O discurso de Jó nos capítulos 6 e 7 mostra certo perigo:
=> o perigo da ênfase demasiada na vaidade da vida. Devemos lembrar de nosso alto valor para Deus.
=> O perigo da livre expressão das emoções. Jó fez perguntas com irreverência.
=> a tendência do coração humano quando cegado pela dor ou agitação pela paixão, de interpretar mal a atuação de Deus.
=> a certeza de que pessoas boas ainda carregam dentro de si muito da velha natureza não regenerada, que não é perceptível até que a ocosião a revele
Resposta de Jó
Caps.6—7
Por que prolongar a vida, se o fim é certo?
1Então Jó respondeu:
2“Ah! Se a minha queixa, de fato,
pudesse ser pesada,
e contra ela, numa balança,
se pusesse a minha miséria,
3esta, na verdade, pesaria mais
que a areia dos mares.
Por isso é que as minhas palavras
foram precipitadas.
4Porque as flechas
do Todo-Poderoso
estão cravadas em mim,
e o meu espírito sorve
o veneno delas;
os terrores de Deus
se armam contra mim.
5Será que o jumento selvagem
zurra quando está junto à relva?
Ou será que o boi berra
junto ao seu pasto?
6Pode-se comer sem sal
o que é insípido?
Ou haverá sabor na clara do ovo?
7Aquilo que a minha alma
recusava tocar,
isso é agora a minha comida
repugnante.”
8“Quem dera que se cumprisse
o meu pedido,
e que Deus me concedesse
o que desejo!
9Que fosse do agrado de Deus
esmagar-me,
que soltasse a sua mão
e acabasse comigo!
10Isto ainda seria
a minha consolação,
e eu saltaria de contente
na minha dor, que é implacável;
porque não tenho negado
as palavras do Santo.
11Por que esperar,
se já não tenho forças?
Por que prolongar a vida,
se o meu fim é certo?
12Por acaso a minha força
é a força da pedra?
Ou é de bronze a minha carne?
13Não encontro socorro
em mim mesmo;
foram afastados de mim
os meus recursos.”
Meus amigos me enganaram
14“Ao aflito deve o amigo
mostrar compaixão,
mesmo ao que abandonou
o temor do Todo-Poderoso.
15Meus irmãos me enganaram;
são como um ribeiro,
como a torrente
que transborda no vale,
16turvada com o gelo e com a neve
que nela se esconde,
17torrente que seca
quando o tempo aquece,
e que no calor desaparece
do seu lugar.
18As caravanas se desviam
dos seus caminhos,
sobem para lugares desolados
e perecem.
19As caravanas de Temá procuram
essa torrente,
os viajantes de Sabá
por ela suspiram.
20Ficam envergonhados
por terem confiado;
quando chegam ali,
ficam decepcionados.
21Assim também vocês
não me ajudaram em nada;
veem os meus males
e ficam com medo.
22Por acaso pedi
que me dessem recompensa?
Ou que da riqueza de vocês
me trouxessem algum presente?
23Será que pedi que me livrassem
do poder do opressor?
Ou que me resgatassem
das mãos dos tiranos?”
Vejam que não estou mentindo
24“Ensinem-me, e eu me calarei;
mostrem-me em que tenho errado.
25Como são persuasivas
as palavras retas!
Mas o que é que a repreensão
de vocês repreende?
26Por acaso vocês pensam
em reprovar
as minhas palavras,
ditas por um desesperado
ao vento?
27Até sobre um órfão
vocês lançariam sortes
e seriam capazes
de vender um amigo!
28Agora, pois, tenham a bondade
de olhar para mim
e vejam que não estou mentindo
na cara de vocês.
29Por favor, mudem de parecer,
e que não haja injustiça;
mudem de parecer,
e a justiça da minha causa
triunfará.
30Há iniquidade em meus lábios?
Será que a minha
boca não consegue
discernir coisas perniciosas?”
Jó contende com Deus
A vida é uma luta sem fim
1“Não é verdade que a vida
do ser humano neste mundo
é uma luta sem fim?
Não são os seus dias como
os de um trabalhador diarista?
2Como o escravo
que suspira pela sombra
e como o trabalhador
que espera pelo seu salário,
3assim me deram por herança
meses de desengano
e me proporcionaram
noites de aflição.
