Ano Bíblico 2019 – 300º Dia – Atos 21: 17 a 23


    Leitura Bíblica:

    Atos 21: 17 – 40

   Atos 22

   Atos 23


Livro de Atos


Leitura Complementar: Paulo Prisioneiro

Por Ellen White
Atos dos Apóstolos ou Os Embaixadores
Este capítulo é baseado em Atos 21: 17 a 23; 1 Coríntios 2: 4, 10  ,13.




E logo que chegamos a Jerusalém, os irmãos nos receberam de muito boa vontade. E no dia seguinte Paulo entrou conosco em casa de Tiago, e todos os anciãos vieram ali”. Atos 21:17, 18. 

Nessa ocasião, Paulo e seus companheiros formalmente apresentaram aos dirigentes da obra em Jerusalém as contribuições enviadas pelas igrejas gentílicas para o sustento dos pobres existentes entre os irmãos judeus. A arrecadação dessas contribuições havia custado ao apóstolo e a seus colaboradores, muito tempo, profunda ansiedade e intenso trabalho. A importância, que excedia em muito à expectativa dos anciãos de Jerusalém, representava muitos sacrifícios e mesmo severas privações da parte dos crentes gentios. 
Essas ofertas voluntárias traduziam a lealdade dos conversos gentios para com a obra de Deus organizada em todo o mundo, e deviam ter sido por todos recebidas com grato reconhecimento; entretanto, era manifesto a Paulo e seus colaboradores que, mesmo dentre aqueles diante de quem agora estavam, havia alguns que eram incapazes de apreciar o espírito de amor fraternal que prodigalizara as ofertas. 
Nos primeiros anos da obra do evangelho entre os gentios, alguns dos irmãos dirigentes de Jerusalém, apegando-se a anteriores preconceitos e modos de pensar, não haviam cooperado sinceramente com Paulo e seus companheiros. Em sua ansiedade por preservar umas poucas formas e cerimônias insignificantes, tinham perdido de vista as bênçãos que poderiam advir a eles e à causa que amavam, mediante um esforço para unir numa só todas as partes da obra do Senhor. Embora estivessem desejosos de salvaguardar os melhores interesses da igreja cristã, tinham deixado de manter-se atentos às progressivas providências de Deus, e em sua humana sabedoria tinham procurado entravar os obreiros com muitas restrições desnecessárias. Assim, surgiu ali um grupo de homens que não estavam familiarizados pessoalmente com as circunstâncias difíceis e peculiares necessidades enfrentadas pelos obreiros em campos distantes, e que, entretanto, sustentavam ter autoridade para levar seus irmãos nesses campos a seguir certos e determinados métodos de trabalho. Julgavam que a obra de pregar o evangelho tinha de ser levada avante em harmonia com suas opiniões. 
Vários anos haviam passado desde que os irmãos em Jerusalém, juntamente com representantes de outras igrejas principais, tinham dado cuidadosa atenção às perturbadoras questões que haviam surgido com respeito a métodos seguidos pelos que trabalhavam entre os gentios. Como resultado desse concílio, os irmãos tinham sido unânimes em fazer definidas recomendações às igrejas concernentes a certos ritos e costumes, inclusive a circuncisão. Nesse concílio geral os irmãos foram também unânimes em recomendar Paulo e Barnabé às igrejas cristãs como obreiros dignos da inteira confiança de cada crente.
Havia entre os presentes a essa reunião, alguns que haviam criticado severamente os métodos de trabalho seguidos pelos apóstolos sobre quem repousava o principal encargo de levar o evangelho ao mundo gentio. Mas durante o concílio, sua visão do propósito de Deus se tinha ampliado, e eles se uniram a seus irmãos em fazer sábias decisões que tornaram possível a unificação de todo o corpo de crentes. 
