O que Deus requer?: uma análise crítica da teologia da ‘última geração’

por Roy Adams, Ph.D - Editor
associado da Adventist Review

fonte: Revista Parousia: Perfeccionismo, ano 7, nº2, 2º semestre de 2008

“O presente artigo analisa criticamente a teologia da “última geração”, segundo a qual Cristo voltará apenas quando o povo de Deus alcançar a condição de perfeição sem pecado.


O autor argumenta que Ellen G. White entendia “perfeição” não como a vitória sobre atos pecaminosos específicos, mas como amor abnegado, serviço em favor de outros e maturidade cristã. As Escrituras, por sua vez, mostram que Deus exigiu das gerações anteriores o mesmo elevado nível de santificação que exigirá da última geração.”1

Introdução

Em Apocalipse 14, João retrata os 144 mil em pé com Jesus, sobre o monte Sião.1 Eles “não se macularam com mulheres, porque são castos” (v.4).2 Os 144 mil representam as “primícias para Deus e para o Cordeiro, e não se achou mentira na sua boca; não têm mácula” (v. 4, 5).

Qual o significado dessa passagem? Porventura, Deus requer da geração final de crentes um padrão ou qualidade de justiça não esperada das gerações anteriores? Quando chegarem ao Céu, os membros da última geração da Terra serão capazes de reivindicar, na presença dos remidos das gerações anteriores, que sua justiça era de uma qualidade mais elevada que a dos demais? Essas são as perguntas com que nos defrontamos.


Perfeição absoluta

Para M. L. Andreasen3 e aqueles que seguem sua compreensão, a resposta a essas indagações é um decidido “Sim”. Uma das principais preocupações subjacentes de Andreasen, em sua abordagem à doutrina do santuário, era enfatizar a necessidade de “perfeição absoluta” por parte da geração final de cristãos. A própria vindicação de Deus repousa sobre essa conquista, afirmava Andreasen. Por meio da ministração final de Cristo no santuário celestial, Deus demonstrará que a perfeição atingida por Cristo não era única, mas pode ser repetida nos santos do tempo do fim.4

No desenvolvimento de sua posição sobre esse tema, Andreasen chamava a atenção para Filipenses 3:12, 15. No verso 12, Paulo indicou que ele ainda não havia obtido a perfeição: “Não que eu ... tenha já obtido a perfeição; mas prossigo.” No verso 15, porém, ele reivindicou perfeição para si mesmo e outros: “Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento”.

Ao explicar essa aparente contradição, Andreasen argumentou que a perfeição mencionada no verso 15 é uma “perfeição relativa”. Essa espécie de perfeição foi atingida por Paulo e os crentes de seus dias, mas eles não atingiram a “perfeição absoluta” do verso 12. “Mas ninguém jamais atingirá esse estágio [de perfeição absoluta]?”, perguntava Andreasen. “Cremos que sim”, respondia ele, dirigindo a atenção dos leitores para a descrição dos 144 mil de Apocalipse 14:4, 5.5

Segundo ele, a segunda vinda de Jesus não ocorrerá até que esse nível de perfeição tenha sido atingido pela última geração.6 Essa justiça, afirmava Andreasen, é produzida em relacionamento com a purificação do santuário, a fase final da expiação realizada por Cristo. Esse é um entendimento de justiça “distintamente adventista”.7

Robert J. Wieland, concordando com Andreasen, afirma que em sua pregação dessa espécie de justiça, A. T. Jones e E. J. Waggoner foram além de Lutero. “Eles construíram sobre esse fundamento [lançado pelos reformadores] um grandioso edifício de verdade que é único e distintamente adventista do sétimo dia.”8

“Não que o Senhor tenha proibido gerações anteriores de atingir ‘a medida da estatura da plenitude de Cristo’ [Ef 4:13]” observa Wieland, “mas simplesmente nenhuma geração anterior de fato atingiu a condição postulada por Apocalipse para a esposa de Cristo – ‘cuja esposa a si mesma já se ataviou’ (Ap 19:7).”9

Embora os defensores da perfeição sem pecado possam se afastar assustados pela expressão “perfeição absoluta”, o conceito que eles sustentam a respeito da perfeição é virtualmente idêntico àquele mantido por M. L. Andreasen e A. F. Ballenger: Deus não pode permitir que o pecador entre no Céu se mesmo o mais leve resíduo de pecado manchar seu caráter, porque a admissão de até mesmo uma porção do tamanho de uma pequenina semente cresceria até que novamente contaminasse o Universo.10

É óbvio que essa declaração é correta se estivermos falando de pecado como 'pesha' (rebelião, desafio, intransigência, sacrilégio, revolta, independência de Deus, transgressão voluntária) ou sobre pecado como 'remiyyah' (fraude, engano, duplicidade). Mas quando compreendemos pecado também como 'chatta’ah' (errar o alvo) ou como ‘awon' (distorção moral), a declaração de Wieland torna-se imediatamente destituída de sentido e ilusória.

