Explique o texto. Pregue a Cristo

Urgente Apelo aos Pregadores – Parte 1

Por Vanedja Cândido Barbosa

Leram no livro, na lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia” (Neemias 8.8). “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Coríntios 2.1-2).

 Amigo pregador, não lhe escrevo prioritariamente com a pretensão de ensinar-lhe sobre pregação, mas de refletirmos juntos sobre o tema. Sem dúvida, muitos dos que estão lendo estas palavras são pregadores experientes, com muito a ensinar a jovens como eu, não apenas sobre pregação, mas sobre a vida como um todo. Apesar de possuir também intenção instrutiva, o intuito aqui é mais de desabafo; um rogo entristecido de alguém que percebe, à luz das Escrituras, que temos coisas a, juntos, melhorarmos em nosso púlpito. Então, tudo isso se dirige também a mim. Se acharmos que não nos falta melhorar nada, certamente fomos infectados pelo jactancioso espírito de Laodiceia – “rico sou e de nada tenho falta” (Apocalipse 3.17).

Este é tão-somente o apelo angustiado de alguém que, tendo em vista a situação, por vezes teme sair do culto congregacional com fome da Palavra de Deus. Alguém que teme levar um amigo e ele não sair de lá com sequer um vislumbre de Cristo. Obviamente, ninguém deve deixar para se alimentar apenas no culto público, mas é extremamente lastimável – pois desonra a Deus – que a falta de alimento bíblico tenha se tornado mais regra do que exceção em muitos lugares.

Não falo, necessariamente, de sermões maçantes, mas de sermões que, por mais empolgantes, são fracos no ensino da Palavra, destituídos de Cristo. E sei que muitos tem a mesma angústia que eu. Falo com gente de todo o Brasil, membros da minha denominação e de outras; em todos os lugares, parece estar havendo um paulatino despertar para o fato de que há algo errado em nossos púlpitos.

Por que esse texto bíblico no seu sermão?

 Assim, querido orador, urge dizer a você que aprecio muito ilustrações emocionantes, provavelmente simpatizarei com sua história pessoal, interesso-me sobre temas do momento, amo dar risada de uma boa piada, mas, por favor, se você tiver de escolher apenas uma coisa para o seu sermão, que seja esta: empenhe-se em explicar o texto bíblico, servindo como simples sinalizador que indique como, por meio daquele texto, podemos chegar a Cristo (nos próximos textos explicarei um pouco o que quero dizer com isso).

Porque, no fim das contas, eu posso ver histórias emocionantes no programa da Oprah, informar-me sobre notícias do Brasil e do mundo no jornal ou assistir a um show de Stand-up Comedy. Porém, quando ouço um sermão, eu realmente necessito entender o que o Espírito Santo buscou dizer com o texto que você usou – o qual não foi inserido na Bíblia por acaso, portanto, não deveria estar no seu sermão como artefato decorativo ou meramente para cumprir um protocolo, tampouco para servir de passaporte para as suas próprias belas ideias. Pregador, eu necessito desesperadamente saber o que aquele texto diz sobre Cristo.

Não utilize o texto como pretexto para o que você tem a dizer, não importa quão espiritual seja. Sei que você deve ter muitas coisas interessantes a passar, mas, imploro, inverta essa ordem. Faça dessas coisas um pretexto para explicar o texto e apresentar Cristo na passagem que você trouxe. Se não puder fazer isso com as coisas interessantes que você tem a dizer, por favor, não as diga em seu sermão.

Será que você pregou?

Amado pregador, não quero ser rude, mas honesta. Gostaria que você soubesse que estou ali para ouvir a Palavra de Deus, não a sua. Estou ali para ver Cristo, não você. Estou ali para ser alimentada com o Pão Vivo que desceu do céu, e não meramente entretida ou abarrotada de moralismo vazio.

