coisa que ele entende sobre o tema. O pensamento dele sobre o assunto pode até não estar errado, mas não é reto nem respeitoso para com a Palavra de Deus e os ouvintes transmitir ideias que não estão no texto que você leu. Do contrário, você usará o texto apenas como gancho para dizer o que você já tem a dizer sobre aquilo, e a Bíblia será apenas um acessório. Logo, por mais belas e santas que pareçam suas ideias, não foi a Bíblia que falou, mas você. Assim, jeitosamente, você sonegou a Palavra de Deus aos ouvintes. E isso é muito grave.

Quer um exemplo mais prático? Tomemos um bem conhecido verso: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo 2.15). Geralmente, funciona assim: o irmão lê esse verso e se ele acha que usar roupa vermelha na plataforma é mundano (sim, há quem ache isso; sobretudo em alguns lugares do interior do Nordeste), ele vai usar esse verso contra tal prática sem se preocupar com a definição que o próprio autor fornece no texto.

Muitos podem considerar ridículo relacionar mundanismo à roupa vermelha na plataforma, ao mesmo tempo em que fornecem ao texto uma interpretação tão não-bíblica quanto. Porém, como a envolvem em uma roupagem aparentemente santificada, e não tão risível e burlesca aos olhos da maioria, creem que sua interpretação seja válida – ainda que jamais tenham se dado ao trabalho de constatar se ela é mesmo ensinada naquele texto.


2.4.1. Por que há poucos sermões que explicam o texto?

Note que a questão sobre o mundanismo em 1 João 2.15 não termina nesse versículo. No verso imediatamente posterior a esse, o próprio apóstolo João se preocupa em definir o que ela chama de mundanismo: “Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo” (v. 16). Veja que uma das coisas que o autor elenca é a soberba. Porém, em quantos, dos incontáveis sermões sobre mundanismo que você já ouviu ou pregou, a plateia foi confrontada com palavras como: “Se você é soberbo, você é mundano”? Tenho feito essa pergunta a inúmeras pessoas, de vários lugares. Sem exceção, todas tem ficado chocadas ao perceber que nunca viram tal verdade bíblica ser ensinada nos sermões que já pregaram ou ouviram contendo esse texto.

E assim, sempre escapam da justa condenação bíblica os mundanos soberbos, mas que não vão a lugares X, não ouvem músicas Y nem usam roupas tidas como mundanas. É possível utilizarmos nossos hábitos supostamente santificados, nosso vestuário modesto e tradicional ou nossas músicas sacras justamente como veículos de nosso mundanismo, já que podemos nos ensoberbecer por não irmos aonde todo mundo vai, não ouvirmos o que todo mundo ouve ou não vestirmos o que todo mundo veste. Não que devamos agir sempre como todos agem, o problema é a soberba (mundanismo) que pode se manifestar por meio disso (Mt 6.1-8; Lc 18.11-14), e que muitas vezes é ignorada. Esse tipo de mundano insuspeito é por vezes acobertado em nossos arraiais e possui crescimento livre neles por falta de instrução bíblica em nossas igrejas.

Isso sem falar de outros textos sobre o mesmo assunto cuja real mensagem é totalmente negligenciada, como Tiago 4.4: “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus”. A pessoa lê o texto e passa a usá-lo para condenar tudo o que ela mesma encaixaria na definição de “mundo”, sem se preocupar com o que autor disse sobre isso. A condenação à “amizade do mundo” aparece em Tiago num contexto de repreensão à fofoca, inveja, contenda e orgulho (Tg 3.6-18; 4.1-16), pois é exatamente o mundo que age de tal forma. Enquanto isso, as pessoas continuam sendo mundanas ao fazerem fofocas e contendas e manifestarem orgulho por não se enquadrarem na cômoda definição de mundanismo que criaram para si.

