O Sonho de Nabucodonosor dos Impérios Mundiais

por Siegfried J. Schwantes

O sonho de Nabucodonosor é datado do segundo ano de seu reinado (v.1). Uma vez que é Daniel que afinal lembra o rei o sonho e diz-lhe a interpretação, há quem diga que este verso contradiz a informação contida em 1:5, que afirma que Daniel e seus companheiros deviam ser educados durantes 3 anos. Não há, porém, contradição se se leva em consideração o fato que a primeira campanha de Nabucodonosor no território da Síria e da Palestina realizou-se em seu ano de ascensão, isto é, em 605 a.C. A educação de Daniel teria começado durante o ano de ascensão de Nabucodonosor que se estendeu de setembro de 605 a.C. até a primavera de 604. Teria continuado durante seu primeiro ano, primavera de 604 a.C. a primavera de 603 e teria durado até um ponto no segundo ano de seu reinado, 603/602. Além disto os judeus seguiam o sistema inclusivo de contar, isto é, mesmo uma fração de um ano era contada como um ano inteiro, do mesmo modo que uma fração de um dia era contada como o dia todo. Ver. Ester 4:16 e 5:1 como um exemplo de como parte de um dia era contada como um dia todo. Do mesmo modo os “3 dias e 3 noites” que Jesus passou no ventre da terra (Mateus 12:40) compreenderam na realidade somente parte da sexta feira, todo o sábado e parte do domingo. Trata-se de uma expressão idiomática que deve ser entendida à moda dos que a compuseram.

A trivialidade da maior parte dos sonhos não significa que sonhos não possam ser usados excepcionalmente como um meio de revelação divina. O V.T. atesta um tal uso e Joel fala do tempo quando “vossos velhos sonharão e vossos jovens terão visões” (Joel 2:28).

Numa cultura na qual sonhos eram tidos como significantes, não admira que DEUS usasse um tal veículo para comunicar a Nabucodonosor uma mensagem repleta de significado.¹

Em caso de sonhos inquietantes o rei podia contar com o conselho de mágicos, encantadores, feiticeiros e caldeus para interpretá-los de acordo com manuais, dos quais diversas cópias têm vindo à luz. O caráter fictício de tais manuais salta à vista. O fato de que nenhum exemplo foi encontrado nos textos babilônicos do uso do termo caldeu para designar peritos em magia, tem sido alegado por alguns estudiosos como indício da data tardia do livro de Daniel. Haja vista, porém, que Heródoto (c. 450 a.C.) usou o termo neste sentido. Ora, se Heródoto usou o termo neste sentido restrito menos de um século depois do tempo de Daniel, é difícil negar a possibilidade de que o termo já levava esta conotação no tempo em que seu livro foi escrito.

2:4 Este verso marca a transição do hebraico para o aramaico, que continua sendo a língua do livro até o final do cap. 7. A transição foi ocasionada pelo fato de que os caldeus responderam ao rei em aramaico. Sendo de origem caldaica, o rei não teria problema em compreender o aramaico, que desempenhava nesta época no meio oriente o mesmo papel que o latim na Idade Média. Familiarizado em ambas as línguas, Daniel continuou a escrever em aramaico até depor a pena no final do capítulo 7. Quando noutra ocasião ele redigiu os últimos capítulos do livro voltou ao uso do hebraico. Alguns estudiosos veem na estrutura AB – A do livro, hebraico-aramaico-hebraico, um argumento para a unidade do livro. Chamam atenção para o fato de que o código de Hamurábi apresenta o mesmo tipo de estrutura- as leis escritas em prosa são enquadradas entre o prólogo e o epílogo redigidos em estilo poético em estilo altissonante.

É interessante notar que os caldeus atuaram como porta-vozes do grupo todo de adivinhos, provavelmente por causa de sua posição privilegiada na corte. A incapacidade dos sábios de Babilônia de recontar ao rei seu sonho põe em relevo a sabedoria de Daniel recebida do único DEUS verdadeiro. É provável que as pretensões absurdas dos adivinhos tenham despertado na mente na mente do rei expectativas altas demais. O que tornava a situação pior é que a capacidade de alguém em recordar um sonho era tida como um sinal de que seu deu estava encolerizado contra ele.²  Ameaçado de morte por sua inaptidão em satisfazer a exigência do rei os caldeus finalmente admitiram: “A cousa que o rei exige é difícil e ninguém há que possa revelar diante do rei, senão os deuses, e eles não moram com os homens” (v.11).