De coração, caro amigo, não me interessa, necessariamente, quantos versos você usa, quantas curiosidades históricas, científicas ou mesmo bíblicas você conhece, tampouco sua aparência de santidade ao apontar pecados. Se tudo não servir unicamente ao propósito de glorificar ao Pai em mais conhecimento do Filho nos versos e dados que você utiliza, o alimento servido consistirá em calorias vazias.

Francamente, em nada me interessa se eu não puder sair do seu sermão entendendo melhor um texto bíblico e enxergando o Filho através dele. Você está ali unicamente para me ajudar nesta missão. Por favor, meu irmão, cumpra-a.

Preciso de sermões que me alimentem, não que me façam apenas sentir-me bem. Lembre-se: você não foi chamado para manipular emoções, mas para “maneja[r] bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2.15). Logo, saiba que, por mais que o povo seja levado às gargalhadas ou às lágrimas enquanto você prega, por mais que você pense chamar o pecado pelo nome durante o sermão e por mais parabéns e tapinhas nas costas que você receba ao final dele, se você não explicou o texto bíblico aos ouvintes e não os fez ver Cristo nele, você simplesmente não pregou.

Deus não lhe chamou para obter resultados

Sei que muitos preferem ser entretidos e mimados, confortados com autoajuda ou confrontados com pecados imaginários (baseados em tradições que não podem ser encontradas na Bíblia, mas que transmitem uma aparência de santidade aos que aderem ao combate desses supostos pecados). Portanto, esteja ciente que muitos não apreciarão seu esforço de simplesmente explicar o texto e mostrar Cristo, mas o Pai Celeste certamente apreciará e se alegrará em você. A ideia não é agradá-lO? No fim, isso se resume a quem você teme – se a Deus ou aos homens.

Ademais, há os que estarão ali sedentos por Cristo. Os que não estiverem, devem ser pacientemente educados a estar. Você precisa apenas ser um canal do Espírito Santo para isso. Caso não consiga educar a todos – e não pense que conseguirá –, não se aflija. Você é instado à mesma tarefa para a qual Paulo instou a Timóteo: “Prega a Palavra” (2 Timóteo 4.2). Ponto. Independentemente dos resultados que você alcance, pois a pregação fiel da Palavra é, em si, um resultado.

Deus é glorificado mesmo quando você prega fielmente a Palavra e a resposta é ódio ou apatia, pois fica atestada a justiça divina a todo o Universo (Deuteronõmio 30.19). Deus é glorificado mesmo que você pregue e nem uma única alma responda com fé. Quem deve se ocupar nisso é Ele, não você. Ocupe-se unicamente em, com diligência, coragem e amor, ensinar a Palavra e mostrar Cristo.

Deus não lhe chamou para obter o que se costuma chamar de “resultados”; Deus lhe chamou para pregar a Palavra e exaltar Seu Filho. Noé pregou incansavelmente a todo o mundo de então, mas levou apenas sua família consigo para a arca. Pedro, que levou milhares à conversão em um só dia, não foi um pregador maior do que Noé, a quem o próprio Pedro chamou de “pregador da justiça” (2 Pedro 2.5).

Pode ser que você morra e não veja a semente que germinará em alguns posteriormente; outros são deliberadamente bodes inveterados no meio das ovelhas. Pregue assim mesmo. Ensine a Bíblia e pregue a Cristo, não importa o que aconteça. É natural a tristeza ao ver alguns apáticos ou com ódio da verdade, mas não se aflija se, ao pregar a Palavra, você não atingir os resultados esperados. Aflija-se, sim, com a simples ideia de deixar as ovelhas com fome.

 Alimentando ovelhas ou entretendo bodes?

As ovelhas estarão diante de você com o mesmo clamor de alguns gregos a Filipe: “Queremos ver Jesus” (João 12.21). Ou poderão ser ensinadas a clamar por isso. Adaptando o dito de Spurgeon, concentre-se em agradar o Pai e, consequentemente, alimentar as ovelhas dEle, e não em entreter e mimar bodes.