A mensagem de 1888, segundo esses adventistas, enfocava esse exclusivo conceito de justiça, uma ênfase completamente nova, desconhecida da teologia anterior – “uma singular nutrição espiritual que leva à ‘obediência de todos os mandamentos de Deus’”.11

A mensagem de 1888, segundo Robert J. Wieland e Donald Short, não foi meramente uma nova ênfase nas doutrinas de Martinho Lutero e João Wesley, nem mesmo dos adventistas pioneiros ... [Antes] foi o “início” de um conceito mais maduro do “evangelho eterno” [Ap 14:6] do que havia sido claramente percebido por qualquer geração anterior.12

Enquanto lia detidamente centenas de páginas dos escritos desses irmãos, eu continuamente indagava: “O que essas pessoas tanto procuram? O que esperam que a igreja faça?” Reduzida à sua essência, a ideia deles é que, assim como Jesus viveu, em carne humana pecaminosa, uma vida sem pecado de perfeição absoluta, assim devemos nós – por meio de sua expiação no santuário celestial – ser absolutamente perfeitos.

Somente quando a igreja atingir essa condição, Jesus virá. Essa, sustentam eles, foi a mensagem de 1888. Podemos deixar de pecar. Podemos ser perfeitos. Essa é a exigência de Deus para a geração final de crentes.


A posição de Ellen G. White

Como sabemos, a abordagem dos defensores da perfeição absoluta e sem pecado baseia-se quase que exclusivamente nos escritos de Ellen G. White.

Devemos, portanto, necessariamente, tratar brevemente a maneira como ela lidou com esse assunto. Todavia, não tentaremos aqui uma discussão integral de sua posição, mas é nosso propósito descobrir se Deus exige de nós, hoje, uma norma espiritual mais elevada que a das gerações anteriores.

George R. Knight, na obra The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness [O Guia do Fariseu para a Perfeita Santidade], oferece uma importante contribuição à Igreja, em sua cuidadosa busca por uma resolução para as declarações aparentemente conflitantes de Ellen G. White sobre perfeição e vida sem pecado. A abordagem de Knight não é idêntica à do presente artigo, mas as duas obviamente estão relacionadas. Trataremos, portanto, brevemente de alguns dos pontos que ele desenvolveu para depois apresentar nossa própria exposição.

George R. Knight inicia admitindo ousadamente que Ellen G. White apoiou a ideia de perfeição de caráter. Ela o fez, afirma ele, não meramente em relação à forense justificação pela fé (revestidos da perfeição imputada de Cristo), mas também em termos do “que Deus faz em nós através do poder dinâmico do Espírito Santo”.13 Em apoio desse ponto é apresentada uma lista de declarações de Ellen G. White, das quais as seguintes são representativas: “O Senhor requer perfeição de sua família redimida. Ele exige perfeição na formação do caráter.”14 “Devemos cultivar cada faculdade ao mais elevado grau de perfeição [...]

De todos é requerido perfeição moral. Nunca devemos abaixar a norma de justiça com o fim de acomodar à prática do mal, tendências herdadas ou cultivadas.”15 Ellen G. White chega a ponto de afirmar que “imperfeição de caráter é pecado”.16 Knight também chama a atenção para a ênfase de Ellen G. White sobre nos tornarmos semelhantes a Cristo no caráter: A própria imagem de Deus tem de ser reproduzida na humanidade. A honra de Deus, a honra de Cristo, acha-se envolvida no aperfeiçoamento do caráter de Seu povo.17

Essas declarações são enfáticas, e há outras semelhantes, mas Knight observa que há também declarações que servem de equilíbrio. [Cristo] é um perfeito e santo exemplo, dado para que o imitemos. Não podemos igualar o modelo, mas não seremos aprovados por Deus se não o copiarmos e, segundo a capacidade que Deus tem dado, assemelhá-lo.18

Ela ainda escreveu: Jamais podemos igualar o modelo; mas podemos imitá-lo e nos assemelharmos a Ele segundo a nossa capacidade.19

“Em outra ocasião”, disse Knight, “ela afirmou de forma explícita que ‘ninguém é perfeito [no pleno sentido] senão Jesus’”.20

Há muitos outros escritos de Ellen G. White que apresentam o mesmo conceito. Alguns poderiam desejar que ela houvesse tratado do assunto de forma mais sistemática. Mas embora essa abordagem houvesse sido útil para esclarecer o que Deus requer de nós, em realidade seria impossível para ela falar ou escrever com a espécie de precisão matemática que esperamos. Ninguém que escreve ou fala extensamente consegue fazer algo assim, pois sempre haverá aparentes contradições.

A respeito desse tema, estou convencido de que frequentemente Ellen G. White haja sido mal compreendida devido à falta de atenção suficiente ao contexto histórico no qual ela escreveu e aos assuntos específicos que ela estava tratando. Um exemplo ilustra essa situação. Certa vez, Ellen G. White escreveu: Ninguém se engane com a crença de que pode tornar-se santo enquanto voluntariamente transgride um dos mandamentos de Deus. O cometer o pecado conhecido faz silenciar a voz testemunhadora do Espírito e separa a alma de Deus.21

Alguns imediatamente tirariam essa declaração de seu contexto histórico-teológico, fazendo-a servir à uma agenda perfeccionista e usando-a contra seus irmãos e irmãs.

Mas o leitor cuidadoso lembrará que Ellen G. White não estava escrevendo em um vácuo. Ela não estava usando palavras que se aplicam igual e indiscriminadamente a todos, seja dentro ou fora da Igreja Adventista.