4Ao deitar-me, pergunto:
quando me levantarei?
Mas a noite é longa,
e estou farto de me virar na cama,
até o amanhecer.
5O meu corpo está
vestido de vermes
e de crostas terrosas;
a minha pele racha
e de novo forma pus.
6Os meus dias são mais velozes
do que a lançadeira do tecelão
e se findam sem esperança.
7Lembra-te, ó Deus, de que
a minha vida é um sopro;
os meus olhos não tornarão
a ver a felicidade.
8Os olhos de quem agora me vê
não me verão mais;
os teus olhos me procurarão,
mas já terei desaparecido.”
Deixa-me em paz
9“Assim como a nuvem
se desfaz e passa,
aquele que desce à sepultura
jamais voltará a subir.
10Nunca mais voltará
para a sua casa,
e o lugar onde mora
nunca mais o conhecerá.
11Por isso, não reprimirei
a minha boca.
Na angústia do meu espírito,
falarei;
na amargura da minha alma,
eu me queixarei.
12Será que eu sou o mar
ou algum monstro marinho,
para que me ponhas sob guarda?
13Quando digo:
‘O meu leito me consolará,
a minha cama
aliviará a minha queixa’,
14então me assustas com sonhos
e me atemorizas com visões.
15Por isso, prefiro
ser estrangulado;
antes a morte do que esta tortura.
16Estou farto da minha vida;
não quero viver para sempre.
Deixa-me em paz,
porque os meus dias
são um sopro.”
Que é o homem?
17“Que é o homem,
para que tu lhe dês
tanta importância,
para que dês a ele atenção,
18para que a cada manhã o visites,
e que a cada momento
o ponhas à prova?
19Até quando não desviarás
de mim o teu olhar?
Até quando não me darás tempo
de engolir a minha saliva?
20Se pequei, que mal fiz a ti,
ó Espreitador da humanidade?
Por que fizeste de mim o teu alvo,
tornando-me um peso
para mim mesmo?
21Por que não perdoas
a minha transgressão
e não tiras a minha iniquidade?
Pois agora me deitarei no pó;
e, se me procuras,
já terei desaparecido.”
Comentários
Jó agora , em vez da agonia quase febril e cheia de dúvidas, mostra um espírito que pode ser carascterizado como suave, melancólico e sereno.
6: 1-9 e 7: 12-19 => é o argumento mais pesado de Jó
6: 1-7 :21 => Em sua primeira resposta aos amigos, Jó expressa seu anseio por compaixão e apoio, em vez de críticas.
6: 2 => queixa => Jó não era louco; ele precisava de compreensão.
6: 5-6 => resposta óbvia = não.
6: 9 => Jó acha que está preso a Deus:
‘solta a minha mão para que eu morra’
‘você precisa cuidar menos de mim’
‘você está olhando demais para mim’
=> Mesmo sofrendo, Jó entende que só tem vida em Deus. Ele sabe que na hora em que se separar de Deus, isso é morte.
6: 10 => Diante de sua dor, a morte traria alegria para Jó
6:11 => a luta contínua de Jó: por que ter esperança?
6:13=> sentimento de desamparo total.
6:14 => os amigos deveriam demonstrar compaixão.
6:15-21 => Os amigos de Jó são comparados a um rio temporário do Oriente Médio – caudaloso quando a neve das mont6anhas derrete, mas seco quando chega o calor. Isso seria um desapontamento terrível para os viajantes do deserto quando mais precisassem de água.
6:25 => Jó diz: o raciocínio de vocês é defeituoso porque suas promessas são falsas
6:30 => ‘será que eu não reconheceria quando algo está errado?
7:5 => encontrados em comida ou matéria em apodrecimento ( ver 25:6; Êxodo 16:24; Isaías 14:11). Jó afirma que seu corpo estava se decompondo.
7: 7 => Ver Gênesis 2:7; Salmo 104: 29-30; Salmo 146:4; Eclesiastes 12:7 nos quais ‘espírito’ é o mesmo que ‘sopro’. Os mortos são privados de todas as atividades da vida.
7:13-19 => Jó vê o cuidado de Deus como uma tortura e a morte se torna atraente para ele (Salmo 7:5)
=> “embora eu vá morrer, tu estás demorando demais para fazer isto acontecer.”
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