Interpretando as Escrituras: O que Jesus quis dizer ao ordenar que sejamos “perfeitos”? – Capítulo 61

Tom Shepherd

Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mateus 5:48).


Como é possível os seres humanos serem perfeitos como é perfeito o Pai celestial? Deus é um ser sem pecado; desde a queda, os seres humanos são criaturas pecaminosas por natureza (Efésios 2:3). De que forma podem eles ser perfeitos como é perfeito o Pai? O que Jesus quer dizer?

O Sermão da Montanha

As incisivas palavras de Jesus em Mateus 5:48 concluem a segunda seção do Sermão da Montanha. O sermão inteiro compreende Mateus 5-7, mas a seção mencionada se estende de 5:17 até 5:48. A seção se inicia com um preâmbulo no qual Jesus insiste em que não veio abolir a lei e os profetas, mas, sim, cumprir. Depois do preâmbulo, vem uma série de seis antíteses ou declarações contrastantes, nas quais Jesus, após citar uma passagem do Antigo Testamento ou um provérbio tradicional introduzido pela expressão “ouvistes que foi dito aos antigos […]”, replica com a frase “Eu, porém, vos digo que […]” (Mateus 5:21, 22).

As antíteses podem dar margem para supor que Jesus está rejeitando os ensinos do Antigo Testamento e substituindo-os por novos ensinos dEle próprio. Mas o que Jesus faz em cada caso é somente aprofundar a aplicação do ensino escriturístico do Antigo Testamento. Agindo assim, Ele mostra que Seu persistente propósito não era abolir as regras de conduta do Antigo Testamento, mas demonstrar como a aplicação dos antigos mandamentos de Deus é profunda e de longo alcance.

“Ele nos diz que sejamos perfeitos como Ele o é – da mesma maneira. Cumpre-nos ser centros de luz e bênção para o nosso pequeno círculo, da mesma maneira que Ele o é para o universo. Nada temos de nós mesmos, mas a luz de Seu amor resplandece sobre nós, e devemos refletir-Lhe a glória. ‘Bons na bondade que Ele nos empresta’, podemos ser perfeitos em nossa
esfera, da mesma maneira que Deus é perfeito na Sua” (MDC, p. 77).


Amar os inimigos

A última das antíteses encontra-se em Mateus 5:43-48 e trata da questão de amar os inimigos. Jesus cita um trecho de Levítico 19:18, “Amarás o teu próximo”, mas evidentemente lhe anexa um dito tradicional, “e odiarás o teu inimigo”. Depois faz uma réplica a essa declaração com a famosa máxima de que devemos amar nossos inimigos e orar por nossos perseguidores. O Mestre afirma então que, ao agir assim em relação a nossos inimigos, nós nos tornamos filhos de nosso Pai celestial, “porque Ele faz nascer o Seu Sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”. Amar os inimigos é, portanto, imitar a ação de Deus.

Jesus continua a fazer um contraste entre as generosas ações de Deus com as daqueles que amam somente a quem os amam ou a seus irmãos. Essa conduta, adverte Ele, não é melhor do que a adotada pelos cobradores de impostos e os gentios, pessoas geralmente consideradas fora do âmbito da religião bíblica. Temos aqui, portanto, um contraste de conduta e de grupo: de um lado, Deus demonstrando amor, cuidado e preocupação tanto com as pessoas boas como com as más; e do outro, os cobradores de impostos e os gentios que demonstram amor e cuidado somente entre si. Depois de todos esses ensinos é que vem o versículo em questão apelando para que os discípulos sejam perfeitos assim como é perfeito o Pai celestial.

Para entender o significado de Mateus 5:48 é essencial compreender seu contexto. A última das antíteses não define perfeição como ausência de defeitos nem como erradicação de todas as falhas morais, mas como a capacidade de estender nosso amor àquele grupo que se acha mais afastado de nós: nossos inimigos. Mais uma vez, dentro de todo o conjunto de antíteses, o chamado à perfeição em Mateus 5:48 inclui o senso da mais profunda pureza moral, como quando, por exemplo, Jesus redefine homicídio como ódio e adultério como olhar cobiçoso, e condena a prática tanto de uma coisa como da outra.

Diante desses superlativos, poderíamos ser tentados a simplesmente desistir do discipulado ou então adotar a abordagem do autor da Didaquê (2º século d.C.), que assim faz alusão a este dito: “Você será perfeito se conseguir suportar todo o jugo do Senhor, mas se isso não for possível, faça o que puder.” Ou podemos ir ainda tão longe, como insistem alguns, afirmando que Jesus não quis dizer o que Ele disse; afinal a perfeição é impossível e, além disso, desnecessária, já que o cristão é salvo unicamente pela graça.

O significado de “perfeito”

Mas nós perdemos algo profundamente importante se tomarmos qualquer um desses “atalhos”. O termo grego para a perfeição em Mateus 5:48 é teleios, que significa “perfeito, sem defeito, completo, totalmente desenvolvido, maduro, que alcança seu fim ou propósito”.1 Quando uma coisa está plenamente desenvolvida e alcança seu objetivo, é chamada de teleios, “perfeita”. A vida cristã tem um objetivo. Ela aponta para o Céu. A vocação do evangelho é inconfundível (Filipenses 3:12-14). Deus nos aceita onde quer que nos encontremos, mas nunca nos deixa lá. Ele nos leva numa jornada rumo à maturidade cristã. A ordem de Jesus expressa o resultado dessa jornada. Aceitar a ordem é aceitar a jornada e andar segundo Sua vontade. A meta da perfeição – da maturidade cristã, de ser semelhante a nosso Pai celestial – nos é apresentada, não para nos desencorajar, mas para servir como nossa estrela-guia num mundo de trevas morais.

1 Ver William Arndt, e F. Wilbur Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Cambridge: University of Chicago Press, 1957), s.v. teleios.

Bons hábitos não se adquirem em aniversários, nem caráter cristão, no anonovo. A oficina do caráter é a vida toda. É no cotidiano corriqueiro e sem ocorrências especiais que a batalha é ganha ou perdida. (Maltbie D. Babcock)


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