Uma análise mais detida do contexto mostrará que ela estava escrevendo no contexto histórico das décadas de 1880 e 1890, quando uma espécie de “santificação ... ora adquire preeminência no mundo religioso”. Esse era um tipo de santificação caracterizado por um desrespeito pela lei de Deus. “Seus defensores ensinam que santificação é obra instantânea, pela qual, mediante a fé apenas, alcançam perfeita santidade. ‘Crede tão somente’, dizem.” “Nenhum outro esforço” é exigido. Os crentes estão “livres da obrigação de guardar os mandamentos.”22

Essa é a situação que suscitou as observações de Ellen G. White em relação à santidade. Ela se referiu a essa filosofia como uma “sedutora doutrina de fé sem obras”. E acrescenta: “Ninguém se engane ... de que pode tornar-se santo enquanto voluntariamente transgride um dos mandamentos de Deus.”23 Distorcer essa declaração e usá-la contra os adventistas, que creem que os Dez Mandamentos podem ser obedecidos pela graça de Deus, é inverter sua admoestação. Essa atitude pode ser qualificada como inapropriada, maligna e, talvez, até cruel. Ao forçar a declaração para um contexto artificial, a expressão “enquanto voluntariamente transgride um dos mandamentos de Deus” é removida da especificidade dos Dez Mandamentos e lhe é dada uma universalidade que produziria sentimentos de desespero e culpa sobre aqueles que procuram obedecê-los.

Há, talvez, um sentido em que poderíamos dizer que a declaração se aplica a todos nós. Mas, antes de fazermos qualquer aplicação pessoal, é de relevância fundamental saber quem era o seu alvo primário e qual era a questão primária. Ao fazermos isso, lembrando da falsa teoria de santificação que ela estava abordando, estaremos em melhores condições de compreender a seguinte declaração, que aparece no mesmo contexto:

E a alegação de estarem sem pecado é em si mesma evidência de que aquele que a alimenta está longe de ser santo. É porque não tem nenhuma concepção verdadeira da infinita pureza e santidade de Deus.24

Depois de considerar devidamente o contexto dessa declaração, é possível aplicá-la de duas maneiras. Em outras palavras, se aplicaria primeiro àqueles antinomianos do século 19 e, em segundo lugar, aos perfeccionistas de nosso próprio tempo. O exemplo anterior foi mencionado devido à tendência de alguns em simplesmente ignorar declarações relevantes de Ellen G. White e tirar outras de seu devido contexto. Sempre que encontramos declarações aparentemente conflitantes nos escritos do Espírito de Profecia, devemos considerá-las como um sinal para sermos especialmente vigilantes, e analisarmos mais cuidadosamente os textos em questão.

Depois de estudar o assunto, George R. Knight concluiu que a preocupação fundamental de Ellen G. White a respeito da perfeição não estava relacionada aos numerosos atos comportamentais específicos, mas “com o grande princípio motivador do amor que molda e transforma” as tendências de nossa vida “por meio da graça de Deus”.25 Essa conclusão encontra base nos escritos de Ellen G. White, pois ela afirma que “o caráter se revela, não por boas ou más ações ocasionais, mas pela tendência das palavras e atos costumeiros”.26

Todas as aparentes contradições de Ellen G. White sobre esse assunto não serão plenamente solucionadas apenas pelos estudos de George R. Knight ou de qualquer outra pessoa.

Algumas dificuldades permanecerão. Apesar disso, é necessário lembrar supostas contradições representam maneira como Deus se comunica com diferentes personalidades e necessidades de seus diversos filhos.

Ann Burke declara: É lamentável que, por causa de nosso temperamento, crentes demasiado conscienciosos frequentemente isolem declarações fortes provavelmente destinadas a cristãos descuidados [os santificados antinomianos do tempo da sra. White é um bom exemplo]. Eles açoitam a si mesmos com essas declarações, enquanto que os descuidados membros da igreja encontram falsa segurança naquelas [declarações] que, sem dúvida, visavam confortar aqueles que possuíam uma personalidade extremamente sensível pelo senso de culpa.27

Esses conceitos a respeito dos requisitos divinos para o povo de Deus, conforme refletidos nos escritos de Ellen G. White, têm implicações excessivamente práticas para cada cristão adventista. Alguém pode ficar extremamente angustiado e desanimado se seguir uma leitura unilateral da Bíblia ou do Espírito de Profecia. É como ler um livro médico e sentir-se como se tivesse todos os sintomas descritos nele. Portanto, a busca por uma abordagem equilibrada tem o objetivo de vencer uma discussão teórica. Antes, é de grande importância para nosso bem-estar espiritual e psicológico, a fim de possuirmos uma compreensão correta do que Deus tem feito por nós e o que Ele espera de nós.

As pessoas que mais admiro – seja dentro ou fora da Igreja Adventista e sobre as quais inconscientemente penso: “Eu gostaria de ser como ele ou ela” – são aquelas que não são obcecadas com o assunto da perfeição ou impecabilidade. Ao contrário, inconscientemente elas vivem o que vejo como verdadeiros representantes da vida de Jesus. Sua atenção, sua amabilidade, seu senso de humor e sua bondade prática me atraem. Sinto-me confortável em sua presença. Nunca sou constrangido ou humilhado por elas. Essas são as pessoas que me mostram o que significa ser um cristão.