Veja, portanto, como a questão é séria. Podemos estar fomentando o mundanismo por meio de nossos púlpitos, mesmo com a pregação mais pretensamente conservadora. Muitos são aplaudidos ao dizerem: “O mundo está entrando na igreja”. Deveríamos, porém, ficar surpresos com a ingenuidade de tais pessoas. Conforme a Bíblia, o mundo já entrou na igreja há muito tempo, por meio da soberba, das intrigas, da luta pelo poder. Na verdade, o mundo entrou na igreja e subiu ao púlpito.

Embora esses textos sejam tão usados, e tais condenações estejam diretamente escritas neles, ainda assim é difícil vermos sermões que ensinem o que os textos dizem. Sabe por quê? Veja alguns motivos:


2.4.1.1 A Bíblia como uma coleção de frases soltas

Temos o triste hábito de olhar para a Bíblia como uma coleção de frases soltas, cujos versos não se relacionam entre si. “Encaramos a Bíblia como um jogo de ‘pega-vareta’, em que retiramos um verso sem tocar os que o cercam” (Josemar Bessa). Tendemos a ver cada versículo como uma unidade de pensamento completa, enquanto, por vezes, o pensamento do autor sobre determinado tema pode tomar vários capítulos.

Você não pode escolher duas ou três sentenças de um livro e crer que entendeu o pensamento do autor. O livro de 1 João consiste em uma carta. Dificilmente alguém pegaria uma carta ou e-mail, leria apenas a terceira e a quarta linha e creria que entendeu o que o remetente tinha a dizer. Contudo, costumamos achar normal fazer isso com a Bíblia.

Vale lembrar que a divisão em capítulos e versículos começou a surgir cerca de 12 séculos após o último livro da Bíblia ser escrito. Logo, apesar de proveitosa, tal divisão não é inspirada. Ela é útil a fim de localizarmos a passagem. Após localizarmos, porém, devemos ignorar essa divisão no momento em que estivermos interpretando o texto, impedindo que ela prejudique nossa busca pelo contexto e intenção do autor.


2.4.1.2 Conceitos exportados para o texto

Em decorrência do erro descrito acima, transferimos nossos próprios conceitos para o texto e o lemos à luz destes, e não o contrário. Não deixo que o texto me diga o que devo pensar sobre mundanismo, mas levo ao texto meu pensamento prévio sobre o assunto.

Em virtude dessa forma errada de enxergar a Bíblia: isolando suas frases do todo e moendo suas passagens em pequenos fragmentos desconexos, não nos preocupamos em ver onde começa e onde termina cada assunto no texto. Aliás, provavelmente sequer sabemos que deveríamos nos preocupar com isso. Então saímos à pesca de passagens que simplesmente tragam determinada palavra sobre a qual nós queremos falar, passando por alto o uso que o autor teve o cuidado de fazer dela naquele texto específico. E assim “é muito fácil cair na armadilha de derramar o que [supomos que] conhecemos sobre [um assunto] nos diferentes vasilhames constituídos de diferentes versículos das Escrituras, sem dar seriamente a cada texto a oportunidade de antes de mais nada nos ensinar o que esse texto deseja nos dizer” (KAISER JR., 2009, p. 60).

O que é importante a ser dito acerca de um texto já está nele e no contexto histórico que o envolve. O que você e eu achamos importante dizer sobre uma passagem não possui qualquer valor. É o texto que determina o que importa dizer acerca dele. Lembre-se: ao pregarmos o que o texto não diz, deixamos de pregar o que ele diz.

Contos ociosos são introduzidos como verdades importantes, e, para alguns, eles são na verdade estabelecidos como pontos de prova. [...] Satanás sabe que, se ele pode fazer com que homens e mulheres se absorvam em insignificantes detalhes, as questões de maior relevância serão deixadas sem atenção. Ele fornecerá abundância de matéria à atenção dos que estiverem dispostos a pensar em assuntos fúteis, sem importância. A mente dos fariseus estava absorvida com assuntos destituídos de valor. Eles passavam por alto as preciosas verdades da Palavra de Deus para discutir as tradições transmitidas de geração a geração, as quais de maneira alguma diziam respeito a sua salvação. E assim, hoje, enquanto momentos preciosos estão passando para a eternidade, as grandes questões da salvação são menosprezadas por alguma falsidade (WHITE, E. Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 170-171).