Posteriormente, quando se tornou claro que os conversos dentre os gentios estavam aumentando rapidamente, houve alguns poucos dentre os irmãos dirigentes em Jerusalém que começaram de novo a acariciar seus anteriores preconceitos contra os métodos de Paulo e seus companheiros. 
Esses preconceitos se fortaleceram com o passar dos anos, até que alguns dos dirigentes determinaram que a obra de pregar o evangelho devia daí por diante ser dirigida de acordo com suas próprias ideias. Se Paulo conformasse seus métodos a certa orientação por eles defendida, reconheceriam sua obra e a sustentariam; de outro modo, não mais a veriam com favor nem lhe concederiam a manutenção. 
Esses homens haviam perdido de vista o fato de que Deus é o Mestre de Seu povo; que cada obreiro em Sua causa deve alcançar uma experiência pessoal em seguir o divino Líder, e não em buscar dos homens guia direta; que Seus obreiros devem ser talhados e moldados, não segundo as ideias do homem, mas segundo a semelhança divina. 
Em seu ministério, o apóstolo Paulo tinha ensinado o povo não com “palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder” As verdades que proclamava tinham-lhe sido reveladas pelo Espírito Santo; “porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. […] As quais”, declara Paulo, “também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais”. 1 Coríntios 2:4, 10-13.
Através de seu ministério, Paulo tinha buscado orientação direta de Deus. Ao mesmo tempo, tinha sido muito cuidadoso em trabalhar em harmonia com as decisões do concílio geral de Jerusalém; e como resultado, as igrejas “eram confirmadas na fé, e cada dia cresciam em número”. Atos 16:5. E agora, apesar da falta de simpatia mostrada por alguns, encontrava conforto na tranquila consciência de que havia cumprido seu dever ao encorajar em seus conversos um espírito de lealdade, generosidade e amor fraternal, como se revelou nessa ocasião nas contribuições liberais que lhe foi possível colocar diante dos anciãos judeus. 
Após a apresentação das ofertas, Paulo “contou-lhes por miúdo o que por seu ministério Deus fizera entre os gentios” Essa exposição de fatos levou ao coração de todos, mesmo dos que tinham estado a duvidar, a convicção de que a bênção do Céu tinha acompanhado seu trabalho. “E, ouvindo-o eles, glorificaram ao Senhor”. Atos 21:19, 20. Eles sentiram que os métodos de trabalho seguidos pelo apóstolo levavam a aprovação do Céu. As liberais contribuições que tinham perante si, acrescentavam peso ao testemunho do apóstolo no tocante à fidelidade das novas igrejas estabelecidas entre os gentios. Os homens que, embora contados entre os que tinham o encargo da obra em Jerusalém, tinham insistido em que se adotassem arbitrárias medidas de controle, viram o ministério de Paulo sob nova luz, e ficaram convencidos de que seu próprio procedimento tinha sido errado, que haviam estado escravizados pelas tradições e costumes judaicos, e que a obra do evangelho tinha sido grandemente embaraçada por não haverem reconhecido que o muro de separação entre judeus e gentios tinha sido derribado pela morte de Cristo. 
Foi essa uma áurea oportunidade para todos os irmãos dirigentes francamente confessarem que Deus operara por Paulo, e que haviam por vezes errado, permitindo que os boatos dos inimigos despertassem neles inveja e preconceito. Mas em vez de se unirem num esforço a fim de fazer justiça àquele que fora ofendido, deram-lhe um conselho que revelava nutrirem ainda a ideia de que Paulo devesse ser em grande parte responsabilizado pelos preconceitos existentes. Não se puseram nobremente ao lado dele para defendê-lo, esforçando-se por mostrar aos desgostosos irmãos onde eles próprios estiveram errados, mas procuraram criar um compromisso aconselhando-o a seguir um caminho que na opinião deles removeria toda causa de equívoco. 