Creio que elas se enquadram nesta bela descrição de perfeição: O amor é o fundamento da piedade... Quando o eu está imerso em Cristo, o amor brota espontaneamente. A perfeição de caráter do cristão é alcançada quando o impulso de auxiliar e abençoar a outros brotar constantemente do íntimo - quando a luz do Céu encher o coração e for revelada no semblante.28 Creio que seja essa a espécie de ministério encarnacional, a espécie de simpatia espontânea, que Deus procura.


A declaração sobre o “caráter de cristo”

Esta seção sobre os conceitos de Ellen G. White não estará completa sem uma avaliação de um texto frequentemente citado de Parábolas de Jesus que se refere ao caráter de Cristo sendo perfeitamente reproduzido em seu povo antes da sua vinda. Há algum tempo, depois de ouvir durante anos essa citação sendo utilizada em acaloradas discussões sobre perfeição ou citada de forma equilibrada por aqueles que a compreendiam de certo modo, decidi estudá-la dentro do seu próprio contexto. Publiquei um editorial na Adventist Review apresentando minhas conclusões. Abaixo segue a declaração de Ellen G. White e o editorial ligeiramente adaptado: Cristo aguarda com fremente desejo a manifestação de si mesmo em sua igreja. Quando o caráter de Cristo se reproduzir perfeitamente em seu povo, então virá para reclamá-los como seus.29

Essa declaração, um texto-chave dos adventistas que defendem a absoluta e impecável perfeição do povo de Deus nos últimos dias antes que Jesus possa vir, é uma das mais mal-compreendidas nos escritos de Ellen G. White. A compreensão popular dessa declaração cria o retrato de uma igreja voltada interiormente para si mesma em perpétua e absorvente introspecção e autoflagelação, lutando para atingir a perfeita reprodução do caráter de Cristo para que Jesus possa vir. Mas o que a sra. White realmente estava dizendo?

A melhor maneira de compreender uma declaração cujo autor não mais está vivo é examiná-la dentro do contexto. Felizmente, a citação acima possui um amplo contexto a ser analisado. O capítulo em que ela ocorre trata da parábola da semente (ver Mc 4:26-29), que a Sra. White aplica aos processos de crescimento e produção de frutos na vida cristã.

Examinando todo o capítulo, percebe-se que há um movimento de semeadura ao crescimento e à colheita – e então repete-se o mesmo ciclo. Esse movimento nem sempre pode ser percebido facilmente, e deve-se prestar atenção. Em alguns momentos, ela fala sobre o crescimento dos próprios cristãos e a produção de frutos em suas vidas. Em outros momentos, fala sobre aqueles em cujos corações é plantada a semente do evangelho, e cujas vidas devem produzir frutos.

No entanto, o crescimento e a produção de frutos sempre são realizados por Deus. Ellen G. White declara: A planta cresce recebendo o que Deus provê para sustentar-lhe a vida. Aprofunda as raízes no solo. Absorve o sol, o orvalho e a chuva. Áureas propriedades vitalizantes do ar. Assim deve crescer o cristão, cooperando com os agentes divinos.30

Essa é uma sublime declaração sobre depender do Senhor. A planta não se preocupa nem se aflige por seu crescimento. De forma semelhante, nós também não deveríamos nos afligir.

Nos últimos seis parágrafos do capítulo – a própria seção em que aparece a passagem crucial – a ênfase primária volta-se para a necessidade de olharmos para fora de nós mesmos. O propósito da reprodução do caráter de Cristo em nós, diz a sra. White, é “para que [Cristo] se possa reproduzir em outros. A planta não germina, não cresce, nem produz frutos para si mesma”. Semelhantemente, o cristão existe “para a salvação de outros. Na vida que se centraliza no eu não pode haver crescimento nem frutificação. Se aceitastes a Cristo como Salvador pessoal, deveis esquecer-vos e procurar auxiliar a outros.”31

Nesse chamado para o ministério total e altruísta em favor de outros, encontra-se a chave que desvenda o significado do trecho que estamos analisando. Em uma declaração virtualmente paralela a essa, ela diz: Recebendo o Espírito de Cristo - o espírito do amor abnegado e do sacrifício por outrem - crescereis e produzireis fruto. As graças do Espírito amadurecerão em vosso caráter. Vossa fé aumentará; vossas convicções aprofundar-se-ão, vosso amor será mais perfeito. Mais e mais refletireis a semelhança de Cristo em tudo que é puro, nobre e amável.32

E quais são esses “frutos”, essas “graças do Espírito” que amadurecerão em nosso caráter? Aqueles descritos por Paulo em Gálatas 5:22, 23, mencionados por Ellen G. White: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.” Quando esses “frutos” amadurecerem plenamente, Cristo, o lavrador celestial, imediatamente lança a foice, diz ela, “porque está chegada a ceifa”.33 Então, segue-se imediatamente a principal declaração que estamos estudando – a sra. White repete, em diferentes palavras, o amadurecimento e processo de produção de frutos que já havia descrito. Claramente o pensamento é o mesmo, e as duas declarações são partes de um todo.

Portanto, pode-se concluir que a reprodução do “caráter de Cristo” em nós é equivalente ao nosso recebimento do “Espírito de Cristo”. E “a manifestação de [Cristo] em sua igreja é equivalente ao desenvolvimento em nós do Espírito do amor abnegado e do sacrifício por outrem”. Dessa forma, “refletiremos a semelhança de Cristo em tudo que é puro, nobre e amável”. Quando isso ocorrer em nós, e reagir em cadeia por meio de nós para milhões de pessoas ao redor do mundo, a ceifa estará madura, e Jesus virá ceifá-la.