Obviamente, é impossível nos aproximarmos de um texto sem qualquer ideia preconcebida, mas devemos estar em constante vigilância quanto a isso.

[Nem] todas as vezes que alguém vai à Bíblia, já com ideias [preconcebidas], fatalmente, interpretará a passagem de forma errada. [...] Contudo, todos devem estar atentos, pois quando são procurados textos para confirmar nossas ideias, temos a tendência de não perceber neles aquilo que não nos interessa, e menos ainda aquilo que vai contra o nosso pensamento. Os olhos e a mente predisposta podem nos enganar facilmente (GUSSO, 2008, p. 82).

Deixamos que nossa cultura interprete o texto, e não o oposto. Se vivemos em uma cultura que diz que é mundano usar cavanhaque, provavelmente, essa será a interpretação que daremos, e, dificilmente, olharemos para o texto perguntando-lhe o que ele mesmo chama de mundano.

Ouvimos muito contra tirar um texto do contexto, mas podemos cair no erro de achar que apenas outros o fazem, e nós não. É possível, porém, que pratiquemos isso constantemente, pois sequer fomos ensinados a como fazer para de fato respeitar o contexto de uma passagem e a intenção do autor.


2.4.1.3 Predileção por interpretações convenientes

Sobretudo em textos como 1 João 2.15, tendemos a abraçar qualquer interpretação que possua aparência de santidade. Assim, qualquer coisa que eu não goste ou que fui culturalmente ensinada a achar estranha, automaticamente me encarrego de classificar como “mundana” e fica tudo bem. Não serei incomodada por isso, já que conferi ao texto um significado aparentemente santo; então, tal significado só pode estar certo, pensamos. Mesmo porque é muito mais fácil abandonar uma roupa vermelha na plataforma, um topete, um tênis da moda, ou qualquer coisa que eu queira definir como mundana, do que abandonar a soberba. Não que o exterior não precise ser mudado em alguns casos, porém, é muito mais cômodo e light mudar o exterior do que o interior (Mt 23.26-27). Quando os chamados “liberais” vierem me aborrecer, eu simplesmente saco 1 João 2.15. Eles me acusarão de coisas genéricas, como “retrógrada” e afins, mas, por também não conhecerem a Bíblia (e tampouco se importam em fazê-lo), não poderão me acusar (não com fundamento) do crime de distorcer a Palavra de Deus. Então fica tudo por isso mesmo.

Esquecemos que os fariseus usavam justamente toda a santidade, regras e rigor que pregavam para rejeitar as Escrituras em prol de suas conveniências (Mt 23.14-28; Mc 7.5-13). Tal rejeição não é de forma alguma monopólio dos chamados “liberais”. Enquanto Jesus se preocupou em combater tanto o tradicionalismo quanto o liberalismo de sua época (Lc 13.10-16; 14.1-5; Mt 19.3.12; 22.23-29), muitos em nossa época tem trabalhado em um combate unilateral ao erro. Num bom exemplo de dois pesos e duas medidas, muitos se concentram em combater o erro do liberalismo; outros, em combater o erro do tradicionalismo; enquanto raros se concentram em combater o erro de não se pregar a Bíblia, seja esse não pregar a Bíblia executado sob o manto liberal ou conservador.

Portanto, “liberais” e “conservadores” se merecem. Em geral, amam suas opiniões, não a Bíblia. Nenhum deles deveria receber afagos por tais coisas. Fora com isso! Chega de aceitarmos interpretações por parecerem conservadoras ou “descoladas”. Deus não lhe chama para ser, necessariamente, liberal ou conservador, mas bíblico.

