Lendo Ellen G. White: Como compreender e aplicar seus escritos - O Propósito dos Escritos de Ellen White Capítulo 2



Por George R. Knight


 Este artigo foi traduzido para o português por Ruth Mª C Alencar. Título do original em inglês, Reading Ellen White: How to Understand and Apply Her Writings (Hagerstown, MD: Review and Herald, 1997



Para compreender os escritos de alguém, é fundamental compreender suas intenções e objetivos. Leitores que não conseguem discernir o propósito de um autor correm o risco de utilizar as obras dele para fins contrários à suas intenções. Por isso, é importante compreender o modo como a própria Ellen White compreendia seu papel na Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Uma das coisas mais importantes que podemos dizer de seus escritos é que eles não devem, de forma alguma, tomar o lugar da Bíblia. Na introdução do livro O Grande Conflito, Ellen White escreveu: “Em Sua Palavra, Deus comunicou aos seres humanos o conhecimento necessário à salvação. As Sagradas Escrituras devem ser aceitas como autorizada e infalível revelação de Sua vontade. Elas são a norma do caráter, o revelador das doutrinas, a pedra de toque da experiência religiosa. [...] O Espírito não foi dado – nem nunca o poderia ser – a fim de sobrepor-Se à Bíblia; pois esta explicitamente declara ser ela mesma a norma pela qual todo ensino e experiência devem ser testados” (O Grande Conflito, p. 9).

Ao contrário de muitos que se apresentam como profetas modernos e cujos seguidores tratam seus escritos como uma espécie de “terceiro testamento”, Ellen White explicava que sua função em relação à Palavra de Deus é “exaltá-la e atrair para ela as mentes, para que a bela singeleza da verdade possa impressionar a todos” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 665). Ela considerava como seu papel “reconduzi-los à Sua Palavra que eles negligenciaram seguir” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 663). “Os testemunhos”, disse ela, “não estão destinados a comunicar nova luz; e sim a imprimir fortemente na mente as verdades da inspiração que já foram reveladas” (Testemunho Para a Igreja, v. 5, p. 665). Talvez a ilustração mais vívida do papel de seus escritos foi de vê-los como “uma luz menor para guiar homens e mulheres à luz maior [a Bíblia]”, porque eles haviam dado pouca atenção a esta última (O Colportor Evangelista, p. 130).

Essa compreensão é o fato mais importante que devemos saber sobre o propósito dos escritos de Ellen White. Levando constantemente seus leitores de volta à Bíblia como autoridade que deve reger suas vidas, ela nunca considerou que suas obras tivessem uma autoridade igual a das Escrituras ou mesmo uma autoridade independente das Escrituras.

É lamentável que alguns deem aos livros de Ellen White um lugar que ela jamais pretendeu. Quando alguém pensa que os escritos dela têm uma autoridade superior à da Bíblia, ou quando alguém dedica mais tempo a ler esses escritos do que a Bíblia, essa pessoa está usando os escritos de Ellen White para afastá-lo da Palavra de Deus. Os que verdadeiramente discernem a compreensão que Ellen White tinha de sua missão jamais cometerão tal erro. Quando realmente lemos seus escritos tendo em mente o propósito deles, somos levados ao estudo e à autoridade da Bíblia.

Portanto, a função do ministério de Ellen White era guiar homens e mulheres de volta à Bíblia. Intimamente relacionado a isso está o fato de que a missão dela era ajudar as pessoas a aplicar os princípios da Bíblia a suas vidas.

Em 1871, Ellen White viu num sonho a Bíblia rodeada de muitos de seus Testemunhos Para a Igreja. Ela ouviu a mensagem: “Vocês não estão familiarizados com as Escrituras. Se tivessem feito da Bíblia o objeto de seus estudos, com o propósito de atingir o padrão bíblico e a perfeição cristã, não necessitariam dos testemunhos. É porque negligenciaram tomar conhecimento do Livro inspirado de Deus que Ele procurou alcançar vocês por meio de testemunhos simples e diretos, chamando a sua atenção para as palavras da inspiração que negligenciaram obedecer, e insistindo com vocês para modelarem a vida de acordo com os seus ensinamentos puros e elevados” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 605).

“Os testemunhos”, disse ela sobre o mesmo sonho, “não estão destinados a comunicar nova luz; e sim a imprimir fortemente na mente as verdades da inspiração que já foram reveladas. Os deveres do homem para com Deus e seu semelhante estão claramente apresentados na Palavra de Deus, mas poucos de vocês se têm submetido em obediência a essa luz. Não se trata de escavar verdades adicionais; mas pelos Testemunhos Deus tem facilitado a compreensão de importantes verdades já reveladas, e posto estas diante de Seu povo pelo meio que Ele próprio escolheu, a fim de despertar e impressionar com elas a sua mente, para que todos fiquem sem desculpa” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 605).

Em outra ocasião, ela escreveu que “a Palavra de Deus é suficiente para iluminar a mente mais obscurecida, e pode ser compreendida por todo aquele que sinceramente deseja entendê-la. Mas, apesar disso, alguns, que dizem fazer da Palavra de Deus o objeto de seus estudos, vivem em oposição direta a alguns de seus mais claros ensinos. Então, para que homens e mulheres ficassem sem desculpa, Deus deu testemunhos claros e decisivos a fim de reconduzi-los à Sua Palavra que eles negligenciaram seguir” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 454).