Portanto, a ênfase na declaração de Parábolas de Jesus está no ministério encarnacional em favor de outros – um ministério que é amoroso, compassivo e abnegado. Não há aqui nenhum enfoque sobre perfeição sem pecado. “O caráter de Cristo” é o “Espírito do amor abnegado e do sacrifício por outrem”. Não somos capazes de manipular humanamente o tempo da ceifa. Ainda que o homem empregue seus esforços até ao limite extremo, precisará, entretanto, depender daquele que ligou o semear e o colher pelos maravilhosos elos de sua própria Onipotência.34

A única maneira de apressar a vinda do Senhor é por meio do ministério encarnacional, de serviço amorável em favor de outros. Baseados na íntima conexão entre as duas declarações mais importantes desta seção, podemos agora reformular a primeira da seguinte maneira: Cristo aguarda com fremente desejo a manifestação do Espírito de Cristo em sua igreja. Quando o Espírito do amor abnegado e do sacrifício por outrem estiver plenamente amadurecido no caráter do seu povo, então virá para reclamá-los como seus.35

O editorial analisou o contexto imediato das declarações de Ellen G. White em Parábolas de Jesus. Estava além do objetivo do texto comparar a citação com outros escritos da sra. White. Mas agora apresentaremos mais dois textos que claramente confirmam as conclusões já obtidas. Reflita nelas cuidadosamente, porque elas esclarecem o que Deus requer hoje de seu povo. Não pense que elas são de relevância secundária. Ao contrário, atingem o próprio âmago do evangelho e do que significa ser cristão.

Essas admoestações da sra. White requerem amabilidade, humildade, amor abnegado. Essas são qualidades que estão além da capacidade humana. Ellen G. White afirma: Abnegação, o princípio do reino de Deus, é o princípio que Satanás odeia; ele nega sua própria existência [...] Para refutar a alegação de Satanás está a obra de Cristo e de todos os que levam o seu nome. Foi para dar com sua própria vida um exemplo de abnegação, que Jesus veio em forma humana. Todos os que aceitam este princípio devem ser coobreiros seus e demonstrar na vida prática esse princípio.36

Ela acrescenta: Se nos humilhássemos diante de Deus, e fôssemos bondosos e corteses e compassivos e piedosos, haveria uma centena de conversões à verdade onde agora só existe uma. Mas, embora professando ser convertidos, carregamos conosco um fardo de egoísmo que consideramos demasiado precioso para ser renunciado. É nosso privilégio lançar esse fardo aos pés de Jesus e em seu lugar assumir o caráter e semelhança de Cristo. O Salvador está esperando que façamos isto.37


O ensino das escrituras

Antes de prosseguir o estudo, é necessário enfatizar um aspecto metodológico da mais elevada importância. Precisamos compreender claramente que tudo que Ellen G. White diz sobre vida sem pecado, perfeição ou qualquer outro assunto, deve ser compreendido – segundo ela mesma – à luz das Escrituras. Isso significa que cada verdade fundamental em seus escritos deve ser demonstrada pelas Escrituras. “Nossa atitude e crença têm por base a Bíblia”, disse ela. “E nunca queremos que alma nenhuma faça prevalecer os Testemunhos sobre a Bíblia”.38

Em outras palavras, se qualquer ponto de nossa fé não pode ser confirmado com base apenas nas Escrituras, então não pode ser aceito. Em The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, George R. Knight mostra que a exigência de absoluta perfeição sem pecado (sustentada por Andreasen e outros hoje) não possui base bíblica ou dos escritos de Ellen G. White.39


Diferente qualidade de justiça?

À luz do que foi discutido até aqui, temos condições de retornar à questão inicial – se Deus requer uma diferente norma ou qualidade de justiça da última geração de cristãos, norma que está acima e além daquela exigida das gerações anteriores. Examinemos mais detidamente o texto básico usado para sustentar a ideia da absoluta perfeição sem pecado de um remanescente final: “E não se achou mentira na sua boca; não têm mácula” (Ap 14:5). Os dois termos-chaves do versículo, obviamente, são mentira e mácula.

Não se achou mentira (em grego, pseudos ou, segundo alguns manuscritos, dolos) refere-se a uma mentira ou falsidade. A oposição entre verdade e mentira é um tema corrente ao longo das Escrituras. O salmista se referiu àqueles que “na mentira se comprazem; de boca bendizem, porém no interior maldizem” (Sl 62:4). “Ninguém que pratica engano habitará em minha casa”, disse o Senhor por intermédio de Davi. “O que profere mentiras não permanecerá ante os meus olhos” (Sl 101:7). Isaías, tratando do âmago da enfermidade espiritual de Israel, mencionou mãos “contaminadas de sangue”, “dedos, [maculados] de iniquidade” e “lábios [que] falam mentiras” (Is 59:3). Em uma declaração similar àquela de Apocalipse 14:5, o profeta Sofonias declarou: “Os restantes [ou remanescente] de Israel não cometerão iniquidade, nem proferirão mentira, na sua boca não se achará língua enganosa” (Sf 3:13). Essas declarações – e inúmeras outras semelhantes – eram dirigidas ao povo de Deus no Antigo Testamento, e, portanto, representavam as expectativas de Deus em relação a gerações passadas.