Sim, irmão, você não está ali para entreter, demonstrar conhecimento ou desenvoltura retórica. Você está ali para ensinar Cristo e Sua Palavra. Por mais que muitos não valorizem isso e julguem um sermão com base no carisma do pregador, na capacidade de fazer a plateia rir ou chorar, habilidade de persuasão, na destreza mental que ele apresenta ao não recorrer às anotações e citar vários textos de cor (coisas que não são erradas, mas que não deveriam ser o foco) ou na performance sensacionalista do orador, tais coisas não são o propósito de Deus com a pregação. Então, resista fortemente à tentação de dar a todos os que eles querem. Em vez disso, dê-lhes o que precisam: Cristo e ensino da Palavra.

E quando falo em entreter, não me refiro apenas a sermões cheios de piadas ou emocionalismo. A questão é que não há muitos oradores dispostos a abrir a Bíblia e realmente explicar o texto ao povo, em vez de assumir a cômoda postura de transformar o sermão num desfile de textos fora de contexto, frases de efeito, palavras duras ou “água com açúcar” – depende do tipo de carnalidade que se queira alcançar: se dos liberais ou dos tradicionais. Apesar da sinceridade de quem estiver no púlpito, Satanás tem tipos de carnalidades diferentes para cada tipo de pessoa. Não importa se a carnalidade dos libertinos de Corinto ou dos ascetas de Colosso (Cl 2.20-23), para ele o que importa é que a Bíblia não seja pregada.


Arregace as mangas

A situação é pior do que muitos imaginam. Muitos sermões tem sido exatamente o oposto de pregar a Cristo e Sua Palavra. Somente a certeza de que, a despeito de tudo, Cristo ainda guia Seu povo, para não desanimarmos de vez. Mas não adianta apenas reclamar. Ore e chore por sua igreja. Estude a questão. Reúna os líderes e pregadores para conversar séria e amorosamente sobre tudo isso. Veja com seu pastor, com você mesmo ou outros que possam ministrar cursos de interpretação bíblica e de pregação cristocêntrica. Estude também por si só, para que tenha condições de constatar se estão ensinando corretamente (cf. Ato9s 17.11).

Arregace as mangas! Escrever e enviar estes textos foi uma das formas que encontrei de arregaçar as minhas. Há muitas outras. Encontre uma. Dê um jeito! Só não deixe como está! Levante-se, meu irmão! Levante-se contra sermões que desonram a Deus pregando apenas distrações (por mais interessantes e santificadas que pareçam), mas não pregam a Cristo nem explicam Sua Palavra.

Você está apto a assumir o púlpito?

Não é fácil. Por isso, não à toa Tiago roga: “Meus irmãos, não sejam muitos de vocês mestres, pois vocês sabem que nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor” (Tiago 3.1). Logo, o púlpito não é um lugar por onde qualquer um pode passar a fim de ter o ego massageado, ser visto pelos homens ou propagar suas próprias ideias (liberais ou conservadoras). O púlpito é um lugar onde a Palavra é cuidadosamente explicada e o Salvador exaltado. Se você não tem buscado capacitar-se para isso, por favor, pelo bem do corpo de Cristo e do seu mesmo, não assuma esse lugar. Você terá de prestar contas por isso. Você será julgado “com maior rigor”.

Busque estar espiritual e intelectualmente capacitado a explicar claramente a Palavra, de modo que todos possam entendê-la (Neemias 8.8) e decida não pregar nada “senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Corintios 2.2). No que depender de você, que ao fim do sermão a exclamação não seja: “Que excelente pregador! Como sua palavra é poderosa!”, e sim: “Que excelente Salvador! Como Sua Palavra é poderosa!”.

Vanedja Cândido Barbosa.
IASD de Funcionários II, João Pessoa, Paraíba.


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Outros excelentes textos de Vanedja Barbosa publicados no Nossas letras




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