Esta confissão marcava como fraudulenta suas pretensões de possuir um conhecimento superior. Embora Daniel e seus companheiros não tivessem sido incluídos na primeira convocação dos sábios, deviam sofrer com eles a mesma penalidade de morte (vv.12-13).

Irracionalidade não é monopólio dos modernos ditadores. Ao ser notificado do decreto de morte por Arioque, chefe da guarda do rei, Daniel não hesitou em apresentar-se ao monarca para pleitear uma audiência futura para lhe revelar o sonho e sua interpretação (v.16). A coragem manifestada por Daniel, cremos, foi inspirada por sua perfeita confiança no DEUS que ele servia.

O que se segue é uma cena comovente de comunhão com DEUS na qual figuram Daniel e seus 3 companheiros. Eles pleitearam que DEUS lhes revelasse o mistério relacionado com o sonho do rei, porque desta revelação dependia sua própria vida. Sua fé foi honrada, e o mistério foi revelado a Daniel numa visão da noite (v.19). A primeira reação de Daniel foi de expressar sua gratidão numa prece que aparece em forma poética em nosso texto (vv.20-23). Ele louva a DEUS por Sua sabedoria e poder e por Sua soberania sobre o tempo e as estações o que equivale a dizer sobre o curso da História. Neste hino de louvor Daniel anuncia o tema de todo o livro quando declara: É DEUS Quem “remove reis e estabelece reis” (v.21). No conflito dos séculos esboçado no próprio sonho dado a Nabucodonosor, Daniel expressa a verdade essencial de que a história, apesar de seus aspectos sombrios, obedecem ao desígnio eterno de DEUS. Ao dizer que “DEUS dá sabedoria aos sábios e entendimentos aos entendidos”, Daniel declara que DEUS dá sabedoria àqueles que são receptivos à luz celeste, isto é, aqueles cuja mente está sintonizada à Sua. Em perfeita humildade Daniel não se arroga nenhum mérito, mas reconhece que toda sabedoria e poder vem de DEUS, “que a todos dá liberalmente” (Tiago 1:5).

Daniel informa a Arioque que a sentença de morte não precisa ser levada a efeito pois está pronto a comparecer perante o rei e declara-lhe a interpretação (v.24). Arioque, aparentemente desejoso de angariar mérito para si, não perde tempo em trazer Daniel à presença do rei: “Achei um dente os filhos dos cativos de Judá, o qual revelará ao rei a interpretação” (v.25). O rei parece não menos surpreso à vista de Daniel, um mero sem nenhuma credencial. Daniel começa por declarar que nenhuma sabedoria humana poderia revelar o mistério do sonho e esta era a razão por que os sábios tinham falhado. Mas ele conhecia um DEUS nos céus que revela segredos e seu DEUS se tinha dignado revelar ao rei e a ele próprio um vislumbre dos acontecimentos futuros (vv. 26, 27).

Embora menos de 3 anos tivessem passado desde que subira ao trono, Nabucodonosor estava preocupado com o futuro. A recente queda catastrófica do império Assírio deve ter impressionado a todos os contemporâneos a natureza transitória de toda a glória humana. Se o colosso assírio tinha sido derrubado de seu pedestal pelo curso dos acontecimentos, que esperança de durabilidade poderia haver para seu império? Humilhado pelo reconhecimento de que o curso da história escapava a seu controle, Nabucodonosor estava na disposição correta para receber uma revelação da soberania divina. Esta revelação era autenticada pelo fato de que o mesmo sonho foi concedido a Daniel e ao rei. O rei estava pronto para ouvir.

Em ser escolhido como o mediador da interpretação do sonho, Daniel nega possuir qualquer sabedoria superior aos demais mortais. Ele era um simples canal através do qual a revelação divina estava sendo comunicada ao rei concernente ao “que há de ser”, isto é quanto ao futuro curso dos acontecimentos até o desfecho final da história (vv. 28 – 30).

O Conteúdo do Sonho (vv. 31 – 35)

O que Nabucodonosor tinha visto no sonho era uma grande imagem ou estátua (aramaico selem), cuja aparência era aterradora. Esta estátua composta de metade de valor descrente é descrita em apenas dois versos (vv. 32 – 33). O que avulta no sonho e recebe atenção mais pormenorizada é uma pedra “cortada sem auxílio de mãos”, que feriu a estátua e a reduziu a pó tão leve como a palha que é levada pelo vento. Mais surpreendente foi a percepção de que a pedra “se tornou montanha que encheu toda a terra” (vv. 34 – 35).