“Bem vês, irmão,” disseram em resposta a seu testemunho, “quantas dezenas de milhares há entre os judeus que creram, e todos são zelosos da lei; e foram informados a teu respeito que ensinas todos os judeus entre os gentios a apostatarem de Moisés, dizendo-lhes que não devem circuncidar os filhos, nem andar segundo os costumes da lei. Que se há de fazer, pois? Certamente saberão da tua chegada. Faze, portanto, o que te vamos dizer: estão entre nós quatro homens que, voluntariamente, aceitaram voto; toma-os, purifica-te com eles e faze a despesa necessária para que raspem a cabeça; e saberão todos que não é verdade o que se diz a teu respeito; e que, pelo contrário, andas também, tu mesmo, guardando a lei. Quanto aos gentios que creram, já lhes transmitimos decisões para que se abstenham das coisas sacrificadas a ídolos, do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas”. Atos 21:20 – 25. 

Os irmãos esperavam que, seguindo Paulo o procedimento sugerido, pudesse contrariar de maneira decisiva as falsas notícias concernentes a ele. Asseguraram-lhe que a decisão do concílio anterior no tocante aos conversos gentios e à lei cerimonial, ainda vigorava. Mas o conselho agora dado não estava em harmonia com aquela decisão. O Espírito de Deus não ratificou essa instrução; foi ela fruto da covardia. Os líderes da igreja em Jerusalém sabiam que, por se não conformarem com a lei cerimonial, os cristãos atrairiam sobre si o ódio dos judeus, e se exporiam à perseguição. O Sinédrio estava fazendo o máximo para deter o progresso do evangelho. Por ele foram escolhidos homens para seguirem os apóstolos, especialmente Paulo, e por toda a maneira possível opor-se a sua obra. Se os crentes em Cristo fossem condenados pelo Sinédrio como quebrantadores da lei, seriam levados a sofrer imediata e severa punição como apóstatas da fé judaica. 
Muitos dos judeus que haviam aceitado o evangelho acariciavam ainda certa deferência pela lei cerimonial, e estavam demasiado dispostos a fazer perigosas concessões, esperando assim ganhar a confiança de seus concidadãos, remover seus preconceitos e ganhá-los para a fé em Cristo como o Redentor do mundo. Paulo compreendeu que, por todo o tempo em que muitos dos principais membros da igreja em Jerusalém continuassem a manter o preconceito contra ele, procurariam constantemente prejudicar sua influência. Acreditava que se por alguma concessão razoável pudesse ganhá-los para a verdade, removeria um grande obstáculo ao êxito do evangelho em outros lugares. Não se achava, porém, autorizado por Deus para ceder tanto quanto pediam. 
Quando pensamos no grande desejo de Paulo em harmonizar-se com seus irmãos, sua bondade para com os fracos na fé, sua reverência pelos apóstolos que haviam estado com Cristo, e por Tiago, o irmão do Senhor, e seu propósito de tornar-se tanto quanto possível tudo para com todos sem sacrificar princípios — quando pensamos em tudo isso, surpreende menos que ele tenha sido constrangido a se desviar do caminho firme e decidido que até aí seguira. Mas em vez de alcançar o objetivo desejado, seus esforços pela conciliação apenas precipitaram a crise, apressaram os sofrimentos que lhe estavam preditos, e resultaram em separá-lo de seus irmãos, privando a igreja de uma de suas mais fortes colunas, e levando a tristeza aos corações cristãos em toda parte. 
No dia seguinte, Paulo começou a executar o conselho dos anciãos. Os quatro homens que haviam feito o voto de nazireus (Números 6), cujo termo estava quase cumprido, foram levados por Paulo ao templo, “anunciando serem já cumpridos os dias da purificação; e ficou ali até se oferecer por cada um deles a oferta”. Atos dos Apóstolos 21:26. Certos dispendiosos sacrifícios para a purificação ainda deveriam ser oferecidos.