Poderíamos analisar ainda os versos usados fora de contexto pelos chamados “liberais” (por exemplo, 1Sm 16.7 ou Mt 7.1). Contudo, creio que você já entendeu o ponto. Somos inclinados a valorizar interpretações simplesmente por nos parecerem convenientes (sejam liberais ou conservadoras), e não por analisarmos o contexto devidamente, fazermos as perguntas certas ao texto (“Quem escreveu?”, “A quem?”, “Em qual circunstância?”, “Por quê?”, “O texto fornece algum indício acerca de como as pessoas as quais ele se dirigiu originalmente o entenderam?”, “Onde começa e onde termina este assunto?”, “A qual gênero literário este texto pertence – poesia? Parábola? Carta?”, “Quais os princípios de interpretação a serem usados para a compreensão desse gênero literário?”, “Como tal palavra se relaciona com o restante da frase?”, “Esta conjunção conclui, nega ou completa o que foi dito anteriormente?” etc.) e as respondermos a partir de uma análise cuidadosa do próprio texto. Deixe que o texto se encarregue de fornecer suas próprias definições.

Muito cuidado para que o texto não se torne o gancho onde pendurar suas ideias. Não é porque sua ideia parece original, criativa, piedosa ou conservadora que é bíblica. Como já dito, Satanás tem tipos de carnalidades diferentes para cada tipo de pessoa. Não importa se a carnalidade dos libertinos de Corinto ou dos rigorosos de Colosso (Cl 2.20-23), para ele o que importa é que a Bíblia não seja pregada.


2.4.1.4 Pragmatismo

 Alguns deixam de ensinar o significado correto de um texto por usarem a Bíblia de forma pragmática. Isto é, eles sabem que usar roupas imorais é pecado (segundo a Bíblia é mesmo), logo, não se constrangerão em utilizar 1 João 2.15 para falar contra tal coisa, mesmo que esse texto nada diga sobre isso. “Mas ele é útil para convencer o povo desse erro”, racionam tais pessoas. Porém, o pensamento maquiavélico de que a única coisa que importa é o efeito prático de algo, de que “os fins justificam os meios” é diametralmente oposto à honestidade que as Sagradas Escrituras nos exortam a buscar.

Assim, no afã de erigir uma verdade bíblica perante os ouvintes, muitos acabam por derrubar outras verdades igualmente bíblicas. Devemos prezar por “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama” (Fp 4.8, grifo nosso). Se tal verdade não é ensinada naquele texto, seja honesto com ele e não o utilize para pregá-la. Se o que você estiver pregando for mesmo a verdade, haverá outras passagens que digam exatamente aquilo. Você não precisa, portanto, torturar um texto até que ele diga o que não diz. É possível defender a verdade por meio de textos errados, e, se fizermos isso conscientemente, pensando apenas nos fins práticos de tal ato, estaremos mentindo contra o Senhor. A verdade não precisa da mentira para subsistir.

Nunca nos permitamos o emprego de argumentos que não sejam inteiramente retos. Eles podem fazer calar um adversário, mas não honram a verdade. Devemos apresentar argumentos legítimos, que não somente façam silenciar os oponentes, mas que suportem a mais acurada e perscrutadora investigação (WHITE, E. Evangelismo, p. 166).

 A questão do mundanismo foi apenas um exemplo dentre uma infinidade que poderiam ser citados. A esta altura você já deve ter percebido a gravidade da situação que paira sobre nossos púlpitos e que, sim, precisamos correr bastante para compensar o atraso em nossa instrução bíblica. Não basta abrir a Bíblia e ter boas intenções é preciso ser criterioso na explicação do real significado do texto. Você, sobretudo como pregador responsável, precisa ter plena consciência disso e não medir esforços para estudar de modo a ter condição de saber se você, de fato, está explicando o texto ou usando-o como gancho para ideias que não estão nele.

Vanedja Cândido Barbosa

IASD de Funcionários II, João Pessoa, Paraíba.









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