A Interpretação do Sonho

A Cabeça de Ouro = Babilônia com Nabucodonosor(605-538 A.C)

A “cabeça de ouro” é interpretada como senso o próprio Nabucodonosor (v.38). Seu vasto domínio é descrito numa hipérbole tipicamente oriental (comparar Jeremias 27:6 para uma linguagem semelhante). O fato de que as partes seguintes da estátua são interpretada como “reinos” sugere que “a cabeça de ouro” simboliza o primeiro reino, do qual Nabucodonosor foi o representante mais notável. O intercâmbio entre “rei” e “reino” é também praticado no cap. 7 (comparar v.17 com os vv. 23 e 24).

O Peito e os Braços de Prata = os Medo-Persa com Ciro(539- 331 A.C)

O império de Babilônia, embora esplêndido como o ouro, teria de ceder lugar oportunamente a outro império caracterizado como inferior ao de Babilônia como a prata é inferior ao ouro. Qualquer um com um conhecimento elementar de história sabe que a Babilônia foi sucedida pela Medo-Pérsia como a maior potência da época. O domínio semítico no Próximo-Oriente terminou quando Ciro da Pérsia conquistou a Babilônia em 539 A.C. Entrementes Ciro já havia conquistado a media, a Armênia e Lídia na Ásia Menor. Seu Filho Cambises II anexaria o Egito em 525, e Dario estenderia seu domínio até à Trácia na Europa.

O Quadril de Bronze = os Gregos com Alexandre o Grande
– (331- 146 A.C)

O Império Persa durou aproximadamente dois séculos (539-331), quando por sua vez foi conquistado por Alexandre o Grande numa campanha relâmpago. Embora Alexandre mesmo tivesse uma carreira muito breve (356-323), seus sucessores, todos eles generais de origem macedônica, puderam reinar sobre um mundo helenizado durante dois séculos. O terceiro reino é caracterizado como um reino de bronze (v.39). Esta descrição quadra bem com os fatos, pois soldados gregos eram conhecidos por sua armadura de bronze. Heródoto conta que “Psamético I do Egito viu os piratas gregos que invadiam o Egito o cumprimento do Oráculo que predisse “homens de bronze vindos do mar”³.  O domínio greco-macedônico estendeu-se sobre toda a terra, pois o território controlado por Alexandre e seus sucessores incluía a Macedônia, a Grécia, e todos os territórios do antigo Império Persa. Este era praticamente o mundo conhecido de então para quem vivesse na Babilônia.

As Pernas de Ferro = os Romanos – (146 A.C – 476 D.C)

A parte de ferro da estátua é interpretada como um quarto reino e é o objeto de uma interpretação mais pormenorizada. Desde Hipólito e Jerônimo até o dealbar da crítica moderna, estudiosos cristãos eram unânimes em interpretar o quarto império como o Império Romano.

A maioria dos comentadores admite que há um paralelo entre as visões dos cap. 2, 7 e 8. Na visão do cap. 8 o bode é claramente identificado como o rei ou reino da Grécia (v.21). O rei da Grécia é identificado como o bode peludo, e o chifre grande entre os olhos como o primeiro rei. Os quatro reinos nos quais o reino de Alexandre se dividiu são simbolizados pelos 4 chifres que surgiram no lugar do primeiro. Segue-se que o ferro da estátua não pode representar a Grécia nem os reinos dos sucessores de Alexandre. Só pode significar o Império Romano.

Eduardo Gibbon em sua História do Declínio e Queda do Império Romano apropriadamente descreve Roma como “A Monarquia de Ferro”. Foi o império com maior tenacidade e com a maior coerência interna. Não admira que Roma tenha exercido uma soberania indisputada sobre o mundo Mediterrâneo durante mais de meio milênio. Sua grande durabilidade explica-se tanto por suas leis como por seu poder militar.

Pés de Ferro e Barro = Império Romano Restaurado – Tempos atuais

As pernas da estátua simbolizam Roma na plenitude da sua força. Embora forte como o ferro, Roma também sofreria decadência e ruína. A última fase de sua existência é representada por pés e dedos em parte de barro e em parte de ferro (v.41). Sob o impacto das invasões bárbaras o Império Romano finalmente fragmentou-se nas nações que eventualmente formariam a Europa moderna, nações estas em parte fortes e em parte frágeis (v.42). A condição dividida da Europa, a despeito dos esforços para uni-la seja pela guerra, seja por casamentos políticos, continuaria até o dia quando “o DEUS do céu suscitará um Reino que não será jamais destruído”(v.44).