Os que aconselharam Paulo a dar esse passo não haviam considerado bem o grande perigo a que estaria assim exposto. Jerusalém estava, nessa época, regurgitando de adoradores vindos de muitas terras. Quando, em cumprimento da comissão que lhe fora imposta por Deus, Paulo anunciara o evangelho aos gentios, visitara muitas das maiores cidades do mundo, e era bem conhecido de milhares que, de terras estrangeiras, tinham vindo a Jerusalém para assistir à festa. Entre esses, havia homens cujo coração se enchera de amargo ódio contra Paulo; e sua entrada no templo numa tal ocasião pública significava arriscar a vida. Por vários dias, entrou e saiu entre os adoradores, aparentemente despercebido; mas, antes do fim do tempo especificado, ao estar falando com um sacerdote a respeito dos sacrifícios a serem oferecidos, foi reconhecido por alguns dos judeus da Ásia. 
Com fúria de demônios precipitaram-se sobre ele, clamando: “Varões israelitas, acudi; este é o homem que por todas as partes ensina a todos, contra o povo e contra a lei, e contra este lugar” E como o povo correspondesse ao pedido de auxílio, outra acusação foi acrescentada: “E, demais disto, introduziu também no templo os gregos, e profanou este santo lugar”. Atos 21:27, 28. 
Pela lei judaica era crime punível com a morte entrar uma pessoa incircuncisa nos pátios internos do edifício sagrado. Paulo tinha sido visto na cidade em companhia de Trófimo, um efésio, e conjeturou-se que o houvesse trazido ao templo. Isso ele não fizera; e, sendo ele mesmo judeu, seu ato de entrar no templo não era violação da lei. Mas, embora a acusação fosse inteiramente falsa, serviu para despertar o preconceito popular. E como o clamor se levantasse e fosse levado aos pátios do templo, as multidões ali reunidas foram lançadas em violento despertar. A notícia rapidamente se espalhou por Jerusalém, e “alvoroçou-se toda a cidade, e houve grande concurso de povo”. Atos 21:30. 
Que um apóstata de Israel ousasse profanar o templo na mesma ocasião em que milhares de todas as partes do mundo tinham vindo ali para adorar, despertou as mais violentas paixões da multidão. “Pegando de Paulo, o arrastaram para fora do templo, e logo as portas se fecharam”.
“E, procurando eles matá-lo, chegou ao tribuno da coorte o aviso de que Jerusalém estava toda em confusão” Cláudio Lísias bem conhecia os elementos turbulentos com quem tinha de tratar, e, “tomando logo consigo soldados e centuriões, correu para eles. E, quando viram o tribuno e os soldados, cessaram de ferir a Paulo” Ignorando a causa do tumulto, mas vendo que a raiva da multidão se dirigia contra Paulo, o tribuno romano concluiu que ele deveria ser um certo egípcio rebelde de quem ouvira falar e que até aí conseguira escapar de ser capturado. Portanto, ele “o prendeu e o mandou atar com duas cadeias, e lhe perguntou quem era e o que tinha feito” De pronto, muitas vozes se levantaram em altas e raivosas acusações: “uns clamavam duma maneira, outros doutra; mas, como nada podia saber ao certo, por causa do alvoroço, mandou conduzi-lo para a fortaleza. E sucedeu que, chegando às escadas, os soldados tiveram de lhe pegar por causa da violência da multidão. Porque a multidão do povo o seguia, clamando: Mata-o”.