Como já mencionado, a palavra grega pseudos (mentira, falsidade) é o oposto de aletheia (verdade) e caracteriza o diabo e todos os que o seguem. Jesus expressou esse conceito aos líderes judeus que buscavam assassiná-lo.

Vós sois do diabo, que é vosso pai [...] Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira (Jo 8:44).

Não é de admirar, portanto, que o povo remanescente de Deus seja descrito como não tendo pseudos, nenhuma mentira em sua boca. São comprometidas com a verdade, recusando-se a participar do engano universal que ocorreria nos últimos dias, em que “homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (2Tm 3:13). Em contraste com tão generalizada falsidade e engano, o povo de Deus traria as características daquele que declarou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14:6). A respeito deles é dito: “Não se achou mentira na sua boca” (Ap 14:5).

Portanto, como podemos alegar que essa característica pertence apenas à geração final de cristãos? Isso não faria qualquer sentido. Quando Jesus viu Natanael, disse: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!” (Jo1:47). É interessante observar que essa declaração foi feita no início – não no fim – da caminhada de Natanael com Jesus. Filipe, aquele que levou Natanael a Jesus, poderia não ter reconhecido as qualidades de seu amigo. Nem Pedro ou os outros discípulos. Mas Jesus o fez. E Ele é o único que pode ou precisa fazê-lo – o único para quem isso realmente importa. Porque “o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração” (1Sm 16:7).

“Não têm mácula” (Ap 14:5). Portanto, os 144 mil são pessoas que possuem as características de verdade, honestidade e integridade. A palavra grega traduzida por “não têm mácula” é amomos, que significa “imaculado”. Transmite a ideia “de ausência de defeitos nos animais sacrificiais”, como em Números 6:14.40 Em um sentido moral e religioso, a palavra significa “imaculado”41


Um requisito imutável

A questão, portanto, não é se Deus exige um elevado desenvolvimento espiritual dos santos. Antes, é se esse desenvolvimento é uma característica apenas da última geração de cristãos. Vimos que Deus exigiu das gerações anteriores a mesma e elevada santidade que exige da última.

Muito tempo atrás Deus descreveu o patriarca Jó como “íntegro [LXX: amemptos, irepreensível] e reto” (Jó 1:8 e 2:3). E sobre Noé, as Escrituras declaram: “Noé era um homem justo e íntegro [LXX: teleios, perfeito] entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus” (Gn 6:9). Não seria necessário que essa descrição fosse utilizada para cada personagem bíblico, mas podemos corretamente presumir que o mesmo poderia ter sido dito de Abraão, Isaque, Isaías, Jeremias, Daniel, Sadraque, Mesa-que e Abede-Nego – e de inúmeros outros do Antigo Testamento.

O mesmo quadro geral é apresentado no Novo Testamento. Sob uma variedade de termos, Paulo (como João em Apocalipse 14:5) transmitiu a ideia de irrepreensibilidade em relação aos cristãos do primeiro século que estavam aguardando a vinda do Senhor. Ele lembrou aos coríntios que Deus “vos confirmará até ao fim, para serdes irrepreensíveis [anegkletos] no Dia de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 1:8; cf. 1Ts 3:13). Sua oração pelos filipenses era que eles crescessem “em pleno conhecimento e toda a percepção ... para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis [aproskopos] para o Dia de Cristo” (Fl 1:9, 10). Segundo ele, Cristo morreu “para apresentar-vos perante Ele santos, inculpáveis [amomos] e irrepreensíveis” (Cl 1:22).

Não pode haver nenhuma dúvida acerca da elevada expectativa divina para os santos do primeiro século. O objetivo de Deus para eles era que se tornassem “irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis [amemptos] no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo” (Fl 2:15).

Os anciãos e diáconos deveriam ser “irrepreensíveis” [anepileptos; anegkletos] (1Tm 3:10 e 5:7; cf. 1Tm 3:2; Tt 1:6, 7), bem como todos os membros da igreja. Paulo não poderia ter sido mais claro sobre esse ponto. O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis [amemptos] na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (1Ts 5:23).

E os destinatários da carta de Pedro deveriam ser “achados por Ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis [amometos]” na vinda do Senhor (2Pe 3:14). Alguns poderiam ser tentados a sugerir que essas admoestações, feitas por Paulo e Pedro, se baseavam na noção equivocada de que o fim estava iminente. Mas essa ideia é equivocada. Antes, as admoestações demonstram que a mensagem de que necessitamos enquanto aguardamos a segunda vinda é a mesma dirigida aos cristãos do primeiro século. E a expectativa é a mesma – o fim é iminente.


As mesmas normas elevadas

Tendo em vista o que foi discutido, é evidente que Apocalipse 14:5 não faz distinção espiritual entre o remanescente final e os santos das eras passadas. O que distingue os santos da última geração será o fato de que, como Jó, eles manterão sua lealdade e integridade durante a mais severa e crucial perseguição da história do mundo. Terão que passar pelo mais aflitivo tempo de angústia, que incluirá as terríveis sete últimas pragas (ver Ap 16). Manter lealdade e integridade diante de tão avassaladora crise será de fato notável para o Universo. Entretanto, não há qualquer justificativa para crer que Apocalipse 14:5 descreve uma qualidade de justiça essencialmente diferente daquela exigida das gerações anteriores.