Os reinos deste mundo desfrutaram por um tempo o fastio de seu poder e glória para cair no olvido de algumas décadas ou século. Mas o reino de DEUS subsistirá para sempre. A grande lição que este sonho devia comunicar é que autoridade suprema pertence a DEUS. Somente ele tem o futuro na mão. Impérios terrestres erigidos sobre sacrifícios involuntários de milhares de seres humanos levam em si o germe de sua própria decadência e morte. Somente o reino de DEUS fundado sobre o amor e o sacrifício próprio durará para sempre.

O valor decrescente dos metais da estátua não pode significar que cada império fosse inferior ao precedente em extensão territorial ou poder, pois os fatos da história desmentem essa ideia. O Império Medo-Persa abraçou um território muito mais extenso que o de Babilônia. De igual modo o Império Romano excedeu de muito todos os outros em extensão territorial e duração. É mais provável que o valor decrescente dos metais tenha que ver com a perspectiva do profeta: os reinos que lhe eram mais próximos no tempo lhe pareciam mais importantes do que aqueles mais distantes no horizonte da história. O adjetivo ‘inferior’ no aramaico sugere uma interpretação pura geométrica: inferior significaria simplesmente uma posição mais baixa em relação a terra.

Nada é dito na interpretação do sonho sobre haver dez dedos no pé da estátua, mas isso pode ser subentendido. Alguns comentadores têm visto, e nós cremos com razão, uma relação entre os (dez) dedos da estátua e os dez chifres da quarta besta em Daniel 7:7. Tanto os dedos como os chifres simbolizariam as nações da Europa em que o Império Romano se desintegrou. Deve-se admitir, porém, que o número dez pode significar simplesmente muitos nesta linguagem simbólica. De outro lado Daniel não menciona a divisão do corpo da estátua em duas pernas, e não há razão para se atribuir significado simbólico ao fato. Alguns pormenores são descritos apenas para completar o quadro. Há comentadores que sugerem que o autor do livro emprestou a ideia das 4 épocas simbolizadas pelos quatro metais do poeta grego Hesíodo, ou de fontes iranianas. O fato, porém, é que Hesíodo escreveu de 5 épocas e não de 4: ouro, prata, bronze, a época dos heróis e ferro. Além disso sua visão era voltada para o passado, e não para o futuro, como era o caso com Daniel. Hesíodo imaginava estar vivendo na época do ferro. De outro lado, uma vez que as cópias mais antigas do Dinkart, onde as ideias de Zoroastro quanto às 4 épocas se encontram, datam do nono século de nossa era, não há base para a hipótese de que Daniel se tenha louvado nesta fonte. Ao contrário alguns estudiosos estão começando a sugerir que os livros iranianos exibem dependência do Velho Testamento e não vice-versa 4

Daniel e seus Companheiros Recompensados (vv. 46 – 49)

Na maneira extravagante de Nabucodonosor mostrar sua admiração por Daniel e seu Deus pode ser desculpada por sua educação pagã. O que é de surpreender é que Daniel não tenha recusado, tanto quanto se possa perceber do texto, esta homenagem quase divina. Talvez a intenção do rei fosse de honrar a Deus na pessoa de Seu fiel servidor. Como outra prova de sua gratidão p rei promoveu Daniel ao posto de governador da província de Babilônia e o fez chefe supremo de todos os sábios de Babilônia. Daniel não se esqueceu de seus companheiros que estiveram a seu lado na crise e que com ele pleitearam o favor divino. Também eles foram confiados com responsabilidades oficiais na mesma província.

O que é incrível é que esta lenda da corte, como os críticos a chamam tenha sido incorporada no livro de Daniel sem expurgo, se o livro foi editado no segundo século. A ideia de um ser humano receber homenagem divina de um rei pagão seria extremamente ofensiva aos judeus. Igualmente ofensiva na época dos Macabeus seria a história de os judeus colaborarem com um monarca pagão, especialmente quando este monarca se inclinava a deificação própria como a história do cap.3 o mostra. Nada milita contra uma data do capítulo durante o exílio, particularmente quando se considera que ‘profecias dinásticas’ estavam sendo compostas no mundo babilônico de então. A necessidade de uma delineação autêntica no futuro forneceu a Daniel a ocasião de compô-la sob inspiração divina.

Notas

1. Para a importância de sonhos no meio babilônico ver Transaction of the American Philophical Society, vol. 46, part 3, 1956,p. 227. Para um sonho de Assurbanipal ver ANET, pp. 451 e 606.

2. A. L. Oppenheim, Op. Cit., p. 237.

3. Heródoto ii.152, cit.no SDABC, vol 4, p. 774.

4. Ver J. C. Baldwin, Daniel, p. 98 e particularmente a nota 3.

Observação: as imagens não constam no livro

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