No meio do tumulto, o apóstolo estava calmo e senhor de si. Seu pensamento permanecia em Deus, e sabia que anjos do Céu estavam ao redor dele. Sentia-se indisposto a afastar-se do templo sem fazer qualquer esforço por apresentar a verdade a seus compatriotas. Quando estava para ser conduzido à fortaleza, disse ao tribuno: “É me permitido dizer-te alguma coisa?” Lísias respondeu: “Sabes o grego? Não és tu porventura aquele egípcio que antes destes dias fez uma sedição e levou ao deserto quatro mil salteadores?” Em resposta disse Paulo: “Na verdade que sou um homem judeu, cidadão de Tarso, cidade não pouco célebre na Cilícia; rogo-te, porém, que me permitas falar ao povo”
O pedido foi satisfeito, e “Paulo, pondo-se em pé nas escadas, fez sinal com a mão ao povo” O gesto atraiu a atenção deles, enquanto o seu porte impunha respeito. “E, feito grande silêncio, falou-lhes em língua hebraica, dizendo: Varões irmãos e pais, ouvi agora a minha defesa perante vós” Ao soarem as familiares palavras hebraicas, “maior silêncio guardaram” (Atos 21:30-40); e no completo silêncio ele continuou: 
“Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós o sois no dia de hoje”. Atos dos Apóstolos 22:3. Ninguém podia negar as afirmações do apóstolo, porquanto os fatos a que se referia eram bem conhecidos de muitos que ainda estavam vivendo em Jerusalém. Falou, então, de seu antigo zelo em perseguir os discípulos de Cristo, até mesmo à morte; e narrou as circunstâncias de sua conversão, contando a seus ouvintes como seu próprio orgulhoso coração tinha sido levado a se render ao crucificado Nazareno. Tivesse ele procurado entrar em discussão com seus oponentes, e ter-se-iam recusado teimosamente a ouvir suas palavras; mas o relato de sua experiência foi acompanhado de um convincente poder que naquele momento pareceu abrandar e subjugar-lhes o coração.
Ele procurou, então, mostrar que não tinha entrado de livre escolha na obra pelos gentios. Havia desejado trabalhar por sua própria nação; mas nesse mesmo templo a voz de Deus lhe falara em santa visão, dirigindo seu caminho “aos gentios de longe”.
Até esse momento o povo escutou com toda a atenção; mas quando Paulo chegou em sua história ao ponto em que fora designado como embaixador de Cristo aos gentios, seu furor irrompeu de novo. Acostumados a considerarem-se como único povo favorecido por Deus, não estavam dispostos a permitir que os desprezados gentios participassem dos privilégios que até então tinham sido considerados exclusivamente deles. Erguendo suas vozes mais alto que a do orador, clamaram: “Tira da Terra um tal homem, porque não convém que viva”.
“E, clamando eles, e arrojando de si os vestidos, e lançando pó para o ar, o tribuno mandou que o levassem para a fortaleza, dizendo que o examinassem com açoites, para saber por que causa assim clamavam contra ele. 
“E, quando o estavam atando com correias, disse Paulo ao centurião que ali estava: É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado? E, ouvindo isto, o centurião foi, e anunciou ao tribuno, dizendo: Vê o que vais fazer, porque este homem é romano. E, vindo o tribuno, disse-lhe: Dize-me, és tu romano? E ele disse: Sim. E respondeu o tribuno: Eu com grande soma de dinheiro alcancei este direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu sou-o de nascimento. E logo dele se apartaram os que o haviam de examinar; e até o tribuno teve temor, quando soube que era romano, visto que o tinha ligado.
“E no dia seguinte, querendo saber ao certo a causa por que era acusado pelos judeus, soltou-o das prisões, e mandou vir os principais dos sacerdotes, e todo o seu conselho; e, trazendo Paulo, o apresentou diante deles”. Atos 22:22-30. 
O apóstolo deveria, agora, ser julgado pelo mesmo tribunal de que ele próprio fora membro antes de sua conversão. Estando perante os príncipes judeus, seu porte era calmo, e o rosto revelava a paz de Cristo. “E pondo Paulo os olhos no conselho, disse: Varões irmãos, até ao dia de hoje tenho andado diante de Deus com toda a boa consciência” Ao ouvirem estas palavras, reacendeu-se-lhes o ódio; e “o sumo sacerdote, Ananias, mandou aos que estavam junto dele que o ferissem na boca” A essa ordem desumana, Paulo exclamou: “Deus te ferirá, parede branqueada; tu estás aqui assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir? E os que ali estavam disseram: Injurias o sumo sacerdote de Deus?” Com sua cortesia costumeira Paulo respondeu: “Não sabia, irmãos, que era o sumo sacerdote; porque está escrito: Não dirás mal do príncipe do teu povo. 