Até aqui vimos duas razões apresentadas por Ellen White para seus escritos. A primeira é exaltar a Bíblia e conduzir até ela homens e mulheres. A segunda é aplicar os grandes princípios da Bíblia à vida cotidiana, a fim de que ninguém tenha desculpas para não segui-los. Em tudo isso, porém, ela deixou claro que seus escritos não eram necessários para a compreensão dos grandes princípios da salvação. A missão dela não era fornecer verdades novas e suplementares, mas simplificar e enfatizar as que já são oferecidas pela Bíblia.

Ellen White apresentou a mesma ideia quando escreveu que “o irmão J. confundiria a mente buscando fazer parecer que a luz que Deus tem dado através dos Testemunhos é um acréscimo à Palavra de Deus; mas nisso apresenta o assunto sob uma falsa luz. Deus tem julgado adequado trazer desse modo à mente de Seu povo a Sua Palavra para lhe dar mais clara compreensão dela” (Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p. 245).

O terceiro propósito do ministério de Ellen White era reprovar o pecado e incentivar a obediência à Bíblia. Esse aqui, obviamente, está estreitamente ligado aos dois primeiros. “Se o povo que agora professa ser a ‘propriedade peculiar’ de Deus obedecesse a Seus requisitos especificados em Sua Palavra, não haveria necessidade de testemunhos especiais para despertar neles o sentimento do dever e impressioná-los acerca de sua pecaminosidade e do temível risco que correm ao negligenciar obedecer à Palavra de Deus. As consciências têm-se entorpecido porque a luz foi posta de parte, sendo negligenciada e desprezada” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 667).

O quarto propósito dos escritos de Ellen White era aplicar os princípios bíblicos ao contexto moderno, alvo amplamente demonstrado pela quantidade de conselhos práticos para a vida cotidiana contidos na série Testemunhos Para a Igreja, nas numerosas compilações temáticas, assim como em todos os seus livros e seus artigos tratando de temas bíblicos. De acordo com Ellen White, “a Bíblia foi dada para fins práticos” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 20). O mesmo é verdade quanto a seus escritos. Eles não elaboram uma teologia sistemática tradicional, nem Ellen White jamais pretendeu que fossem um comentário bíblico infalível. Ao contrário, essas obras são essencialmente práticas. Mais do que reprovar o pecado, elas nos apontam o melhor caminho e oferecem instruções para a aplicação cotidiana dos princípios bíblicos.

Os escritos de Ellen White não somente tem o objetivo de nos conduzir à Bíblia, ampliar os princípios bíblicos, denunciar o pecado e dar conselhos para a vida do dia a dia. Eles também apresentam a única resposta ao problema do pecado humano: trazem conforto ao conduzir seus leitores a Jesus, ao amor de Deus e ao plano da salvação como a única esperança para um mundo perdido. Esses escritos exaltam as inúmeras promessas bíblicas que encontram seu clímax na vida, ministério, morte, ressurreição, ministério celestial e retorno de Jesus, o Salvador. Assim, eles nos oferecem o conforto e a esperança da Bíblia. Livros como Caminho a Cristo e O Desejado de Todas as Nações tratam por excelência desses temas. Mas os encontramos também ao longo de sua obra literária. Exaltando a Bíblia, Ellen White coloca continuamente Jesus em primeiro plano e a fé nEle como a única esperança da humanidade.

O último propósito dos escritos de Ellen White que mencionaremos é que foram dados por Deus para preparar um povo tendo para os últimos dias da história deste mundo. Livros como O Grande Conflito tratam das questões bíblicas com os quais o povo de Deus será confrontado no fim dos tempos. Seu ministério pretendia não somente orientar em direção ao retorno de Jesus sobre as nuvens do céu, mas também aconselhar homens e mulheres sobre a preparação necessária. Nesse sentido, ela faz eco da missão do Cristo, que nos convida a estarmos preparados para Seu retorno (Mateus 24:36–25:46; Apocalipse 22:20). Mas, procurando convidar seus leitores a sentirem-se prontos para o retorno de Cristo, ela os conduz constantemente à Bíblia. Assim, lemos no livro O Grande Conflito que “pessoa alguma, a não ser os que fortaleceram o espírito com as verdades da Escritura, poderá resistir no último grande conflito” (p. 593). Ellen White jamais deixou de exaltar a Palavra de Deus para atrair a atenção em sua direção.

Neste capítulo, vimos que Ellen White inúmeras vezes definiu seus escritos como subordinados à Bíblia e como um guia para conduzir os crentes a uma melhor compreensão da Palavra de Deus e à sua obediência. Contudo, esse papel não significa que ela considerava que seus escritos não possuíam autoridade divina.

Ao contrário, Ellen White disse várias vezes que seus conselhos se baseiam na autoridade divina. Ela escreveu: “A todos quantos se têm colocado no caminho dos Testemunhos, eu quero dizer: Deus deu uma mensagem a Seu povo, e Sua voz será ouvida, quer vocês ouçam, quer não. [...] Vocês têm de prestar contas ao Deus do Céu, que tem enviado essas advertências e instruções para guardar Seu povo no caminho certo” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 43).

Ela diz mais: “Você poderá dizer que esta comunicação era apenas uma carta. Sim, era uma carta, mas impelida pelo Espírito de Deus, para trazer perante sua mente coisas que me haviam sido mostradas. Nessas cartas que escrevi, nos testemunhos de que sou portadora, apresento-lhe aquilo que o Senhor tem apresentado a mim” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 27).

Ellen White era profundamente consciente de seu chamado profético e da missão que lhe foi confiada, de conduzir o povo de Deus por meio de seus discursos e escritos. Ela acreditava firmemente que Deus falava por meio dela como acontecia com os profetas da Bíblia.


 George R. Knight




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