Observemos algumas admoestações feitas no primeiro século: Vai alta a noite, e vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revestivos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências (Rm 13:12-14).

Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade ... acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição (Cl 3:12-14).

Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito (Gl 5:22-25). Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito (Ef 5:25-27).

Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como de nós recebestes, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, e efetivamente estais fazendo, continueis progredindo cada vez mais; porque estais inteirados de quantas instruções vos demos da parte do Senhor Jesus. Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação (1Ts 4:1-3).  E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço... até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4:11-13). Essa última passagem sumariza o conceito bíblico de perfeição ou santidade – maturidade em Cristo.42


Pensamentos finais

Quando Jesus vier em glória com seus poderosos anjos para reunir todos os povos diante dele, a questão será notavelmente direta e prática. Como um pastor separa seu rebanho, Jesus dividirá toda a humanidade em dois grupos – as “ovelhas” à direita, os “cabritos” à esquerda (ver Mt 25:31-33). Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me” (v. 34-36).

Mas os justos não dirão: “Ainda bem que Você percebeu!” A bondade deles, longe de ser uma exibição, havia sido espontânea e inconsciente, uma reflexão genuína do amor de Cristo habitando no íntimo. “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer?”, eles perguntam. “Ou com sede [...] E quando te vimos forasteiro [...] ou nu [...] ? E quanto te vimos enfermo ou preso e te fomos?” (v 37, 38). O Rei responderá: “Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (v. 40).

Ellen G. White afirma: Aqueles que Cristo louva no Juízo, talvez tenham conhecido pouco de teologia, mas nutriram seus princípios. Mediante a influência do Divino Espírito, foram uma bênção para os que os cercavam.43

Ela acrescenta: Muitos pensam que seria grande privilégio visitar os cenários da vida de Cristo na Terra [...] Mas não necessitamos ir a Nazaré, a Cafarnaum ou a Betânia para andar nos passos de Jesus. Encontraremos suas pegadas junto ao leito dos doentes, nas choças da pobreza, nos apinhados becos das grandes cidades, e em qualquer lugar onde há corações humanos necessitados de consolação. Fazendo como Jesus fazia quando na Terra, andaremos em seus passos.44

Afinal, o que Deus requer de nós? O mesmo que Ele exigia de Seu povo nas gerações anteriores. É bem provável, obviamente, que seremos julgados mais severamente do que eles, porque temos sido expostos a muito mais luz do que eles. A controvérsia que tem consumido a igreja sobre este assunto é completamente injustificada. Temos desperdiçado tempo valioso e desencorajado a muitos. Se o inimigo não está por trás disso, duvido de que ele esteja envolvido em qualquer outra obra. A ironia é que o “Príncipe da Paz” (Is 9:6) tem se tornado, através da ímpia astúcia do inimigo, a causa de praticamente uma guerra interna em algumas de nossas igrejas.

É lamentável que, enquanto o mundanismo e a ignorância sobre a Bíblia e os escritos de Ellen G. White prevalecem entre nós, o ilusório raciocínio da teologia perfeccionista é capaz de atrair a lealdade de nossos influentes e bem-intencionados membros e líderes, trazendo a heresia para dentro das igrejas. O tempo demanda que todos estudemos as Escrituras por nós mesmos; que gastemos todo o tempo necessário para compreender por nós mesmos o Espírito de Profecia em seu devido contexto; que sinceramente busquemos o Espírito Santo, rogando que o reavivamento e a reforma iniciem por nós, pessoalmente. Nossos irmãos preocupados45 e nossos irmãos descontentes46 desperdiçam tempo e energia lutando sem resultados positivos tangíveis. O único resultado obtido é crescente mundanismo, materialismo e liberalismo em alguns setores da igreja. Eles não estão completamente equivocados quando afirmam que alguns pastores “não estão mais pregando a mensagem”.

É possível visitar diversas igrejas durante longo tempo e não reconhecer, por meio dos sermões, que se esteve em um culto adventista do sétimo dia. Este é um tempo confuso, um tempo frustrante, e, para muitos, um tempo desencorajador. Mas apenas intensificaremos o problema ao permitir que nossa frustração nos leve a abraçar uma teologia espúria e errônea em nome de reavivamento e reforma. Não há razão para perder a esperança. A atual situação desafia cada um de nós a conservar-se alerta e, acima de tudo, mantermos a serenidade no Senhor.

“Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre” (Hb 13:8). Ele é muito sábio e Todo-Poderoso. A obra está em suas poderosas mãos. E hoje os seus requisitos são os mesmo que há muito tempo Ele falara por meio do antigo profeta: Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6:8).  

Roy Adams


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Referências

1- Publicado originalmente em Roy Adams, The Nature of Christ: Help for a church divided over perfection (Hagerstwon, MD: Review and Herald, 1994), 113-131. Traduzido do original em inglês por Francisco Alves de Pontes.
2- Todas as citações bíblicas foram extraídas da tradução Almeida Revista e Atualizada, 2ª edição.

3- Para estudo introdutório sobre o perfeccionismo na história da Igreja Adventista do Sétimo Dia, ver George R. Knight, A Mensagem de 1888 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004), 169-181, 191-196; idem, Em Busca de Identidade: O desenvolvimento das doutrinas adventistas do sétimo dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2005), 120128, 148-156, 174-176 (nota dos revisores).