“E Paulo, sabendo que uma parte era de saduceus e outra de fariseus, clamou no conselho: Varões irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseu; no tocante à esperança e ressurreição dos mortos sou julgado. 
“E, havendo dito isto, houve dissensão entre os fariseus e saduceus, e a multidão se dividiu” Os dois partidos começaram a discutir entre si, e assim se quebrara a força de sua oposição contra Paulo. “Levantando-se os escribas da parte dos fariseus, contendiam, dizendo: Nenhum mal achamos neste homem, e, se algum espírito ou anjo lhe falou, não resistamos a Deus”. Atos 23:1-9. 
Na confusão que se seguiu, os saduceus esforçavam-se ardorosamente por apoderar-se do apóstolo, para que o pudessem matar; e os fariseus estavam igualmente empenhados em seus esforços para o proteger. “O tribuno, temendo que Paulo fosse despedaçado por eles, mandou descer a soldadesca, para que o tirassem do meio deles, e o levassem para a fortaleza”. Atos 23:10
Mais tarde, enquanto refletia sobre as experiências decisivas daquele dia, Paulo começou a recear que sua conduta pudesse não ter sido agradável a Deus. Seria, afinal, que houvesse cometido um erro visitando Jerusalém? Teria seu grande desejo de estar em união com seus irmãos levado a esse desastroso resultado? 
A posição que os judeus, como povo professo de Deus, ocupavam perante um mundo incrédulo, causava ao apóstolo intensa angústia de espírito. Como os considerariam esses oficiais pagãos? Alegando ser adoradores de Jeová, e exercendo sagrado ofício, entregavam-se não obstante ao controle de uma ira irrazoável e cega, procurando destruir até mesmo a seus irmãos que ousavam diferir deles em fé religiosa, e tornando o seu mais solene conselho deliberativo numa cena de batalha e selvagem confusão. Paulo sentia que o nome de seu Deus tinha sido desonrado aos olhos dos pagãos. 
E agora estava ele na prisão, e sabia que seus inimigos em sua desesperada maldade recorreriam a todos os meios para dar-lhe a morte. Seria o caso de estar sua obra pelas igrejas terminada, e que lobos vorazes estivessem para se introduzir nela? A causa de Cristo estava muito perto do coração de Paulo, e com grande ansiedade pensava nos perigos das igrejas espalhadas, expostas como estavam às perseguições de homens precisamente como os que encontrara no conselho do Sinédrio. Com angústia e desfalecimento chorou e orou. 
Nessa hora tenebrosa, o Senhor não Se esqueceu de Seu servo. Guardara-o da multidão assassina nos pátios do templo; estivera com ele perante o conselho do Sinédrio; com ele estava na fortaleza; e Se revelou como a Sua fiel testemunha em resposta às fervorosas orações do apóstolo, em que pedia que o guiasse. “E, na noite seguinte, apresentando-Se-lhe o Senhor, disse: Paulo, tem ânimo; porque, como de Mim testificaste em Jerusalém, assim importa que testifiques também em Roma”. Atos 23:11.
Havia muito que Paulo queria visitar Roma; desejava muitíssimo testemunhar de Cristo ali, mas compreendera que seus propósitos se frustraram pela inimizade dos judeus. Mal imaginava, mesmo então, que seria como prisioneiro que chegaria em Roma. 
Enquanto o Senhor encorajava Seu servo, os inimigos de Paulo estavam avidamente tramando sua destruição. “E, quando já era dia, alguns dos judeus fizeram uma conspiração, e juraram, dizendo que não comeriam nem beberiam enquanto não matassem a Paulo. E eram mais de quarenta os que fizeram essa conjuração”. Atos 23:12, 13.
Aqui estava um jejum tal como o Senhor condenara por intermédio de Isaías — um jejum para “contendas e debates”, e para darem “punhadas impiamente”. Isaías 58:4. 
Os conspiradores “foram ter com os principais dos sacerdotes e anciãos, e disseram: Conjuramo-nos, sob pena de maldição, a nada provarmos até que matemos a Paulo. Agora, pois, vós, com o conselho, rogai ao tribuno que vo-lo traga amanhã, como que querendo saber mais alguma coisa de seus negócios, e, antes que chegue, estaremos prontos para o matar”. Atos 23:15. 
Em lugar de reprovar esse plano cruel, os príncipes e sacerdotes mais que depressa o aceitaram. Paulo havia dito a verdade quando comparou Ananias a um sepulcro branqueado. 
Mas Deus Se interpôs para salvar a vida de Seu servo. O filho da irmã de Paulo, ouvindo desta “cilada” dos assassinos, “foi e entrou na fortaleza e o anunciou a Paulo. E Paulo, chamando a si um dos centuriões, disse: Leva este mancebo ao tribuno, porque tem alguma coisa que lhe comunicar. Tomando-o ele, pois, o levou ao tribuno e disse: O preso Paulo, chamando-me a si, me rogou que te trouxesse este mancebo, que tem alguma coisa que dizer-te”. Atos 23:16, 18.
Cláudio Lísias recebeu o jovem bondosamente, e tomando-o à parte perguntou: “Que tens que me contar?” O jovem respondeu: “Os judeus se concertaram rogar-te que amanhã leves Paulo ao conselho, como que tendo de inquirir dele mais alguma coisa ao certo; mas tu não os creiais; porque mais de quarenta homens dentre eles lhe andam armando ciladas; os quais se obrigaram, sob pena de maldição, a não comerem nem beberem até que o tenham morto; e já estão apercebidos, esperando de ti promessa” “Então o tribuno despediu o mancebo, mandando-lhe que a ninguém dissesse que lhe havia contado aquilo”. Atos 23:19-22. 
Lísias imediatamente decidiu transferir Paulo de sua jurisdição para a de Félix, o procurador. Como um povo, os judeus estavam num estado de agitação e irritação e eram frequentes os tumultos. A presença permanente do apóstolo em Jerusalém podia levar a consequências perigosas para a cidade, e até mesmo para o próprio comandante. Assim pois, “chamando dois centuriões, lhes disse: Aprontai para as três horas da noite duzentos soldados, e setenta de cavalo, e duzentos arqueiros para irem até Cesaréia; e aparelhai cavalgaduras, para que, pondo nelas a Paulo, o levem salvo ao presidente Félix”. Atos 23:23, 24.
Nenhum tempo devia ser perdido em enviar Paulo. “Tomando pois os soldados a Paulo, como lhe fora mandado, o trouxeram de noite a Antipátride”. Atos dos Apóstolos 23:31. Deste lugar os cavaleiros foram com o prisioneiro para Cesaréia, enquanto os quatrocentos soldados retornaram a Jerusalém. 
O oficial a cujo cargo estava o destacamento, entregou a Félix o prisioneiro, apresentando também uma carta que lhe tinha sido confiada pelo tribuno: 
“Cláudio Lísias, a Félix, potentíssimo presidente, saúde. Esse homem foi preso pelos judeus; e, estando já a ponto de ser morto por eles, sobrevim eu com a soldadesca, e o livrei, informado de que era romano. E, querendo saber a causa por que o acusavam, o levei ao seu conselho. E achei que o acusavam de algumas questões da sua lei; mas que nenhum crime havia nele digno de morte ou de prisão. E, sendo-me notificado que os judeus haviam de armar ciladas a esse homem, logo to enviei, mandando também aos acusadores que perante ti digam o que tiverem contra ele. Passa bem”. Atos 23: 26-30.
Após ler a comunicação, Félix inquiriu de que província era o prisioneiro, e informado que da Cilícia, disse: “Ouvir-te-ei… quando também aqui vierem os teus acusadores. E mandou que o guardassem no pretório de Herodes”. Atos 23:35. 