4- Ver Roy Adams, The Sanctuary Doctrine: Three aproaches in the Seventh-day Adventist Church, Andrews University Seminary Doctoral Dissertation Series, vol. 1 (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1981), 179, 180.

5- M. L. Andreasen, The Book of Hebrews (Washington, DC: Review and Herald, 1948), 467.

6- Idem, Isaiah: The Gospel Prophet (Washington, DC: Review and Herald, 1928), 82; idem, The Sabbath, Which Day and Why? (Washington, DC: Review and Herald, 1942), 246, 255; idem, The Book of Hebrews, 468; cf. Adams, The Sanctuary Doctrine, 212.

7- M. L. Andreasen, Letters to the Churches (Baker, OR: Hudson Printing Company, 1959), 11-14.

8- Robert J. Wieland, The 1888 Message: An Introduction (Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1980), 38.

9 Ibid., 111.

10 Ibid., 87.

11- Robert J. Wieland e Donald Short, 1888 Re-examined (Uniontown, OH: The 1888 Message Study Committee, 1987), 53. Wieland e Short se referem a Testemunhos para Ministros, 92, como a fonte da frase “obediência a todos os mandamentos de Deus.” Disto o leitor, não conhecendo o contexto, é levado a crer que a ênfase de Ellen G. White, neste texto, era abordar a justiça que leva à obediência a todos os mandamentos. Conquanto ela se refira à obediência como uma manifestação da justiça de Cristo, o contexto deixa claro que seu propósito era enfocar novamente a atenção da igreja para o próprio Cristo para que “não mais o mundo dissesse que os adventistas do sétimo dia falam na lei, na lei, mas não ensinam a Cristo nem nele creem” (Testemunhos para Ministros, 92). Esse é apenas um exemplo do desrespeito para com o contexto que impregna os escritos de alguns que seguem as pegadas teológicas de Andreasen. Nesse exemplo eles levam Ellen G. White a dar uma ênfase que é exatamente o oposto do que ela tencionava.

12- Wieland e Short, 1888 Re-examined, 55.

13- George R. Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness: A Study of Sin and Salvation (Boise, ID: Pacific Press, 1992), 171.

14- The Seventh-day Adventist Bible Commentary (Washington, DC: Review and Herald), Ellen G. White Comments, 5:1085; citado em Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, 171.

15- Ellen G. White, Parábolas de Jesus, 330; citado em Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, 171.

16- White, Parábolas de Jesus, 330.

17 - Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, 671; citado em Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, 173.

18- Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja, 2:549 citado em Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, 174; grifos supridos.

19- Ellen G. White, Review and Herald, 5 de fevereiro de 1895, 81; citado em Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, 174.

20- Ellen G. White, Manuscrito 24, 1892, em The Ellen G. White 1888 Materials (Washington, DC: Ellen G. White Estate, 1987), 1089; citado em Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, 174.

21- Ellen G. White, O Grande Conflito, 472.

22- Ibid. 471.

23- Ibid., 472.

24- Ibid., 473.

25- Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, 180.

26- Ellen G. White, Caminho a Cristo, 57.

27- Ann Cunningham Burke, “The Adventist Elephant”, Adventist Review, 27 de agosto de 1987, 9; citado em Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, 182.

28- White, Parábolas de Jesus, 384; grifos acrescentados. 29- White, Parábolas de Jesus, 69; grifos acrescentados.

30- Ibid., 66, 67.

31- Ibidem.

32- Ibid., 68; grifos acrescentados.

33- Ibid., 69.

34- Ibid., 63.

35- Roy Adams, “What Did She Mean?”, Adventist Review, 3 de setembro de 1992, 4.

36- Ellen G. White, Educação, 154; grifos acrescentados.

37- Idem, Testemunhos Para a Igreja, 9:189, 190; grifos acrescentados.

38- Idem, Evangelismo, 256; ver também 256, 257.

39- Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, capítulos 7-9.

40- W. F. Arndt e F. W. Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago: University of Chicago Press, 1979), 47.

41- Ibid., p. 48.

42- Para estudo da declaração de Jesus em Mateus 5:48 (“Portanto, sede vós perfeitos”), ver William Richardson, “The Unfavorite Text”, Adventist Review, 14 de outubro de 1993, 8-10. Ver também Rodrigo P. Silva, “Seria Deus ‘perfeito’?: Uma análise lingüística de Mateus 5:48”, nesta edição de Parousia.

43- White, O Desejado de Todas as Nações, 638.

44- Ibid., 640.

45- O autor utiliza a expressão “irmãos preocupados” (em inglês, concerned brethren) para se referir aos adventistas que “estão em nítido desacordo com a liderança da igreja e com a igreja em geral a respeito de determinadas questões teológicas ou administrativas”, mas “geralmente não apoiam ou participam de posturas ou atividades divisivas” (Adams, The Nature of Christ, 11. Nota dos revisores).

46- “Irmãos descontentes” (em inglês, disaffected brethren) são os “adventistas que, em algum grau, encontram-se em grave desacordo com a liderança da igreja ou com a igreja como um todo em questões de doutrina, missão ou administração. Em aberta oposição à liderança da igreja, em alguns casos esses irmãos formam suas próprias congregações, recolhem seus próprios dízimos, promovem suas próprias reuniões campais, publicam suas próprias revistas e até realizam suas próprias ordenações ao ministério” (Adams, The Nature of Christ, 11. Nota dos revisores).


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