O caso de Paulo não era o primeiro em que um servo de Deus encontrava entre os pagãos um abrigo da maldade do professo povo de Jeová. Em sua cólera contra Paulo, os judeus haviam acrescentado mais um crime ao tenebroso catálogo que marcava a história desse povo. Haviam endurecido ainda mais o coração contra a verdade e tornado mais certa a sua condenação. 
Poucos compreendem o amplo significado das palavras ditas por Cristo quando, na sinagoga de Nazaré apresentara-Se como o Ungido. Ele anunciara Sua missão de confortar, abençoar e salvar os aflitos e pecadores; e então, vendo que a incredulidade e o orgulho controlavam o coração de Seus ouvintes, Ele recordou que, no passado, Deus Se havia retirado de Seu povo escolhido por causa de sua incredulidade e rebelião, e Se tinha manifestado aos das terras pagãs que não haviam rejeitado a luz do Céu. A viúva de Sarepta e Naamã da Síria tinham vivido à altura de toda a luz que possuíam; assim foram eles considerados mais justos que o povo escolhido de Deus que se tinha desviado dEle, e sacrificado o princípio à conveniência e à honra mundana. 
Cristo disse aos judeus de Nazaré uma terrível verdade quando declarou que com o apóstata Israel não havia segurança para o fiel mensageiro de Deus. Eles não reconheceriam seu valor nem apreciariam seus labores. Enquanto os dirigentes judeus professavam ter grande zelo pela honra de Deus e o bem de Israel, eram inimigos de ambos. Por preceito e exemplo estavam levando o povo mais e mais longe da obediência a Deus — guiando-o onde Deus não poderia ser sua defesa no dia da angústia. 
As palavras de reprovação do Salvador, aos homens de Nazaré, aplicavam-se, no caso de Paulo, não apenas aos incrédulos judeus, mas a seus próprios irmãos na fé. Houvessem os dirigentes na igreja abandonado inteiramente seus sentimentos de amargura contra o apóstolo, aceitando-o como alguém especialmente chamado por Deus para levar o evangelho aos gentios, e o Senhor o teria poupado para eles. Deus não havia ordenado que os trabalhos de Paulo tão cedo tivessem fim; mas não operou um milagre para conter o encadeamento de circunstâncias que a atitude dos dirigentes da igreja em Jerusalém haviam provocado. 
Esse espírito está ainda produzindo os mesmos resultados. A negligência em apreciar e aproveitar as provisões da divina graça tem privado a igreja de muitas bênçãos. Quantas vezes teria o Senhor prolongado a obra de um fiel ministro, tivesse seu trabalho sido apreciado! Mas se a igreja permite ao inimigo perverter o entendimento, de maneira que representem e interpretem mal as palavras e atos do servo de Cristo; se se permitem opor-se-lhe e estorvar a utilidade própria, o Senhor, às vezes, remove deles a bênção que Ele deu. 
Satanás está constantemente operando por meio de seus agentes para desanimar e destruir aqueles a quem Deus tem escolhido para realizar uma grande e boa obra. Podem eles estar prontos para sacrificar mesmo a própria vida para o avançamento da causa de Cristo, não obstante o grande enganador sugerirá a seus irmãos dúvidas referentes a eles que, se mantidas, minarão a confiança em sua integridade de caráter, impedindo assim sua utilidade. Muitas vezes, ele alcança êxito em acarretar sobre eles, por intermédio de seus próprios irmãos, tal tristeza de coração que Deus graciosamente Se interpõe para dar repouso a Seus perseguidos servos. Depois que as mãos estão dobradas sobre o peito que já não vibra, quando a voz de advertência e encorajamento está em silêncio, então os obstinados podem ser despertados para ver e apreciar a bênção que repeliram. Sua morte pode realizar o que sua vida não conseguir fazer. 








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